Parceria

29 de setembro de 2015

EXPRESSO DO AMANHÃ

Hoje vivemos num mundo do qual é vendido nas entrelinhas como mais tolerante, aonde a raça e credo são mais aceitas uns pelos outros. Contudo, aceitação não esconde o que está cada vez mais evidente nos dias de hoje que é à divisão de classes, onde em tempos de crise e eleições políticas, por exemplo, fica cada vez mais explicito a posição de determinadas pessoas que, acreditam serem tolerantes, mas não escondem o rancor contra aqueles que não são do seu mesmo nível deles. Desde o tempo de filmes como Metrópolis (1927) o cinema sempre serviu como uma janela, aonde mostra, mesmo que por metáfora, a realidade crua que vivemos no dia a dia e Expresso do Amanhã é o mais belo exemplo vindo do cinema recente.
Dirigido pelo cultuado diretor coreano Joon-ho Bong (Hospedeiro), acompanhamos o dia a dia do que restou da humanidade após um apocalipse, do qual fez com que a terra entrasse numa nova Era Glacial. O que restou da humanidade agora vive num gigantesco trem que, jamais para, e é dividida entre classes: os afortunados vivem nos primeiros vagões com todas as farturas, enquanto os necessitados vivem em condições precárias e alimentos limitados. Quando a situação se torna insuportável, Curtis (Chris Evans) decide criar uma rebelião, para assim chegar ao primeiro vagão e tomar o controle do trem.
Baseado na HQ francesa Le Transperceneige, de Jean-Marc Rochette e Jacques Loeb, Joon-ho Bong deixa claro que seu filme não é preso somente em um gênero, mas sim diversos, desde ficção, drama, ação e catástrofe. Porém, acima de tudo, a questão de retratar o homem em tentar sobreviver a todo custo, desencadeia a sua real face, dependendo de como cada pessoa irá administrar a situação da qual se encontra e até que ponto esses momentos podem transformar ela. Em meio ao caos, o sistema capitalista governante retratado na trama propõe regras para serem seguidas, mas não enxergando além do que seus olhos podem ver como as consequências que serão vistas mais pra frente.
Isso é exemplificado na presença da personagem Mason (Tilda Swinton), uma espécie de “pau mandado” de Wilford, líder dos poderosos e que comanda o trem. Através de Mason, conhecemos as reais regras daquele universo isolado, da qual se alguma regra for quebrada, e gerando uma possível rebelião, haverá então graves conseqüências. Em sete minutos em que a personagem fala, conhecemos então o lado intolerante dos poderosos, pois eles não se acham carrascos, mas sim justos por ditarem as regras.
Curiosamente no decorrer do filme, nós não somente conheceremos a incompreensão dos poderosos perante a minoria, como também iremos observar a quão essa última não consegue enxergar além de sua própria classe: a cena em que mostram pais procurando os seus filhos numa classe de aula dos poderosos, e não reconhecendo eles por estarem de cabelos cortados e bem vestidos, exemplifica bem isso. Outro fator determinante do filme é que, no final das contas, não há heróis e vilões na trama, mas sim pessoas defendendo o que acreditam, mesmo correndo um sério risco de estarem errados.
Curtis (Evans) acredita que, se conseguir o controle do vagão principal, irá conseguir condições melhores ao seu povo. Porém, Namgoong Minsoo (Kang-ho Song, de Sede de Sangue) é sua contra parte: ele pertence à minoria de Curtis, mas ele não deseja o poder, mas sim uma terceira opção, da qual é de se ver livre daquele mundo limitado e distorcido. Ambos com grandes mentes, mas com pensamentos diferentes, sendo um verdadeiro reflexo de políticos de hoje, que não conseguem enxergar nada além de suas virtudes camufladas.
Isso acaba por também colocar na mesa o lado hipócrita de ambos os lados, pois (assim como o clássico Metrópolis) querendo ou não, uns dependem um dos outros para sobreviverem e manterem a maquina funcionando da qual eles vivem. Tudo é claro poderia ser resolvido, se não fosse o rancor, medo e preconceito falarem mais alto. Com isso, mortes, revelações e fé cega desencadeiam um caminho sem volta, do qual, ao menos, sobra um fio de esperança nos derradeiros minutos finais da trama.
Com presenças ilustres de nomes como John Hurt e Ed Harris, Expresso do Amanhã é uma bela metáfora com relação ao nosso mundo contemporâneo de hoje em que vivemos, aonde testemunhamos o lado hipócrita de determinadas pessoas e que, por mais que elas tentam camuflar, fica cada vez mais explicitas as suas ações.

