Parceria

20 de dezembro de 2016

Sully - O Herói do Rio Hudson



Às vezes o mundo real é mais surpreendente do que qualquer ficção. Seja ela em maior ou menor grau, existem histórias das quais que, mesmo havendo provas, duvidamos até mesmo de sua veracidade. É pensando desta forma que, talvez, Clint Eastwood tenha se interessado em levar os eventos do dia 15 de Janeiro de 2009 para as telas, já que a situação fez com que os EUA e o mundo parassem na frente da TV, pois tudo era deveras surpreendente.
Baseado em fatos verídicos, acompanhamos o piloto Sully Sullenberger (Tom Hanks), que vive uma fase de herói nacional, já que conseguiu o que muitos pilotos na história nem sonhavam em conseguir. Durante uma viagem de vôo, seu avião é atingido por um grupo de pássaros e fazendo com que um dos motores da aeronave ficasse comprometido. Sem muita opção em pouco espaço de tempo, Sully toma uma medida arriscada: pousar o avião com 155 passageiros a bordo e justamente nas águas do Rio Hudson.
Após o feito, passageiros e tripulantes são resgatados todos com vida e tanto Sully, como o seu companheiro co-piloto (Aaron Eckhart) são reconhecidos como heróis. Contudo, Sully começa a ter conflitos internos com relação a sua façanha, pois sabe que a sua escolha poderia também desencadear um trágico evento. Ao mesmo tempo, os donos da empresa de aviação acreditam que Sully pode ter cometido um erro e o que faz dele um alvo a ser questionado.
Sem muitas pretensões, Clint Eastwood não faz da figura de Sully um herói da pátria, mas sim o retrata na tela como uma pessoa comum, do qual participou de uma situação incomum e que agiu com profissionalismo para o bem dos passageiros dos quais ele levava. Não há também no filme a pretensão em transformar as figuras daqueles que acusam Sully em vilões, mas sim retratar homens que são presos pela burocracia e que, assim como o protagonista, são também seres humanos cheios de dúvidas. Portanto não há heróis ou vilões na trama, mas sim humanos que tentam saber administrar uma situação poucas vezes vista e sentida.
Embora o incidente tenha acontecido em pouco espaço de tempo, podemos facilmente colocá-lo dentro do gênero “filme catástrofe”, pois Eastwood consegue explorar alguns dos passageiros do avião através de flashback. É claro que isso é um artifício para fazer com que nos identifiquemos com algum dos personagens apresentados, mas meio que ele soa um tanto que deslocado, pois pelo que é entendido, estamos vendo um flashback de Sully, mas se é assim como ele poderia ter acompanhado o que os passageiros estavam fazendo minutos antes de embarcarem? Um momento de pouca verossimilhança e que somente serve para dar mais dramaticidade à trama, mesmo que de uma forma um tanto que equivocada.
O filme funciona mais graças à presença do sempre competente de Tom Hanks e que, apesar de não possuir uma caracterização semelhante com o verdadeiro Sully Sullenberger mostrada no filme, sua interpretação é eficaz. É genial, por exemplo, quando o seu personagem encara dentro de si as inúmeras possibilidades das quais poderiam ter surgido e que causariam um verdadeiro desastre. É nessas cenas que Hanks passa todo o seu potencial, mesmo numa trama da qual não exija muito dele.
Vale destacar o ato final da trama, pois é colocado em pratica o lado humano perante uma situação da qual nem a própria tecnologia pode realmente explicar.  Se a tecnologia diz o que é para se fazer, não significa que colocá-la em prática numa situação crítica irá dar realmente certo. O milagre do Rio Hudson talvez tenha acontecido até mesmo por inúmeros fatores, mesmo em poucos segundos e que tudo poderia ter dado errado. 
Sem nenhum pingo de pretensão, Sully - O Herói do Rio Hudson é apenas uma pequena reconstituição de um grande feito alcançado pelo profissionalismo e pelo desejo de salvar inúmeras vidas a bordo.  
 

