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21 de janeiro de 2016

CAROL



Em 2002, o cineasta Todd Haynes (Não estou lá) viaja aos anos 50, e nos apresenta uma história, onde vemos uma mulher (Julianne Moore) se chocar ao descobrir que seu marido (Dennis Quaid) é gay. Em contra partida, ela mesma busca consolo nos braços do jardineiro negro (Dennis Haysbert) e despertando os olhares e preconceito da comunidade local. Estamos nos anos 50, onde ser gay era ser doente e ser de outra cor era ser diferente, sendo então uma época conservadora, mas que ao mesmo tempo já dava sinais que não poderia mais esconder as pessoas que eram diferentes umas das outras.
Com isso, Haynes decide então retornar a essa década problemática, onde vemos em seu mais novo filme, a relação de uma mulher mais velha chamada Carol (Cate Blanchett) com uma jovem chamada Therese (Rooney Mara). De uma simples amizade e troca de olhares que, começou numa loja de brinquedos, vai gradualmente à relação se tornando cada vez mais intensa. O problema que Carol é casada com Harge Aird (Kyle Chandler) que não o ama mais, mas ambos possuem uma filha e ele ameaça tirar dela a guarda da criança.
Lembrando novamente que estamos nos anos 50, num período em que muitos assuntos ainda eram tabus, não somente com relação à opção sexual, como também na falta de mais liberdade para a mulher. Carol tem tudo na vida, mas não se sente completa e seu dia a dia é somente nas aparências. Therese busca a realização de seus sonhos desde quando era criança, mas não busca exatamente um príncipe encantando. Uma vez as duas se encontrando, se percebe que uma se apóia na outra, preenchendo um vazio do qual elas convivem, para então sentir os desejos dos quais estão presos e que até então desconheciam.
Haynes capricha, não somente na apresentação das duas, como também quando ambas estão uma na frente da outra. Olhares, e gestos, sendo nenhum deles passado a despercebido e criando um jogo de câmera que sempre irá atrair o nosso olhar para então a gente ver o que irá acontecer. A fotografia fria (a trama se passa no natal) se mistura com as cores quentes do ambiente e de uma época de luz, mas ao mesmo tempo nas aparências, de uma sociedade que vendia a vida perfeita. Carol se vê sufocada nesse cenário mentiroso e não excitando em levar Therese para uma viagem de carro e irem até onde der.
Não espere por algo explicito e ardente como foi em filmes como Azul é a Cor Mais quente. Aqui é tudo nos apresentado de uma forma delicada que, uma vez consumada, se percebe então que valeu a pena chegar até esse momento. Portanto, Cate Blanchett e Rooney Mara nos convencem a todo o momento em cena, onde sentimos em cada gesto e olhar de uma paixão ardente pronta para transbordar. Uma se torna o pilar da outra, fazendo o filme pulsar a todo o momento e fazendo a gente desejar pela felicidade de ambas.
Infelizmente o preconceito bate a porta a todo o momento em que elas dão um passo à frente para a felicidade e ficamos transtornados pela forma como essa sociedade desse período agia de uma forma tão intolerante. Harge Aird é uma clara representação dessa intolerância, mas ao mesmo tempo em que ele não esconde o fato de não saber compreender ao certo a posição de sua esposa, ao ponto de sentirmos até mesmo pena dele. Visto em filmes prestigiados como O Lobo de Wall Street, Kyle Chandler vai gradualmente chamando a nossa atenção pelos seus bons desempenhos, e mesmo ele aparecendo poucas vezes em cena, ele chama a nossa atenção pelo seu empenho.
Voltando a dupla principal, vale lembrar que o filme começa com elas, em uma cena em que se dirige para a reta final da trama. Com isso, a trama retorna no tempo e acompanhamos de que maneira elas chegaram até aquele ponto em que elas nos foram apresentadas. Todd Haynes gosta de brincar com as nossas perceptivas, e fazendo com que nos perguntemos a todo o momento durante a projeção, como elas chegaram até aquele ponto e qual serão os destinos em que elas irão trilhar a seguir.
Dirigido por outra pessoa, o filme poderia facilmente cair no previsível no seu final, mas Haynes fecha trama de uma forma aberta e fazendo com que a gente se pergunte o que virá a seguir para as protagonistas. É um final que sintetiza a indefinição de um futuro perfeito, onde a pessoa daquele período decide abraçar pelo que sente, mas que se vê a frente de inúmeras possibilidades no seu futuro. Ou viva e morra pelo que deseja, ou morra gradualmente num mundo das aparências e da alienação. 
Com uma bela fotografia e edição de arte da época, Carol estréia justamente num período em que há certos conservadores que, tentam pegar a nossa realidade e regredir no tempo, mas o próprio passado visto no filme, do qual eles querem voltar, nos ensina que nada pode frear o que realmente nós sentimos.
 
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