29 de novembro de 2017

A VILÃ

O cinema sul coreano não é muito diferente do americano, sendo que produzem também inúmeros gêneros, desde a comédia romântica, terror e etc. A diferença é que lá se valoriza um cinema mais autoral, com direito de cada cineasta manter a sua visão pessoal na produção de seus filmes e resultando em obras indispensáveis. É claro que para o marinheiro de primeira viagem, principalmente para aquele que se acostumou com o comodismo do cinema americano, A Vilã pode ser um verdadeiro soco no estômago, mas superando qualquer filme de ação ianque que se preze.
Dirigido pelo documentarista Byeong-gil Jeong, acompanhamos a cruzada de uma espiã Sook-hee (Ok-bin Kim), que na infância viu o seu pai sendo assassinado e acabando sendo treinada desde cedo para se tornar uma verdadeira maquina de matar. Anos vão se passando, ela se casa com o seu próprio mentor, mas esse último acaba sendo morto pelos seus inimigos. Jurando vingança, ela passa os próximos dez anos em um novo treinamento, cuidando de uma filha e com a promessa de uma vida comum, mas mal sabendo das artimanhas que pessoas próximas estão criando contra ela.
É claro que alguns críticos neste momento irão comparar facilmente essa obra ao clássico francês Nikita de Luc Besson. Porém, é de estranhar a tamanha coincidência que o filme chegue aos cinemas pouco depois do filme Atômica, estrelado, produzido por Charlize Theron e cuja trama possui algumas passagens semelhantes a esse filme coreano. Contudo, esse último sai ganhando, principalmente pelo fato do cineasta não colocar as mãos no freio e com intuito de chocar e nos surpreender com cada cena de ação apresentada.
Os primeiros minutos de projeção, aliás, supera quase em tudo o que havia sido apresentado no cinema nesse ano em termos de ação e violência. Começando com uma sequência em primeira pessoa, testemunhamos algo parecido no que é visto num jogo de vídeo game, onde o jogador precisa atirar e recarregar a arma antes que venha a ser atacado. O Resultado é uma sequência (aparentemente) sem cortes, onde vemos os adversários tombando de um em um em meio a tiros, facadas e jatos de sangue para todos os lados.
Mas a cena não para por aí, pois o cineasta Byeong-gil Jeong tem a proeza de criar ângulos de câmera impossíveis e dos quais somente com o uso de efeitos visuais seria possível. Porém, é praticamente impossível de nós percebemos o uso desse recurso nessa sequência, assim como os cortes quase imperceptíveis e isso graças a uma montagem mirabolante. Quando vemos o reflexo da protagonista num espelho, por exemplo, a câmera deixa de ser a representação do seu olhar, mas quase não nos damos conta dessa mudança brusca na apresentação dessa abertura alucinante, pois já estamos mais do que eufóricos com relação ao que está acontecendo naquele momento na tela.
Após essa abertura, o filme desacelera um pouco, para que então comecemos a conhecer melhor a natureza daquela personagem e do porque ela ter entrado nesse labirinto de violência e sangue. O grande problema é que a trama em si poderia render pelo menos dois filmes, mas os realizadores optaram então em condensar tudo numa única história de pouco mais de duas horas. Não que tudo pareça ser incompreensivo, mas requer atenção, principalmente por possuir cenas que, por vezes, parecem um tanto que fragmentadas e incompreensíveis num primeiro momento.
A situação somente melhora pra valer no terceiro ato, quando a protagonista conhece a real natureza da realidade em que vive, até então distorcida e moldada por pessoas que até então a enganavam num jogo de múltiplas conspirações. Se a trama, por vezes, se torna inverossímil, pelo menos a atuação feroz da Ok-bin Kim compensa tudo, pois realmente sentimos uma fúria vinda de sua personagem e da qual ela bota pra fora nos minutos cruciais da trama. Esses minutos, aliás, é uma espécie de continuidade com os minutos iniciais do filme e nos deixando novamente anestesiados até mesmo quando começam a subir os créditos finais.
A Vilã é desde já um dos melhores filmes de ação do ano, mas não recomendado para estômagos fracos. 
 

15 de novembro de 2017

LIGA DA JUSTIÇA (Crítica)

Filme reúne heróis clássicos dos quadrinhos da DC como embrião da Liga da Justiça.
É difícil para mim, com 32 anos de idade, assistir ao longa-metragem da Liga da Justiça, sem fazer associações com todas as influências que eu já tive sobre os heróis da Detective Comics (DC). Desde minha infância, foram histórias em quadrinhos, desenhos animados e filmes do Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman, Lanterna-Verde e da própria Liga da Justiça dos Super-Amigos.