17 de dezembro de 2016

ROGUE ONE – UMA HISTÓRIA STAR WARS

Quando de Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança foi lançado no final da década de 70, os EUA viviam em tempos nebulosos: derrota no Vietnam, crise econômica, escândalo de Watergate, racismo, intolerância e aumento da criminalidade em grandes cidades como Nova York. O filme veio para dar uma levantada na moral, onde o povo assistia um grupo de rebeldes contra um grande império, do qual trazia somente perseguições e mortes para inúmeras pessoas em toda a galáxia. Depois de duas trilogias, e mais o começo de uma  iniciada com O Despertar da Força no ano passado, chega a vez de  Rogue One - Uma História Star Wars, do qual trás novamente idéias já exploradas do filme de 1977, mas que de uma forma surpreendente, corresponde com diversos assuntos atuais, principalmente com relação ao fascismo que está cada vez aumentando, tanto nos EUA, como também no Brasil e no mundo.
Dirigido por Gareth Edwards (Jurassic World) o filme acompanha a história de Jyn Erso (Felicity Jones), que vê sua mãe sendo morta na sua frente e seu pai Galen (Mads Mikkelsen) sendo levado pelo império galáctico e sendo forçado a construir uma incrível arma de destruição, ou seja, a Estrela da Morte. Anos se passam e Erso se torna uma rebelde fora da lei, mas logo é resgatada (a contra gosto) pela aliança rebelde, que lhe dá a missão de chegar até o guerrilheiro Saw Gerrera (Whitaker), que aparentemente recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen através do piloto Bhodi Rook (Ahmed). A partir daí, a relutante heroína ganha à companhia do rebelde Cassian Andor (Luna), do monge-guerreiro Chirrut Îmwe (Yen) e seu companheiro Baze Malbus (Wen) e do droide K-2SO (Tudyk), que foi reprogramado para ajudar aqueles que se opõem ao Império.
Embora a trama esteja inserida em uma saga vasta, cujo seu universo já se espalhou tanto por games, séries, gibis e livros, Rogue One é uma história que possui começo, meio, fim e não faz com que você se veja obrigado a ter que assistir a outros filmes para entender a trama. Aliás, embora com toda a sua riqueza de informações, a trama é aparentemente simples, mas ao mesmo tempo madura e que explora situações até então inéditas dentro da franquia. É como se você revisitasse uma velha casa conhecida, mas nunca havia percebido alguns detalhes nela, dos quais poderiam ter sido mais bem explorados.
É claro que sempre havia um temor em se criar uma trama isolada e sem a participação dos personagens principais da franquia. Porém, havia sempre aquela curiosidade em explorar situações das quais haviam apenas sido citadas anteriormente, como no caso das missões de outros rebeldes contra o império. Felizmente os roteiristas foram habilidosos ao criarem uma galeria de personagens onde cada um possui uma personalidade distinta e que foram muito bem exploradas.
Mas, embora com inúmeros personagens interessantes, a alma do filme se encontra mesmo na personagem Jyn Erso, cuja sua personalidade forte, faz então com que ela se torne relutante perante a situação da qual ela se meteu. Mesmo com a possibilidade de reencontrar com o seu pai, a sua rebeldia em não se meter na causa se torna um dos grandes charmes da trama, pois ela aos poucos vai mudando, conforme vai testemunhando os horrores que o império criou a sua volta. Claro que muito dessa complexidade da personagem se deve muito ao empenho da atriz Felicity Jones, cujo ápice da sua interpretação é quando ela dá de encontro com a imagem de uma gravação do seu pai e faz com que sua personagem revele outra faceta de sua pessoa até então escondida dentro dela.
