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14 de outubro de 2015

A TRAVESSIA

No dia 28 de dezembro de 1895, os irmãos Auguste e Louis Jean Lumière exibirão no salão indiano do Grand Café de Paris os seus primeiros curtas metragens que eles filmaram através da sua invenção que era o cinematografo. Dentre os curtas, havia uma cena de um trem parando numa estação. A cena vista hoje é simples, mas na época os espectadores simplesmente saiam da cadeira e se escondiam, pois acreditavam que o trem iria atingi-los.
De lá pra cá o cinema evoluiu muito. De curtas passaram para longas; cores foram surgindo; o som foi substituindo o lado mímico do cinema mudo; os efeitos visuais vieram para fazer feitos impossíveis e o 3D surgiu com a possibilidade de entrarmos em um filme. Esse último recurso na realidade surgiu a partir da década de 50, mas foi somente a partir de Avatar em 2009 que ele se fortaleceu e agora em A Travessia ele se encaminhou á um novo patamar em fazer com que o cinéfilo sinta o que o protagonista sente no ápice do filme.
No mais novo filme de Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro) acompanhamos a trajetória da vida do francês equilibrista  Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt) que, desde jovem, se equilibra em lugares dos mais inusitados. Certo dia ele descobre que estão sendo construídas imensas torres gêmeas em Nova York (o futuro World Trade Center). Isso faz com que se cria uma obsessão dentro dele de querer se equilibrar em cima de um cabo em meio às enormes torres.
A trama é narrada pelo próprio protagonista durante todo o filme (aonde ele se encontra sempre na estatua da liberdade) e dá a sensação que a história é um verdadeiro conto de fadas moderno, mesmo a gente já sendo informado no princípio que é baseado num caso verídico. Os primeiros minutos são uma beleza a parte, aonde nos é apresentado uma Paris em preto e branco, porém, mais viva do que nunca e o 3D faz somente que sentimos essa sensação num grau mais elevado. Lembrando que estamos prestigiando um filme que foi rodado e pensado em ser apresentado em 3D e não convertido em última hora.
Após apresentação do protagonista, conhecemos gradualmente suas origens, assim como o seu fascínio pelo malabarismo, equilibrismo e os significados que o leva a querer se arriscar a todo o momento. Assim como homens que arriscaram as suas vidas subindo em montanhas como monte Everest, Philippe Petit sempre explica que ele age assim não para morrer, mas sim para viver. Assim como inúmeros gênios, pode-se dizer que Petit foi um de inúmeros incompreendidos e que somente ele sabia com certeza (ou não) o que lhe passava em sua mente para desafiar os seus próprios limites.
Embora chamariz da trama seja o fato dele querer atravessar às torres gêmeas a partir de um cabo de aço a quase meio quilometro de altura, Robert Zemeckis foi inteligente ao retratar a construção desse tal feito. Para isso, conhecemos então as pessoas que ajudaram Petit, como o veterano equilibrista Papa Rudy (Ben Kingsley), a namorada e artista de rua Annie Allix (Charlotte Le Bom), o fotografo Jean-Louis (Clément Sibony) e dentre outros. Cada um deles terá uma função para ajudar o protagonista, transformando o filme num verdadeiro roubo de banco, mas na realidade sem nenhum roubo.
Tudo que antecede o feito do protagonista nos é apresentado e dando uma sensação que estamos assistindo uma espécie de continuação de 11 Homens e um segredo, pois eles não somente têm que driblarem a segurança, como também os trabalhadores que ainda estavam construindo os dois prédios daquela época. Isso acaba gerando inúmeros momentos conflitantes, como quando o protagonista e seu parceiro que tem medo de altura (que ironia) se escondem na beira de um poço de elevador. Passados esses momentos, acabam gerando outros inusitados, como quando certo personagem surge do nada e gerando inúmeras interpretações sobre o seu significado em cena.
Após todos esses preparativos, finalmente chega o momento de tal feito e que realmente aconteceu na manhã do dia 07 de agosto de 1974. Nesse momento, Zemeckis prepara uma espécie de palco, aonde as nuvens seriam as cortinas que, quando abertas, nos brindaria com um grande espetáculo. Não há como negar que o diretor se superou novamente, pois ele criou cenas realistas em que retrata com exatidão como era o alto das torres que, aliadas a um 3D caprichado, nos causa uma sensação de vertigem e um frio na espinha que acontece devido a cada passo que o protagonista dá em cima do cabo.
Na vida real, o feito de Philippe Petit durou aproximadamente 45 minutos, mas retratado no filme foi em torno de 15 minutos. Contudo, isso não desmerece o que é visto na tela, já que esses minutos parecem longos e mesmo quando a gente deseja que não termine, por outro lado, o nosso subconsciente deseja que logo se encerre mesmo a gente sabendo que ele sobreviria após o tal feito. Claro que essa sensação de perigo tudo se dá devido aos pequenos detalhes, desde o cabo ficar balançando quando não deve, ou quando um visitante de penas pousa acima de Petit quando ele está deitado no cabo.
Os minutos finais da trama nos dão o mesmo tipo de sentimento que o protagonista sente de dever cumprido e, ao mesmo tempo, Robert Zemeckis criou um grande feito, do qual a gente tem a sensação de que voltamos no tempo e descobríssemos qual era a sensação daquelas pessoas que estavam assistindo de longe aqueles momentos inusitados de grande proeza e beleza acima das torres. No final das contas, A Travessia vai ainda mais longe, mais precisamente nos fazendo ter uma idéia de como as pessoas do final do século 19 se sentiam ao vislumbrarem com as primeiras cenas de movimento vistas numa tela e nos fazendo nos lembrar que o cinema nasceu como pura arte e espetáculo.  

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