A história está contextualizada no novo universo cinematográfico da DC, que iniciou com Homem de Aço (de 2013), cujos eventos culminaram em Batman VS Superman: A Origem da Justiça (de 2016). Vale lembrar também que está contido neste universo o (péssimo) Esquadrão Suicida (2016). Com tantos problemas de produção, a direção ficou a cargo de Zack Snyder (300, Watchmen) que traz suas características fortes de estética também neste filme. No elenco principal estão Gal Gadot (Mulher-Maravilha), Jason Momoa (Aquaman), Ben Affleck (Batman), Ezra Miller (Flash), Ray Fisher (Cborgue) e Henry Cavill (Superman). O filme conta ainda com participações importantes de estrelas como Amy Adams (Lois Lane), Diane Lane (Martha Kent), Joe Morton (Dr. Silas), J.K. Simmons (Comissário Gordon), Jeremy Irons (Alfred), Ciarán Hinds (Steppen Wolf), entre outros.
Na trama, após a morte de Superman contra o Apocalipse, uma outra força alienígena desperta e percebe que, com a humanidade sem esperança, é a hora de tomar a Terra. O vilão desta vez é o Lobo da Estepe, que busca juntar 3 "caixas-mãe, que lhe darão o poder necessário para destruir a Terra. Para isso, ele junta um exército de "insetos-voadores-humanoides" (os mesmos do "hype" do Batman no filme anterior) que se alimentam de medo (nerds irão reparar que há sempre elementos amarelos junto deles, a energia do Medo, mas ainda sem referência direta à energia da esperança dos Lanterna-Verdes). Para salvar a Terra, Batman busca ajuda da Mulher-Maravilha e tenta encontrar outros "meta-humanos): Arthur Cury, o Aquaman, cujo poder emana do continente perdido de Atlantis e tem poder sobre as águas (ou ele fala com os peixes?); Barry Allen, o Flash, que tem a velocidade de um relâmpago e Victor Stone, Ciborgue, um jovem ressuscitado pela intervenção do próprio pai cientista, que utiliza dos poderes de uma das caixas-mãe ranformando-o numa máquina que pode se conectar a toda as redes, aparelhos eletrônicos e tem conhecimento de linguagem alienígena.

Mas o Superman não tinha morrido? Como é que ele aparece nos créditos? Bem, quem é novo nisso deve entender que Super-Heróis da DC (quase) nunca ficam mortos para sempre. Impossível fugir do spoiler aqui, mas resumidamente, Batman encontra um jeito de ressuscitar seu super-amigo para juntos lutarem pela Terra novamente.

Aqui faço minha primeira crítica ao filme. O método para trazer o Superman de volta à vida foi, tecnicamente muito simples... Não há falhas no roteiro, tudo fica bem explicado, mas é pobre na dramaticidade. Particularmente, ao ver fotos de Henry Cavill de barba nos sets de filmagem, eu esperava que tivesse algum tipo de exílio dele, para que voltasse mais forte, mas não... ele passa por certa perturbação, mas ao ver Lois Lane, o amor de sua vida, rapidamente volta a ser o bom e velho Clark Kent.

Além disso, outra situação que me incomodou um bocado sobre Henry Cavill foi o efeito visual para tirar o seu bigode digitalmente. Durante as gravações de Liga da Justiça, Cavill mantinha um contrato que o impedia de raspar o bigode para Missão: Impossível 6. Assim, o jeito foi "raspar" digitalmente, o que não ficou bom... estava claro que algo estava "errado" na cara dele.
Fora isso, o filme funciona bem, com humor na dose certa, sem forçar a barra. A exemplo da Marvel, optaram por deixar os ganchos das sequências nas cenas finais (deve vir aí algo do tipo Liga da Injustiça).

Sobre os demais personagens, são tão significativos na cultura pop, que é quase impossível alguém mesmo fazer algo novo sem associar as clássicas produções de desenho e série dos anos 60, 70 e filmes nos anos 80. Os próprios roteiristas bebem nessa fonte certamente ao criar referências para as piadas no filme, como quando Batman faz referências a 'pinguins amarrados com bombas' como uma "era mais simples". O destaque do humor fica no Flash, usado como um jovem adulto, ainda meio adolescente, como a Marvel sabiamente sou fazer com Spiderman. Batman é o Líder deste grupo, mas sabe que somente Superman pode trazer esperança novamente à humanidade. Mulher-Maravilha é a força incansável, ainda com medo de assumir seus poderes e liderar junto por traumas do passado. Aquaman interpretado por Momoa dá um ar diferenciado daquele patético herói que ninguém queria ser na infância; agora ele é forte, destemido, e um anti-herói, que prefere viver sozinho (é quem tem menor participação na trama). Quem ganhou bastante importância foi Ciborgue, pela suas capacidades técnicas, muito mais do que por sua personalidade de jovem adulto, tentando descobrir seu papel neste novo mundo.

A trilha sonora leva a assinatura de Danny Elfman, mas traz elementos da trilhas que Hans Zimmer criou para os filmes anteriores. Ela funciona muito bem e, para mim, ficou muito clara a utilização sutil de elementos dos icônicos temas do Superman clássico de 1978, de John Williams e do Batman de 1989, do próprio Elfman. Ambas foram usadas como leitmotiv, nas entradas de Superman e Bataman, respctivamente, na principal cena de ação. É mais um elemento na tentativa quase certeira de Zack Snyder dar um tom de "épico" ao filme, como vem sendo trabalhado nos filmes anteriores.