Dos demais personagens, se por um lado Cassian Andor (Diego Luna) é um personagem apenas “ok” com relação a sua conduta em favor da causa, o droide K-2SO  acaba sendo um pequeno, porém, eficaz alivio cômico durante a trama graças ao seu humor sarcástico. O mesmo não se pode dizer do rebelde Bhodi Rook (Ahmed), cujo seus poucos momentos em cena não fazem com que tenhamos simpatia por ele o suficiente.
Do restante do grupo, acabamos realmente nos importando mesmo com a dupla formada pelo monge-guerreiro Chirrut Îmwe (Yen) e seu companheiro Baze Malbus (Wen), cuja suas teorias com relação à Força trazem a tona uma discussão sobre fé e descrença em meio ao caos. Aliás, Chirrut Îmwe é um personagem que os fãs da franquia irão guardar na memória com muito carinho, pois embora não seja um jedi, sua fé faz com que tome decisões imprevisíveis e emocionantes no decorrer da trama. Fé, aliás, era algo que quase não foi muito explorado durante a franquia, sendo que o único vislumbre disso era através das palavras do mestre Yoda lá atrás no Império Contra Ataca. 
Falando em personagens clássicos, alguns deles surgem no decorrer da história, mesmo que de forma rápida. Se por um lado RD2 e C3PO aparecem em poucos segundos, temos uma surpreendente participação de Darth Vader em duas cenas chaves que, aliás, a segunda é genuinamente assustadora e imprevisível. E como se bastasse isso, os efeitos visuais tiveram papel fundamental para recriar a presença do ator Peter Cushing através de um dublê e trazer de volta em cena o maléfico Governador Tarkin que havia aparecido pela primeira vez em Uma Nova Esperança. 
Falando em efeitos visuais, alguns que forem assistir podem até dizer que a presença deles é discreta aqui, mas isso colaborou para não desvirtuar o lado retro que o filme possui e que se encaixa com o visual visto na trilogia original. Porém, toda ação e parte técnica dos efeitos se concentraram mais no grande ato final, onde os rebeldes liderados Jyn Erso tentam dar a última cartada contra o império para então roubar os planos com relação à Estrela da Morte. Aqui, o cineasta Gareth Edwards consegue a proeza de injetar um grau de verossimilhança poucas vezes visto na franquia e fazendo a batalha, tanto no espaço como na superfície se tornarem cruas, violentas e realistas.
Claro que para a maioria dos fãs que tem no mínimo algum conhecimento da história da franquia, pode até tirar uma base de como a trama termina, mas para a maioria do público ela poderá até mesmo soar trágica e imprevisível. Não tinha como ser diferente, mas ao mesmo tempo é uma prova de como os seus realizadores foram corajosos em sua proposta e dando um exemplo de como a saga pode sim ainda criar histórias originais e que das quais nos emocionem. Se até então o universo expandido de Star Wars era para mim algo descartado, aqui ele me provou que, se for bem conduzido, pode ser sim bem apreciado.
Com um final que termina exatamente aonde começa Episódio IV: Uma Nova Esperança, Rogue One - Uma História Star Wars acerta em cheio ao se corresponder com a nossa realidade atual, da qual se encontra cada vez mais se afundando num fascismo de proporções mundiais, mas nos passando a lição de que nunca é tarde para redescobrirmos a esperança que há dentro de todos nós. 