17 de setembro de 2015

NOCAUTE

O boxe é sem sombra de dúvida o esporte mais bem sucedido dentro da história do cinema. Filmes como O Campeão, Rocky, Touro Indomável e Menina de Ouro, são bons exemplos, aonde os protagonistas buscam sua redenção particular dentro dos ringues. Porém, surge o problema de sempre da falta de criatividade que hoje assola o cinema de Hollywood, sendo que, não adianta usar uma fórmula de sucesso, quando começa a soar em nossos cérebros a sensação de que esse filme nós já assistimos antes.
Não que Nocaute, o mais novo trabalho do cineasta Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) seja um desperdício, muito pelo contrário, pois ele consegue já no primeiro minuto obter a nossa atenção e isso se deve somente a uma pessoa: Jake Gyllenhaal. Se a maioria do público ficou impressionada pelo desempenho e mudança de físico desse ator em O Abutre no ano passado, irá então se impressionar ainda mais com a mudança física vista agora nesse filme, onde nem de longe lembra aquele diabólico personagem e caçador de furos jornalísticos.
Mas mudança de físico só não basta para ter um bom desempenho, mas nisso Gyllenhaal entende. Embora o seu personagem seja um verdadeiro campeão nesse esporte, se percebe que ele não sabe fazer mais nada na vida a não ser lutar dentro do ringue. Com isso, o seu lutador Hope nos é apresentado com uma entidade incontrolável que, não mede esforços para vencer, mesmo não percebendo que está aos poucos se deteriorando por agir assim.
A situação é somente amenizada graças à presença de sua filha e esposa (Rachel McAdams, de Sherlock Holmes) que consegue amenizar a fúria que se encontra dentro da fera. Infelizmente uma tragédia abala o universo desse boxeador, lhe fazendo perder tudo e recomeçar do zero. Infelizmente, quando se era para o filme ficar mais emocionante e interessante a partir desse ponto, eis que a previsibilidade entra em cena no roteiro e fazendo com que já tenhamos uma idéia de como tudo isso irá terminar.
Talvez não seja o problema de não haver um fator surpresa no roteiro que acaba não nos impressionando, mas na forma como ele vai sendo nos apresentado é o que o torna meio sem sal. Bom exemplo disso é a presença de Forest Whitaker (O Ultimo Rei da Escócia) que, mesmo nos brindando com uma boa interpretação, acaba não ajudando muito na situação, pois os seus conflitos e os motivos que o levam em querer treinar Hope para que ele volte ao topo, são nos apresentados de uma forma muito econômica e que, se não fosse por isso, renderia bons momentos da trama, infelizmente. Falando de economia, dá para perceber Antoine Fuqua teve certo receio de ser comparado a outros filmes do gênero como Rochy, pois as cenas em que Hope é treinado passam que voando na tela, o que acaba não gerando nenhum pouco de empolgação vinda da nossa parte.
Contudo, as cenas de lutas no ringue nos rendem bons momentos, aonde a montagem frenética, embalada com uma boa trilha sonora de hip hop contorna o problema de nós já sabermos como tudo isso irá acabar. Quando filme acaba, nos sentimos satisfeitos, mas ao mesmo tempo conscientes do que tudo que nos foi apresentado poderia ter sido muito melhor. Nocaute talvez venha a ser lembrado como um filme que tinha tudo para se tornar uma grande obra, mas que faltou um pouco mais de coragem da parte dos realizadores. 
 

