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22 de dezembro de 2014

ÊXODO: DEUSES E REIS (2014)

O novo longa-metragem dirigido por Ridley Scott recebe o título de Êxodo: Deuses e Reis e, conforme o nome diz, conta a história da libertação do povo hebreu que eram escravos dos egípcios. Para aqueles cinéfilos mais familiarizados com o clássico Os Dez Mandamentos, a trama é a mesma que a gente conhece. Sendo assim, veremos Moisés no exílio, tendo uma transformação de sua pessoa de numa forma gradual, até se tornar o libertador dos cativos, aliado com a chegada das pragas e o início para a liberdade.

Embora a trama se apresente de uma forma resumida, o filme nos convence, mesmo a gente sabendo de que, se tratando de um personagem histórico como Moisés, daria para fazer mais de um filme. A história como todos sabem é bíblica, mas logicamente passou por algumas adaptações nas mãos dos roteiristas, transformando diversas situações de uma forma mais realista. Certas coisas vistas na tela são diferentes do que está escrito no velho testamento, mas nem por isso o crente mais ferrenho irá deixar de gostar.

O curioso é observar da maneira como é mostrado as obras de Deus no filme, sendo num clima "pé no chão" ou melhor dizendo, num alto grau de verossimilhança. Pegamos, por exemplo, o primeiro encontro entre o protagonista e Deus: uma simples pedrada na cabeça pode de um lado levantar, tanto teorias científicas, como também uma forma de apresentar de um jeito mais convincente o possível (ou não) encontro com o todo poderoso. 

Embora eu goste dessa coragem de misturar fantasia e realismo, a impressão que se dá em alguns momentos, é o que filme não sabe que direção quer tomar. Porém é de se tirar o chapéu com relação aos efeitos especiais fantásticos, principalmente com relação a travessia do Mar Vermelho que, de todos os momentos, é o de maior grau de realismo e por isso mesmo se torna tão grandioso. A trilha sonora se casa muito bem com esses momentos onipresentes, mesmo quando eles se tornam forçados demais.

Entretanto, se um momento ou outro parece forçado, a trama tem a ousadia de se dividir entre ciência e crença: os conselheiros do faraó sempre dão imersão na ciência egípcia, que de fato sabiam muita coisa sobre medicina e a natureza. A própria travessia pelo Mar Vermelho segue um conceito que já foi explicado em diversos documentários mundo a fora. Com isso, se percebe a intenção dos roteiristas em agradar, tanto os que vivem da fé cega, como também da lógica, mas que infelizmente (e com razão) não agradou muito a critica internacional. Não culpo Ridley Scott por ter optado por essa escolha em agradar tudo e a todos, pois o próprio mundo em que hoje vivemos se encontra dividido entre a fé e a razão e o filme corresponde um pouco a esse dilema contemporâneo.

Polêmicas à parte, tecnicamente o filme é perfeito em termos de reconstituição. A começar pela ambientação, que foi pensada em fazer com que o público se sentisse vendo um retrato fiel daquele período. Além disso, o título retrata bem os vilarejos construídos em partes distantes, dando um contexto significativo à história. Os cenários internos também deixam claro como era a realidade dos escravos e é difícil encontrar algum defeito nesse quesito.

O figurino também foi feito de uma forma com que parecesse realmente saído daquela época: às vestimentas do Faraó e dos membros do conselho egípcio, juntando aqui a questão das armas, que ganha destaque na espada de Moisés, temos uma obra coerente e muito bem detalhada. As atuações dão vida aos personagens históricos, com destaque a Christian Bale como Moisés, que nos convence em quase todos os momentos durante a projeção, tanto nas cenas de ação, como em momentos em que exige uma dramatização maior do seu ser. Porém, os coadjuvantes não ficam muito atrás: Joel Edgerton (Ramses) tem um desempenho daqueles que fazem o restante do elenco em cena desaparecer e John Turturro (Seti) e Aaron Paul (Josué) não decepcionam nos seus respectivos papéis. Entretanto, não podemos desmerecer Ben Kingsley, Sigourney Weaver e a belíssima María Valverde.

Com pouco mais de duas horas e meia de duração, Êxodo: Deuses e Reis é um filme que nos prende do começo ao fim, mas fica a impressão se era realmente necessário haver mais outra versão sobre essa conhecida história para o cinema.


16 de dezembro de 2014

OPERAÇÃO BIG HERO (2014)

Transformers já teve ao todo quatro filmes para o cinema que, embora tenham sido sucessos de bilheteria, será lembrada como uma franquia que não tinha o que era essencial para agradar a critica em geral: emoção!

