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30 de março de 2015

O SAL DA TERRA (2014)

Certa vez, Bette Davis (A Malvada) reclamou que quando a cor surgiu no cinema a sua arte havia morrido. Embora polêmica a declaração, talvez em parte ela esteja certa, pois o preto e branco possui a força de conseguir extrair toda a beleza e vida da cena e fazendo com que apreciemos muito mais o que está a nossa frente. Talvez Sebastião Salgado tenha compreendido isso quando jovem, pois cada uma de suas fotografias em preto e branco, seja de ontem ou hoje, é uma verdadeira revelação para os nossos olhos.

Dirigido por Wim Wenders (Asas do Desejo), acompanhamos nesse documentário a trajetória de Sebastião Salgado que foi de um futuro promissor na área da economia para se tornar um dos mais respeitáveis fotógrafos do mundo. Do seu exílio fora do país (devido à ditadura) conheceu o seu grande amor Lélia Wanick, sendo ela responsável por ele seguir (meio que sem querer) a área do qual se tornou profissional e explorador.

O filme também possui co-direção de Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotografo que, graças a esse projeto, conseguiu compreender um pouco melhor a ausência do seu pai ao longo de sua vida. Ambos nunca tiveram atritos com relação a isso, mas se houve no seu íntimo, Juliano resolveu exorcizar de uma vez só, tanto que, ao lado do diretor alemão, conseguiu encontrar o mais intimo e profundo lado humanista que o seu pai possui.

De volta ao Brasil nos anos 80, Sebastião decidiu criar trabalhos com a fotografia que sintetizassem as diversas facetas do homem perante o mundo que vive. O pontapé inicial que colocou a sua obra em evidência foi quando ele tirou inúmeras fotos dos mineiros da Serra Pelada, na época em que homens pareciam escravos, na busca por riqueza e glória. As imagens de inúmeras classes, mesmo aquelas com as suas vidas definidas, sintetizaram a loucura em busca de uma riqueza escondida.

Nestes momentos que se destrincha a alma do fotografo, tanto Wenders como Juliano Ribeiro cumprem bem os seus papéis como cineastas e ouvintes. Porém, a sensação que se passa a todo o momento, é que o próprio Sebastião que dirige a trama, colocando a nossa frente as suas fotografias, e graças à sua narração mansa, se tem, então, o palco formado. Da parte técnica é preciso reconhecer o belo trabalho de montagem de Maxine Goedicke e Rob Myers que, mesclam cenas em preto e branco, cenas coloridas de arquivo e um incontável número de fotografias.

Esse trabalho da dupla na montagem encontra o seu ápice no momento em que o filme foca a trajetória do fotografo nos países da África. É aí então que documentário entra num território que talvez ninguém queira encarar, nem o mais humanista dos seres humanos, mas é algo que é preciso ser visto por todos os povos. Sebastião esteve em países como Etiópia e Ruanda, onde a política, fome e o pior lado do ser humano, desencadearam cenários que representam o que seria um verdadeiro inferno na terra.

Sebastião faz um duro e seco desabafo com relação ao que viu e registrou, fazendo ele até desacreditar da existência de Deus. Em suas fotos, ele registra crianças, mas com olhares jaz velhos e definhando. Homens largando os seus filhos mortos em um entulho de cadáveres como se fossem lixo e a procura por uma terra prometida se torna um sonho praticamente impossível.

As imagens vistas na tela são terríveis, onde não se precisa enxergar a cor desoladora do cenário, pois basta ver o olhar da morte escancarada no rosto daquela gente, para então compreendemos que um filme de terror habitual é piada perante o verdadeiro terror daquela vida real. São poucas as fotos que se registra alguma esperança: a fotografia de um menino de costas ao lado de seu cachorro é o testemunho de uma pequena força que segue em frente, mesmo com um futuro incerto.

Após essa cruzada desoladora, Sebastião ficou doente fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Sua volta por cima se encontrou justamente ao voltar para a fazenda onde cresceu e tentar revitalizar a vida da terra de seus pais. O resultado foi o encontro do fotógrafo perante a força e beleza da natureza, da qual se revitaliza, assim como aqueles que moram à sua volta. Percebendo isso, Sebastião criou novamente um dos seus trabalhos mais fantásticos da carreira: Gênesis.

Nessa sua nova cruzada, Sebastião registrou lugares pouco explorados pelo homem, encontrando povos até então desconhecidos e paisagens das quais nem a sua própria fotografia consegue registrar tamanha beleza. Esse projeto fez com que ele voltasse a ter esperança perante o mundo em que vive e revitalizasse a sua missão: registrar imagens das quais a sua fotografia em preto e branco extrai o que as fotografias a cores (e digitais) não conseguem nos passar.

Sal da Terra une beleza e horror num único documentário, onde ficamos chocados e deslumbrados com o que o nosso mundo pode nos oferecer. Tudo isso vindo das mãos e do olhar de um homem comum, mas que nos brindou com imagens nunca antes vistas, registrados com o seu olhar pessoal com relação ao mundo em que vivemos. Desde já um dos melhores filmes do ano.


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