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19 de outubro de 2017

Detroit em Rebelião



Primeira diretora da história ao ganhar um Oscar de melhor direção, Kathryn Bigelow provou que tinha mão firme na realização de filmes sobre as guerras, mas dos quais possuía certo grau de crítica sobre os conflitos. Títulos como Guerra ao Terror e A Noite Mais Escura são exemplos de um retrato cru de soldados americanos que, ou eram jogados numa guerra que não era deles, ou sendo encarregados de procurar e exterminar apenas um homem. Em tempos atuais, em que o retrocesso comandando por um conservadorismo assombra o mundo, Kathryn Bigelow decide revisitar o passado em Detroit em Rebelião, cuja trama ecoa de uma maneira forte e desconcertante em nosso presente.
A trama se passa no ano de 1967 na cidade de Detroit, num período que o preconceito racial ainda era muito forte. Após uma batida policial num bar clandestino, a comunidade negra se revolta com as autoridades inconsequentes e se criando então uma verdadeira rebelião por toda a cidade. Não demora muito para que esse conflito gere uma verdadeira guerra civil local e com inúmeras perdas.
Na virada dos anos 60 para os 70, aconteceu uma luta sem precedentes pelos direitos civis, onde a comunidade negra lutou como nunca para conseguir o seu lugar ao sol. Ao mesmo tempo os EUA estavam sendo derrotados na guerra do Vietnã e dando sinais que a corrupção política estava cada vez mais afetando os cidadãos da época. Numa época em que á crise e a baixa auto estima faziam nascer o pior do homem, sobrava para pessoas inocentes sentirem na pele o veneno vindo da intolerância.
Em sua primeira meia hora de projeção, Kathryn Bigelow retrata o americano derrotado, revoltado e imprudente. A cineasta faz então questão de retratar essa panela de pressão naqueles dias, onde vemos soldados paranoicos e afetados pelo que viram no outro lado do mundo, começar a descontar em pessoas inocentes e que não tiveram nada a ver com relação ao nascimento desse conflito em Detroit. Ao mesmo tempo, testemunhamos policiais já convivendo nesse dia a dia da cidade, mas não sabendo administrar suas próprias ações e gerando um terror psicológico sem fim.
Mesclando cenas filmadas com cenas verídicas da época, Kathryn Bigelow busca ao máximo um grau de verossimilhança em sua reconstituição de época. Assim como Guerra ao Terror, sua câmera treme, seguindo os seus personagens principais para não perder o foco e fazendo a gente testemunhar o pesadelo dos quais eles irão encarar. Ao reconstituir inúmeros fatos ocorridos na época, à cineasta cria então subtramas e das quais cada uma delas irão dar de encontro num motel e tornando o cenário num verdadeiro inferno.
Ao chegarmos a esse ponto, Kathryn Bigelow faz questão de criar planos fechados, com o desejo para que possamos sentir a tensão e medo do qual os personagens estão sentindo num espaço tão pequeno. Todo esse cenário de horror é comandado pelo policial Krauss (Will Poulter, de O Regresso), que acredita que o que está fazendo é o certo para conter a violência, mas usando métodos imprudentes e levando a todos para um caminho sem volta. No mesmo local conhecemos o policial Dismukes (John Boyega, de Star Wars: O Despertar da Força), que tenta a todo custo ajudar os seus irmãos da comunidade, mas ao mesmo tempo não querendo entrar em conflito com os demais policiais.
Ambos são dois lados distintos do conflito, sendo que um é inconsequente, movido pelo racismo e outro é movido pelo coração, mas tendo medo da retaliação. Em comum, ambos querem fazer o necessário para cessar o conflito, mas tendo as suas visões nubladas pelo preconceito, medo e a violência que acabam moldando as suas ações. O resultado é a perda da vida de inocentes, em uma situação que poderia ser amenizada através do dialogo, mas que passou muito longe desse cenário.
Com a participação de atores como Anthony Mackie (Capitão América: Guerra Civil) e Tyler James Williams (Todo Mundo odeia o Cris), Detroit em Rebelião é um filme que veio na hora certa para nos servir de alerta, pois vivemos numa realidade em que o fantasma do conservadorismo e da intolerância de um passado vem cada vez mais nos assombrando e ameaçando o nosso futuro.

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