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15 de setembro de 2015

O HOMEM COMUM

Há pessoas que possuem vidas fascinantes, onde a realidade e ficção por vezes se confundem. Claro que há histórias de vidas humildes que, nada oferecem para a história da humanidade, mas que não são menos do que fascinantes. Em maior ou menor grau, as vidas das pessoas são mais do que genuínas, são na realidade, universos particulares e cheios de detalhes, das quais nenhuma câmera cinematográfica pode registrar elas como um todo. Durante de 20 anos, Carlos Nader (Eduardo Coutinho, 7 de Outubro) se dispôs a interpelar homens comuns com questões metafísicas: “A vida faz sentido para você?”. “A vida te parece estranha?”, perguntas como essas foram feitas ao caminhoneiro Nilson e, a partir da resposta inicial dele, Nader passou a registrar a trajetória desse homem e de sua família.
Durante essas duas décadas, o cineasta acompanhou nascimentos, mortes e viu a debilidade alcançar o corpo de Nilson. Ao mesmo tempo, Nader foi engenhoso, ao criar  um paralelo aos  acontecimentos de Homem Comum com trechos do clássico A Palavra, de Carl Th. Dreyer, um filme em preto e branco e de muita beleza. O longa dinamarquês trata sobre a morte, mas indo além, abordando a dificuldade em aceitar a vida em toda a sua estranheza em seu percurso. Seria capaz o homem de vencer Deus e superar a morte? No cinema, pelo menos isso acontece, mas em até certo ponto é claro!
Nader vai mais além, ao registrar Nilson desembarcando porcos para um abate. Não há como não ficar aflito pelo destino de cada um deles, pois o cineasta não hesita em focar os olhares  de tristeza e apreensão que os animais estão sentindo naquele momento. Se para o homem existem conflitos e duvidas com relação à vida e a morte que, é colocado em cheque durante o documentário, o que sobra para esses animais que não pediram para estarem ali?
A ligação do mundo real com a vida fantástica ainda se desdobrará num terceiro momento, uma vez que Nader refaz de modo pessoal, determinadas sequências da obra de Dreyer. Essa terceira camada amplia ainda mais o Homem, uma vez que se torna possível reescrever grandes obras que já foram dadas como definitivas. Talvez essa intenção de reescrever a obra de Dreyer seja uma justificativa para o cineasta nos pregar uma peça com relação ao destino de Nilson, sendo que, há uma cena, da qual ela poderia ser vista segundos antes da subida dos créditos, mas ele optou para ela ser usada de uma forma que desconcertasse aquele que assistisse.
Acima de tudo, Homem Comum é um filme sobre a fé ou da falta dela e que tenta registrar o que leva as pessoas a seguir em frente, mesmo quando a vida não faz nenhum sentido. Talvez cada ser desse mundo tenha uma missão, resta saber qual ela seria. O importante é deixar algo de bom exemplo para aqueles que continuam e provando que sua vida não tenha sido em vão.
Mesmo com pouca duração, se percebe que Nader criou um filme com tamanha complexidade e rara inteligência, da qual  infelizmente, não se encontra muito hoje em dia no nosso cinema.
 
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