Emoção é a palavra de ordem para a mais nova animação da Disney, Operação Big Hero que, pela primeira vez, é uma animação com selo Marvel, já que a casa do Mickey explora uma da filiais japonesas da Casa das Ideias e que reúne o melhor dos dois mundos. Assistindo a esse filme se encontra elementos, tanto do que já foi visto em outras animações Disney, como também do que já foi visto em outras animações japonesas. Belo exemplo disso são os minutos iniciais, onde vem em nossa mente animações como Pokemon.

O próprio protagonista Hiro Hamada (voz de Ryan Potter) tem as tão conhecidas características de um tipico protagonista de animações japonesa: Cabelo preto (meio arrepiado), olhos grandes e roupa com partes vermelhas. Porém, a sua personalidade apresentada gradualmente no decorrer do filme, assim como o caminho que irá trilhar, lembra e muito os personagens típicos da Marvel como o Homem Aranha. Acima de tudo, o filme possui uma alta dose de mensagem positiva com relação a saber superar os obstáculos e realizar os seus sonhos.

Hiro tem um irmão chamado Tadashi (voz de Daniel Henney), que servirá de empurrão para que ele vá atrás do seus objetivos. Infelizmente Tadashi morre num (aparentemente) acidente, fazendo com que Hiro siga o caminho do herói que irá começar a percorrer, mesmo que num primeiro momento não era essa a sua real intenção. Nesse percurso, Hiro terá companhia da maior criação de seu irmão: Baymax!

Se eu cutuco na ferida com relação a Transformers, é pelo fato que, mesmo com inúmeros robôs apresentados na tela, nenhum é carismático e tão pouco nos passa vida. Já Baimax, mesmo sendo um robô, já nos conquista de imediato pela sua pureza, ingenuidade, visual (que lembra um boneco de marchimelo) e que nele, guarda o melhor do irmão de Hiro, literalmente. Os melhores momentos de humor do filme são protagonizados por Baymax, sendo que a cena que ele tapa os seus furos com fita adesiva é hilária.

Acima de tudo, Operação Big Hero é uma representação do domínio dos nerds nestes primeiros anos do século 21. Antes reclusos ao segundo plano do universo cultural, agora a maioria dos filmes de aventura, ficção e fantasia (na maioria baseada em HQ) são uma representação desse domínio que, vem gerando lucro aos estúdios, mas que felizmente tem rendido boas historias para nós. O grupo de amigos nerds de Hiro, onde cada um cria seus próprios trajes e poderes para combater o crime, é nada mais do que uma representação dessa mania sem precedentes.

Como todo o filme desse porte, há um vilão com segundas intenções. Porém, os roteiristas foram engenhosos em não cair no óbvio, sendo que a verdadeira identidade vilanesca e suas motivações são uma das grandes surpresas do filme. Aliás, o filme é carregado de inúmeras surpresas que, quando se acha que irá acontecer algo que nós já estamos montando em nossas mentes, sempre ocorre algo inesperado.

Em termos técnicos, Operação Big Hero mantem as mesmas qualidades de som e imagem dos últimos filmes da Disney, sendo que cada cena vista no decorrer da animação é de encher os olhos. Por ser um universo que reúne o melhor dos dois mundos, a cidade de San Fransokyo é uma mistura tanto de San Francisco como também de Tókio, gerando então um mosaico cultural dos dois países, sendo algo que somente vi em filmes como Blade Runner, mas com uma realidade mais limpa e esperançosa.

É claro que nem tudo são flores para esse filme, pois eu acredito que a Disney não foi 100% corajosa na hora de encerrar a trama. Digo isso porque o filme poderia muito bem em deixar em aberto com relação ao destino de um dos personagens. Porém, nos últimos segundos do segundo tempo, eles decidem resolver tudo tão facilmente, que acaba meio que soando forçado demais.

Apesar desse deslise, Operação Big Hero pode facilmente ser rotulado como a melhor e a mais divertida animação desse ano e provando o verdadeiro potencial positivo da parceria Disney e Marvel.

