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7 de agosto de 2015

Adeus à Linguagem

Desde o movimento cinematográfico francês Nouvelle vague, o cineasta Jean-luc Godard sempre criou filmes com um alto grau histórico, político, autoral, e acima de tudo, que diferenciasse do cinema convencional do seu país de origem. Numa verdadeira mistura de dois de seus grandes filmes, como A Chinesa (1968) e Desprezo (1963) como exemplo, se tem Adeus A Linguagem, sendo uma espécie de uma crítica visual com relação ao nosso mundo contemporâneo de hoje, principalmente da forma como as pessoas se comunicam na maioria das vezes. Talvez para o cineasta, a linguagem de ontem está cada vez mais se perdendo em meio ao turbilhão da tecnologia que, faz com que tenhamos cada vez mais informações rápidas, mas se perde as formas como as pessoas se interagiam antigamente e se tornando tudo mais automático e menos humano.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes de 2014, o longa é uma verdadeira aula de som e imagem, aonde as formas e as cores se misturam, num 3D (primeira vez usada pelo cineasta) que se apresenta da forma como realmente essa ferramenta cinematográfica deveria sempre ser: profundidade acentuada, pequenos detalhes que voam aos nossos olhos, numa verdadeira representação da corrida louca de uma sociedade moderna que não vê mais o tempo passar como era antigamente. Devido a isso, o filme se encaminha mais para um longa experimental do que algo convencional, o que pode espantar os cinéfilos desavisados.
Na realidade há praticamente dois protagonistas, que inclui um cachorro (sendo do próprio cineasta), e que por vezes, esse último rouba a cena do filme. Os dois protagonistas são na realidade um casal em crise, pelo fato de eles não conseguirem compreender o que um está querendo dizer para o outro e gerando então um conflito entre os dois. Já o cachorro, sempre surge em momento chave, do qual ele se torna uma representação da ausência dos próprios donos que, não lhe dão atenção, assim como não conseguem administrar a relação de ambos.
Embora sendo pouco mais de uma hora de duração, Godard prova que cada minuto se torna longo e precioso, pelo fato que, a cada momento, ele criar situações que exige maior intensidade de seus dois atores e gerando situações imprevisíveis. Embora curto, são tamanhas situações acontecendo a todo o momento que, faz com o filme se pareça longo, mas gerando ao mesmo tempo a sensação de que os personagens tiveram o seu tempo de resolverem os seus conflitos em cena.
Vendo o filme como um todo, é impressionante constatar que Godard, mesmo com mais de oitenta anos vida, consiga ter uma sintonia com relação ao mundo que vivemos hoje. Essa sintonia não é diferente de décadas passadas, provando o quão ele se preocupa em corresponder, através da sétima arte, a realidade do qual ele vive. Diferente de outros de sua geração, ele se empenhou em jamais ficar para trás, mesmo criando obras das quais nem todos possam conseguir comprar o que ele quer passar.
Mesmo com toda sua complexidade, Adeus À Linguagem se torna indispensável, ao mostrar de uma forma simples, o quanto precisamos caminhar para não nos esquecermos do que nós realmente somos, em meio a tamanhos meios de comunicação, que cada vez mais nos deixa menos humanos e verdadeiros.   
 
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