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2 de dezembro de 2014

Boyhood - Da infância à juventude (2014)

Eu ouvi muito falar a respeito sobre o mais novo filme do diretor Richard Linklater (Antes do Amanhecer) e, portanto, fazia questão de assisti-lo. Não me resta dúvida nenhuma que Boyhood: Da Infância à Juventude, não é somente um ótimo filme, como também um feito notável e raro do cinema recente. Acompanhando doze anos da vida do pequeno Mason (Ellar Coltrane) e a trama é basicamente isso, mas que nos enlaça de tal forma que não vemos o tempo passar durante a projeção.

Embora o projeto seja corajoso (rodado durante quatro dias por ano, num total de doze) é uma trama simples, onde assistimos o seu protagonista envelhecendo (dos seis aos dezoito anos), acompanhando os seus dramas do dia a dia com os seus familiares, seus conflitos internos da adolescência e seus relacionamentos amorosos, que vão da curtição à frustração. Nesse sentido, Boyhood é um retrato do nosso mundo real, em vez de uma mera trama mirabolante juvenil. As conversas soam familiares, a maneira de se vestir e a forma como ele age com os seus familiares. Tudo pelo que nós mesmos já passamos, talvez até com as mesmas reações de Mason.

Embora comece de uma forma devagar, o filme nos prende e nos cativa rapidamente. Talvez por transmitir um olhar real do jovem interprete, sendo que o próprio já havia afirmado em uma entrevista que ele mesmo não conseguia às vezes separar o seu mundo real com a trama fictícia que participava. Isso se deve muito pelo fato do filme não apresentar nenhum personagem fora do comum, mas isso torna mais um ponto a favor para produção, já que o cinema contemporâneo de hoje vive escasso com personagens que deveriam ser algumas vezes 'gente como a gente'.

Em outra entrevista, Ellar disse que ao assistir as imagens do filme pela primeira vez se maravilhou. As lembranças em sua mente se misturavam e, após se dedicar doze anos participando das filmagens, ele não se lembrava mais que tinha participado de determinadas cenas. O jovem protagonista Mason realmente se confunde com seu intérprete.

Existe muito do ator no personagem fictício, sendo que ambos não comem carne e amam de paixão o mundo da fotografia. O ator falou que quando tomava uma decisão de fazer algo com relação ao corpo, logo em seguida ligava para o cineasta, para ver se dava para colocar um brinco ou pintar o cabelo. Linklater por sua vez dava liberdade total para que Coltrane fosse natural, para que o jovem de ontem e hoje se identificasse facilmente com ele.

Alguns dos diálogos filosóficos que Mason dispara na tela foram na realidade algumas sugestões do próprio ator. Antes de começar as filmagens de cada ano, Linklater fazia uma rodada de conversas descontraídas com o elenco principal, de onde se tirava inúmeras ideias para serem aproveitadas durante as filmagens. Embora cineasta afirmasse que realmente havia um roteiro escrito, as conversas dessas rodadas serviam unicamente para que equipe e elenco se atualizassem e que pudessem passar durante as filmagens uma forma de naturalismo ao máximo possível. Quem acompanha a obra do diretor sabe que ele já usava esse artifício, principalmente na sua trilogia que se iniciou em Antes do Amanhecer.

Embora a trama seja toda concentrada em Mason, o filme não seria nada sem a presença de sua mãe. Interpretada por Patricia Arquette (Amor a Queima Roupa) ela passa uma imagem real de uma mãe de ontem e hoje: tentando batalhar para realizar os sonhos dos seus filhos e os seus, mas que infelizmente acaba se perdendo algumas vezes no trajeto, alternando em escolhas erradas (com relação a escolhas de maridos ) como também em certas, ao se dedicar a carreira que queria. A irmã mais velha de Mason e o pai, interpretado por Ethan Hawke (parceiro habitual do cineasta), são também personagens essências na vida do jovem protagonista, mesmo eles não influenciando muito as suas escolhas.

Mason nunca tenta ser uma imagem espelhada dos seus pais, mas isso não significa que ele não aceite da maneira como eles são. Unicamente ele vive como um adolescente como os outros, sem ser revoltado, mas também não muito conformado com a realidade em que vive e com isso vive se perguntando para si mesmo inúmeras coisas, que por vezes não obtém uma resposta. Embora nunca aja um letreiro nos dizendo quando acontece um pulo no tempo, nós sabemos quando isso acontece: as mudanças do rosto e o físico dos personagens, assim como a cultura, desde musicas, objetos, cortes de cabelo e de um momento divertido com relação ao Harry Potter.

E é assim durante as quase 3 horas de projeção, acompanhamos o crescimento do protagonista, que desde sua primeira cena, como um sonhador deitado na grama, para uma jornada de doze anos aonde acompanhamos de tudo um pouco de sua vida. Vemos sua mudança física e mental, suas desavenças na escola, sua chegada em uma faculdade, seu primeiro serviço e as diversas mudanças com a mãe que vive também em busca de um lugar nesse mundo. Infelizmente o filme termina de uma forma abrupta e fazendo com que nós quiséssemos continuar ao lado do personagem e vê-lo até aonde ele vai durante o seu percurso na vida. O protagonista se vai, para continuar a sua jornada, nos deixando sem a sua presença, mas fazendo a gente pensar em suas atitudes e escolhas.


Boyhood: Da Infância a Juventude pode não ser uma grande obra prima como muitos dizem, mas está muito longe de ser um mero filme como os outros que existe aos montes por ai. Acima de tudo, é uma realização incomum sobre a vida comum e um feito de realização dos mais fascinantes e que ficará sendo lembrado por todo cinéfilo que se preze.

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