15 de setembro de 2015

O HOMEM COMUM

Há pessoas que possuem vidas fascinantes, onde a realidade e ficção por vezes se confundem. Claro que há histórias de vidas humildes que, nada oferecem para a história da humanidade, mas que não são menos do que fascinantes. Em maior ou menor grau, as vidas das pessoas são mais do que genuínas, são na realidade, universos particulares e cheios de detalhes, das quais nenhuma câmera cinematográfica pode registrar elas como um todo. Durante de 20 anos, Carlos Nader (Eduardo Coutinho, 7 de Outubro) se dispôs a interpelar homens comuns com questões metafísicas: “A vida faz sentido para você?”. “A vida te parece estranha?”, perguntas como essas foram feitas ao caminhoneiro Nilson e, a partir da resposta inicial dele, Nader passou a registrar a trajetória desse homem e de sua família.
Durante essas duas décadas, o cineasta acompanhou nascimentos, mortes e viu a debilidade alcançar o corpo de Nilson. Ao mesmo tempo, Nader foi engenhoso, ao criar  um paralelo aos  acontecimentos de Homem Comum com trechos do clássico A Palavra, de Carl Th. Dreyer, um filme em preto e branco e de muita beleza. O longa dinamarquês trata sobre a morte, mas indo além, abordando a dificuldade em aceitar a vida em toda a sua estranheza em seu percurso. Seria capaz o homem de vencer Deus e superar a morte? No cinema, pelo menos isso acontece, mas em até certo ponto é claro!
Nader vai mais além, ao registrar Nilson desembarcando porcos para um abate. Não há como não ficar aflito pelo destino de cada um deles, pois o cineasta não hesita em focar os olhares  de tristeza e apreensão que os animais estão sentindo naquele momento. Se para o homem existem conflitos e duvidas com relação à vida e a morte que, é colocado em cheque durante o documentário, o que sobra para esses animais que não pediram para estarem ali?
A ligação do mundo real com a vida fantástica ainda se desdobrará num terceiro momento, uma vez que Nader refaz de modo pessoal, determinadas sequências da obra de Dreyer. Essa terceira camada amplia ainda mais o Homem, uma vez que se torna possível reescrever grandes obras que já foram dadas como definitivas. Talvez essa intenção de reescrever a obra de Dreyer seja uma justificativa para o cineasta nos pregar uma peça com relação ao destino de Nilson, sendo que, há uma cena, da qual ela poderia ser vista segundos antes da subida dos créditos, mas ele optou para ela ser usada de uma forma que desconcertasse aquele que assistisse.
Acima de tudo, Homem Comum é um filme sobre a fé ou da falta dela e que tenta registrar o que leva as pessoas a seguir em frente, mesmo quando a vida não faz nenhum sentido. Talvez cada ser desse mundo tenha uma missão, resta saber qual ela seria. O importante é deixar algo de bom exemplo para aqueles que continuam e provando que sua vida não tenha sido em vão.
Mesmo com pouca duração, se percebe que Nader criou um filme com tamanha complexidade e rara inteligência, da qual  infelizmente, não se encontra muito hoje em dia no nosso cinema.
 

DICA DE CINEMA

EVERESTE
24 DE SETEMBRO NOS CINEMAS
Não recomendado para menores de doze anos.


SOBRE O FILME:
EVERESTE
Lançamento: 24/09/2015
Gênero: Aventura Épica
Elenco: Jason Clarke, Josh Brolin, John Hawkes, Robin Wright, Michael Kelly, Sam Worthington, Keira Knightley,~Emily Watson e Jake Gyllenhaal
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: William Nicholson and Simon Beaufoy

Sinopse: Inspirado nos incríveis acontecimentos em torno da montanha mais alta do mundo, Evereste documenta a inspiradora jornada de dois diferentes grupos de expedição que são desafiados além de seus limites quando são acometidos por uma das maiores avalanches já registradas. Com a coragem testada por um dos fenômenos mais severos do planeta, os escaladores terão de enfrentar obstáculos quase impossíveis em busca de sobrevivência. A aventura épica é estrelada por Jason Clarke, Josh Brolin, John Hawkes, Robin Wright, Michael Kelly, Sam Worthington, Keira Knightley, Emily Watson e Jake Gyllenhaal.

Evereste é dirigido por Baltasar Kormákur (“Dose Dupla” e “Contrabando”) e produzido por Tim Bevan e Eric Fellner, da Working title; Brian Oliver e Tyler Thompson da Cross Creek, além de Nicky Kentish Barnes e o próprio Kormákur.

Universal Pictures e Walden Media apresentam Everest, em associação com a Cross Creek Pictures, a Universal Pictures e a Walden Media apresentam Everest – uma adaptação de William Nicholson (Gladiador) e do ganhador do Oscar, Simon Beaufoy (“Quem Quer Ser um Milionário?”) para os cinemas.