Em suma, o filme é bom, tem ritmo, não é cansativo e tem boa dose de humor. Além disso, abre um leque para novas possibilidades dentro do universo DC. Podemos aguardar certamente novos filmes solos de cada herói e vilão que aparece no filme, bem como uma retomada de outros heróis clássicos como Lanterna-Verde e, quem sabe, Gavião-Negro, Mulher-Gavião, Arqueiro-Verde, Capitão Marvel, Caçador de Marte, entre outros.

Vejam o trailer abaixo.

9 de novembro de 2017

Thor - Ragnarok

Se há uma crítica da qual a Marvel Estúdio sempre sofre é pelo fato deles sempre inserirem piadinhas que, por vezes, surgem na hora errada. Não importa o que aconteça, mesmo quando alguém da trama morre, pois a piada sempre estará lá engatilhada para amenizar o clima pesado, mas que acaba soando meio que inverossímil. Talvez o estúdio tenha percebido que a fórmula esteja um tanto que desgastada e decidiu virar a mesa em Thor Ragnarok, do qual o filme não possui somente algumas piadas, pois o filme já é uma grande piada e das boas.
Dirigido por Taika Waititi (O que Fazemos nas Sombras), o filme se passa tempos depois de Vingadores: A Era de Ultron, onde Thor (Chris Hemsworth) decide viajar pelo universo em busca pelas joias do infinito que restam. Durante o trajeto, acaba descobrindo que Asgard sofrerá o Ragnarok, o apocalipse dos deuses nórdicos. Embora tente evitar que esse dia chegue, Thor acaba dando de encontro com a sua diabólica irmã Hela (Kate Blanchett) que o envia para outro planeta e acaba sendo forçado a participar de uma luta de gladiadores.
Depois de um razoável Thor e um bom Thor: O Mundo Sombrio parece que a Marvel finalmente conseguiu achar o tom certo para o seu personagem, mas que vai contra tudo o que muitos fãs das antigas imaginavam. Sai o tom sério disfarçado com algumas piadas e dando lugar a mais pura comédia, embalado com um visual colorido bem ao estilo anos 80 (sempre eles) e com uma música eletrônica que relembra os bons tempos daquela época. É como se estivéssemos vendo o filme cult Flash Gordon daquele tempo, mas com um orçamento mais inflado e que não perde tempo em levar a sério o enredo em nenhum momento.
Tendo ganhado prestigio por onde passou com o seu filme O que Fazemos nas Sombras, Taika Waititi parecia à escolha mais improvável para dirigir um filme como esse. Porém, após terem tido bons resultados como, por exemplo, Guardiões das Galáxias de James Gunn, o estúdio percebeu que era válido arriscar e dando então mais  liberdade criativa para que os seus cineastas fizessem o que bem entenderem.  Com isso, se percebe que Taika Waititi usou e abusou do filme como um todo, como se tivesse aberto uma caixa cheia de brinquedos e tendo brincado com eles nas mais diferentes maneiras.
Embora o filme mantenha a velha interligação com o restante dos filmes na Marvel, é notório que muito que é mostrado no filme não aparecerá em outros projetos futuramente, pois é algo que funciona somente aqui e nas mãos desse cineasta. Ver o Thor fazendo piada em larga escala em meio a lutas, correria e efeitos visuais é algo absurdamente divertido e surreal. Porém, o filme se casa bem nos momentos mais dramáticos, principalmente aqueles protagonizados pela vilã Hela, onde Kate Blanchett consegue criar com o seu grande talento uma das melhores vilãs do estúdio até aqui.
Falando em vilões, se Loki (Tom Hiddleston) finalmente assume a sua posição como anti-herói (algo que os fãs queriam desde sempre), Grandmaster (Jeff Goldblum, ótimo), sendo o líder do mundo estranho do qual Thor acaba preso, acaba se tornando uma nova ameaça além de Hela, mas de uma forma divertida e muito megalomaníaca. Já na ala de aliados, Valkyrie (Tessa Thompson de Creed) acaba sendo uma grata surpresa. Durona, beberrona e revoltada, Valkryire é a típica heroína que as meninas feministas irão adorar, pois ela possui uma personalidade forte e uma presença que sempre rouba a cena quando surge.
Mas nada, repito nada supera as divertidíssimas cenas entre Thor e Hulk (Mark Ruffalo). Após uma divertida desavença entre os dois na arena de gladiadores, ambos os personagens se unem e nos brindando com momentos hilários, divertidos e até mesmo com piadas com um teor mais adulto. Aliás, é a primeira vez que testemunhamos no cinema o Hulk falar pela terceira pessoa e que com certeza irá alegrar os fãs mais antigos.
Com uma hilária participação especial de Benedict Cumberbatch como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok é uma piada pronta do começo ao fim, mas de uma forma deliciosa ao ser degustada e muito bem vinda. 

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