7 de dezembro de 2016

A CHEGADA

A comunicação de hoje pode ser feita de inúmeras formas, pois basta, por exemplo, usar o tradutor do Google para saber o que a outra pessoa do outro lado do mundo está falando. Temos tanto recursos para termos um bom diálogo, mas que, infelizmente, cada vez mais estamos nos perdendo em meio à ganância, paranoia e preconceito. No mais novo filme de Denis Villeneuve (Incêndios), a trama explora a idéia de que, a comunicação pacífica global, é sim a melhor arma contra possíveis guerras que podem até mesmo dizimar toda a humanidade.
Baseada no romance “Story of Your Life”, publicado por Ted Chiang em 1998, acompanhamos a missão da Doutora em linguística Louise Banks (Amy Adams), que foi recrutada pelo governo dos EUA em tentar dialogar com seres extraterrestres que pousaram na terra. Na realidade há doze espaçonaves (em forma parecida com a de um ovo) pousadas em áreas distintas pelo globo e onde cada governo tanta compreender os motivos deles estarem ali. Não demora muito tempo para que a doutora lute contra o relógio, pois inúmeras potências começam a pensar em atacar.
A premissa pode até parecer simples, mas nada caindo nas mãos de Villeneuve se torna algo previsível, mas sim reflexível. Ao começar pelo fato de a todo o momento a doutora Banks ter lembranças (?) de quando era mãe solteira e se confrontado com um delicado problema vindo de sua filha. Essas passagens servem para que ela tente desvendar a melhor forma de comunicação perante os alienígenas, mas até onde isso é realmente verdade?
É aí que Villeneuve nos testa, já que essas passagens vêm e voltam na trama, para então montarmos um quebra cabeça que se encontra bem na nossa frente. Aliás, esses momentos me fizeram me lembrar de A Árvore da Vida de Terrence Malick, aonde a trama vinha e voltava no tempo e suas imagens pareciam de alguém observando a todo o momento. Ambos os casos tratam sobre a vida humana, sendo que aqui ela é posta em cheque inúmeras vezes, principalmente pelo fato dos seres humanos serem às vezes movidos por suas escolhas e terem que enfrentar as suas consequências.
Falando em atos e consequências, Banks se torna uma espécie de parede que separa os alienígenas dos seres humanos, já que esses últimos são movidos pelo desejo de escolha de somente se defender, mas não especificamente se comunicar. É então que testemunhamos a doutora, ao lado do seu parceiro de ciências Ian Donnelly (Jeremy Renner), usarem a comunicação através de palavras escritas, para logo descobrir a forma que os alienígenas se comunicam, não com palavras, mas sim com figuras enigmáticas. Não há como negar que é nesses momentos que o filme remete a filmes clássicos da ficção como 2001, Contatos Imediatos de 3º Grau e Contato, mas de uma forma da qual soa sempre original.
Embora existam inúmeras informações para ser digerido ao longo da trama, o roteirista foi cuidadoso para que essas passagens nunca soassem confusas, mas sim que fizesse com que ficássemos curiosos com cada imagem vista na tela. Isso melhora ainda mais pelo fato de já estarmos envolvidos com os seus personagens, principalmente pela sua protagonista. Amy Adams novamente nos brinda com um papel sob medida, mas que ao logo do tempo, nos surpreende ao conseguir nos passar todas as emoções da qual a sua personagem sente, principalmente quando ela encara determinadas revelações surpreendentes.
“Surpreende” talvez seja a palavra correta que define os momentos finais da trama, principalmente da maneira que nos é apresentado a melhor solução contra uma possível guerra iminente. Como eu disse no começo do texto, a comunicação é a melhor arma contra um futuro opressor que, embora aqui seja usada ao pé da letra, ela se torna mais do que válida, principalmente em tempos em que cada vez mais a extrema direita anda dominando ao redor do mundo e sem ter interesse em um dialogo pacifico. Pode ser um filme de ficção, mas uma proposta como essa, principalmente nos dias de hoje, sempre será bem vinda.
E como se já não bastasse tudo isso, os últimos minutos acabam nos emocionando pelo fato de nos colocar de frente com uma pergunta de peso: “se você tivesse conhecimento de sua vida, do começo ao fim dela, mudaria alguma coisa?”.
Denis Villeneuve nos faz levar essa pergunta para fora do cinema e ficamos então pensando sobre as inúmeras passagens de nossa vida e de como cada momento serviu para nos tornamos o que nós somos hoje. Talvez não tenha como mudar o que já aconteceu ou que acontecerá, mas o que conta é como você irá usar isso ao seu favor. Nada melhor, portanto, usar toda essa informação e experimentá-la em sua total plenitude. 
A Chegada pode até não ser um dos melhores filmes do ano, mas fazer a gente pensar sobre nós mesmos já é um grande feito. 

Receba no seu e-mail - Cadastre-se!

Mais Lidos do blog