9 de setembro de 2015

CORRENTE DO MAL

Em 1975, David Cronenberg (A Mosca) filmou, no Canadá, o seu filme Calafrios, onde usava o sexo como metáfora. Lá, os personagens transavam e começavam agir de forma estranha, ao ponto de violentamente desejar a todo custo transar com outras pessoas e assim passando esse desejo incontrolável para os demais. Quem revê, não há duvida que o cineasta esteja então profetizando o que viria acontecer no início dos anos 80, quando doenças venéreas começaram a surgir e se tornando um grande problema para a população.
Estamos no século 21, às doenças venéreas são (até certo ponto) controláveis e o sexo passou do tabu para um momento rotineiro ou até mesmo esportivo para determinadas pessoas. Claro que, ainda existe temor das doenças, assim como se teme a morte, fazendo com que algumas pessoas se travem para não cair na libertinagem.  Em Corrente do Mal, não só o sexo é usado como metáfora para a criação da história, como também o próprio temor da morte é incrementado de uma forma até que original.
Jay (Maika Monroe) leva uma vida tranquila entre escola, paqueras e passeios no lago. Após uma transa casual, ela passa a ser atormentada por estranhas visões e sente estar sendo constantemente perseguida. O interessante que, só haverá uma chance das visões pararem, se ela for transar com outra pessoa, sendo que essa ultima terá que transar com outra para se livrar das visões e assim por diante.
Mais do que visões de pessoas se aproximando, elas na verdade machucam a protagonista e as pessoas em volta dela. Ela poderia transar com qualquer um para se livrar disso, mas fica o dilema de passar esse fardo pesadelo adiante. No decorrer do filme, a trama se torna cada vez mais angustiante, uma vez que as visões se tornam mais constantes.
O sexo é usado como metáfora para libertinagem? Sim, mas de uma forma que representa o desejo de qualquer mero mortal de hoje em dia de transar a hora que quiser. Porém, as visões de pessoas estranhas que assombram os protagonistas é uma metáfora da própria morte, que veio devido o ato sexual que se aflorou entre eles. Mas a morte aqui não é usada como alavanca de freio, mas sim como uma forma de aviso de que, independente do que você faça, ela irá lhe alcançar, não importa aonde e quando.
Sendo assim os protagonistas se ajudam, até mesmo para colocar para fora os desejos que sentem um pelos outros, mesmo com a ideia inevitável da morte vinda ao encalço deles. Tudo isso logicamente poderia render um filme previsível, ou até mesmo ridículo em alguns momentos. Porém, o cineasta  David Robert Mitchell prova exatamente ao contrário.
Habilidoso como ninguém, ele usa e abusa do uso de sua câmera, sendo que, ele explora não somente bons movimentos com ela (atenção para a cena do condomínio abandonado), como também as cenas com espaços abertos, dando destaques aos pequenos detalhes ao fundo, que vão gradualmente se tornando algo que contradiz o que a gente pensava no início da cena. São velhas formulas já usadas a exaustão no gênero de horror, mas graças à boa direção de Mitchell, o filme não cai em nenhuma vala comum.
Sucesso de público e critica nos EUA, sendo até mesmo elogiado em festivais pelo mundo como Cannes, Corrente do Mal é uma prova que o gênero de horror ainda pode nos assustar. Desde que, sua mensagem e fórmulas de causar medo, sejam dirigidas por alguém que não esteja pensando em apenas dirigir no piloto automático, mas sim criar algo criativo.

8 de setembro de 2015

SÉRIES: DEMOLIDOR - por Ben-Hur Rodrigues da Silva

Quem escreve hoje para nós é Ben-Hur Rodrigues da Silva, de Porto Alegre. Ele fez uma análise bem bacana sobre a série Demolidor, disponível na Netflix.
Demolidor – Crítica 

A Marvel concretizou mais um acerto dentre tantos que foram feitos nos filmes. Demolidor ou Daredevil, mostrou que podemos sim ter um tom mais sério nos produtos da empresa. Desde os cenários e fotografia, que deixam a série mais sombria, mostrando as vielas de New York detalhadamente, até a demonstração dos “super-poderes” do herói, que não são tão fantásticas quanto os Vingadores.

Na trama, Matt Murdock, cansado de ver seu bairro ruir nas mãos de mafiosos, se torna um vigilante da Cozinha do Inferno, tornando-se o inimigo público de diversos vilões, dentre eles o Rei do Crime. A série coloca em evidência o crime e corrupção em Hell’s Kitchen, bairro no qual o herói quer “reconstruir”, lutando contra criminosos de todos os tipos. Essa premissa torna a trama interessante, pois faz com que o espectador tenha um pouco do Demolidor dentro de si, uma vez que um cidadão “comum” se indigna com as injustiças cometidas e se torna um homem sem medo para enfrentá-las.

Um dos grandes pontos para se saudar é o elenco. Charlie Cox teve uma atuação excelente, fazendo com que quem assiste sinta suas frustrações e seu desejo de que a cidade se torne melhor devido aos seus esforços como o personagem. Outro destaque interessante do lado dos mocinhos foi Elden Henson, que interpretou o cômico Foggy Nelson, alívio cômico da série. Outro acerto foi seu principal vilão: Wilson Fisk, ou Rei do Crime, com uma atuação espetacular de Vincent D’Onofrio. Ele humanizou o chefão da máfia de Hell’s Kitchen, fazendo com que torcêssemos por ele em alguns momentos.

O interessante de Demolidor é que a série não se prende aos filmes, tornando-a autêntica e de grande importância na fase três da Marvel. Diferente de Agents of Shield que se prende aos acontecimentos do cinema e, assim, perde sua autonomia perante ao público. Para se ter uma noção do quão distante os heróis como Capitão América, Homem de Ferro e Thor estão dos problemas habituais da trama, basta pensar como seria encontrar Dustin Hoffmann ou Al Pacino no Gasômetro protestando contra o governo gaúcho. 

A parceria com a Netflix rendeu bons frutos, nos trazendo um cenário mais realista da Marvel. Praticamente tudo deu certo nessa primeira empreitada! Agora, ficamos no aguardo das outras (Punho de Ferro, Luke Cage e Jessica Jones), além da segunda temporada de Daredevil. Vida longa à parceria Netflix-Marvel!

2 de setembro de 2015

O HOMEM IRRACIONAL

Além de ser um diretor autoral, Woody Allen sempre gosta de colocar o seu lado pessoal nas telas do cinema, mesmo quando os seus personagens não sejam literalmente o seu “eu” verdadeiro. Em alguns casos, o diretor opta em exorcizar os seus demônios interiores em suas tramas em que ele cria, para assim, se sentir desprendido por algo que ele carrega. Em O Homem Irracional, percebo que é uma trama que, sintetiza um pouco da turbulência que o cineasta passou nos últimos tempos (como a sua vida pessoal com Soon Yi Previn vindo novamente à tona na mídia) e, pôr esses sentimentos na trama, talvez seja um lugar bom para eliminá-los.
No longa, acompanhamos o dia a dia do professor de  filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix, ótimo) que, embora seja talentoso no que faz, vive numa fase de crise existencial e não vê mais nenhum sentido em viver. As coisas mudam de forma gradual quando se muda para uma nova cidade e lá conhece a aluna Jill (Emma Stone), sendo que a mesma começa a sentir uma atração pelo professor e ambos começam ter um caso. Porém, Lucas somente começa a sentir um sentido na vida, no momento em que ele começa a ouvir numa lanchonete uma conversa desesperadora de uma mulher e é ai que ele toma uma decisão inusitada.
Embora num primeiro momento Allen seja sempre lembrado por comedias neuróticas, vale lembrar que ele sempre flertou em tramas das quais envolvem assassinato, como Crimes e Pecados e Match Point como exemplo. Aqui, o humor neurótico, existencialismo, crime e assassinato, são emoldurados num único quadro que, embora não traga nenhum frescor de originalidade, nos prende do começo ao fim. Isso se fortalece graças a uma galeria de personagens carismaticamente excêntricos, cujas suas vidas se encontram meio que vazias e não excitam em arriscar para encontrar algum sentido na vida.
Embora seja a primeira vez que esteja trabalhando com o cineasta, Joaquin Phoenix surpreende ao se apresentar totalmente à vontade em cena e criando mais um grande personagem em sua filmografia. O seu Abe Lucas nada mais é do que um lado do estado de espírito que Allen teve (ou tem) em alguma passagem de sua vida e que difere dos outros protagonistas dos filmes anteriores, dos quais enxergávamos o cineasta, mesmo não sendo ele próprio atuando. Atenção para a cena do revolver, sendo ela uma pequena prova da imprevisibilidade do personagem.
Embora já tenha trabalhado com o cineasta em Magia ao Luar, Emma Stone se apresenta aqui com todas as características das musas anteriores do cineasta. Basta dizer que as ações de sua personagem se assemelham com o que foi visto na personagem de Scarlett Johansson em Vicky Cristina Barcelona, mas de uma forma acentuada e muito melhorada. A química entre ela e Phoenix é outro ingrediente que nos faz perceber como Allen, mesmo já tendo feito quase cinquenta filmes na carreira, não tenha ainda perdido a mão na direção dos atores.
Com passagens durante a trama, junto com um final que me fez lembrar o clássico A Sombra de Uma Duvida de Alfred Hitchcock, O Homem Irracional não é um filme de maior ou menor grau da carreira de Woody Allen, mas sim uma pequena amostra de uma das inúmeras facetas obscuras e escondidas no interior da alma do cineasta. 
 

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