As aventuras do avião vermelho (2014)

Quando se pensa em animação brasileira, a primeira coisa que vem na mente do povo em geral, talvez sejam os especiais protagonizados pela turma da Mônica. Contudo, ao longo de nossa história, o nosso cinema provou que, pode sim, criar diversos e bons longas metragens que, podem muito bem se equiparar a outras produções estrangeiras (vide Disney/Pixar). Uma Historia de Amor e Fúria (com vozes de Selton Mello e Camila Pitanga) veio para provar que as animações brasileiras podem ir mais longe do que se imagina e esse As Aventuras do avião vermelho é um exemplo que, mesmo com a velha e boa animação tradicional, se pode conquistar o público infantil com uma história de aventura simples, porém, com boas doses de pura nostalgia. 

Nostalgia é a palavra certa para esse simpático longa, pois a história de Fernandinho (voz de Pedro Yan), que vive num mundo de aventuras imaginárias para salvar um protagonista de um livro que o seu pai lhe deu, nada mais é do que um pequeno retrato da infância de cada um de nós. Quem nunca se imaginou participando de inúmeras aventuras com o seu personagem preferido de infância, ou sendo o seu próprio herói? O filme sintetiza isso como um todo e gradualmente nos conquista.

Dentro do seu quarto, Fernandinho adentra num universo particular, onde usa os cenários do seu livro para viajar e ter diversas aventuras que, por vezes, presta homenagem às matinês antigas de aventura inocente e bem ao estilo Flash Gordon. Nesta empreitada, Fernandinho tem a companhia de dois simpáticos coadjuvantes, que nada mais são do que seus brinquedos preferidos: Ursinho (Wandi Doratiotto) e Chocolate (Lázaro Ramos). Além deles, o avião vermelho que, eles usam para viajar pelo globo, também tem personalidade e possui a voz de Milton Gonçalves.

Não há como negar que dentre as vozes que dão vida aos personagens, quem se sobressai é realmente Lazaro Ramos, sendo que a última vez que ele havia dublado um desenho foi no já clássico O Homem que Copiava, em que seu personagem se tornava um. Aliás, o seu personagem é protagonista das piadas que mais possuem momentos subliminares, dos quais somente os adultos que forem acompanhar os seus filhos irão entender. Interessante que esse longa (baseado na obra de Érico Veríssimo de 1936) se mantem fiel da forma em que ela foi escrita na época e preservando assim algumas passagens que, talvez alguns considerem politicamente incorretas para os dias de hoje, mas isso demonstra total fé que os produtores tiveram com o seu pequeno projeto.

Com uma das músicas cantada pela minha amiga, cantora e dubladora Luíza Caspary, As aventuras do avião vermelho é um filme simpático, divertido e que conquista facilmente aquele adulto que mantem em sua mente as suas aventuras imaginárias e coloridas do seu tempo.


12 de dezembro de 2014

A NOITE DA VIRADA (2014)

Existe um incentivo cada vez maior atualmente de se querer fazer outros filmes de gênero dentro do nosso cinema brasileiro e não ficarmos presos somente a uma fórmula de sucesso. O que move a massa e dá lucro atualmente aos estúdios são as comédias brasileiras que, mesmo com roteiros previsíveis, garantem um retorno garantido. Infelizmente essa fé cega por esse gênero acaba gerando filmes tão horrorosos, que não me surpreenderia que chegamos ao ápice da mediocridade. 

A Noite da Virada talvez seja o princípio do fim com relação a trajetória das comédias de sucesso do país, pois é uma hora e meia de filme, cuja a proposta é querer fazer o público rir, mas no máximo que irá puxar de nós nesse meio tempo será um leve sorriso forçado e mentiroso. A trama sobre vizinhos e amigos que se reúnem para a festa da virada, nada mais é do que uma mistura de ideias e fórmulas já bem manjadas de outros filmes americanos, demonstrando total falta de identidade própria e criatividade. Quando se assiste A Noite da Virada, vem à mente imediatamente filmes como Se Beber não Case e Projeto X. Ou seja: uma cópia de uma cópia de outra cópia e tudo beirando ao artificial.

Traições, sexo e drogas são os ingredientes que moldam a trama, alinhado com piadas politicamente incorretas, mas da maneira de como são dirigidas, soam tão falsamente chocantes, que poderia ser tranquilamente exibido numa Sessão da Tarde qualquer da vida. O elenco Global conhecido não ajuda muito: Luana Piovani novamente atuando como ela mesma e Marcos Palmeira, mesmo com o talento de intérprete na veia, entra e sai no piloto automático. 

Júlia Rabello como a mulher traída, Martha Nowill e Luana Martau que, interpretam as personagens que só tem sexo em suas mentes, acabam meio que sobressaindo em meio a esse humor sem sal, mas o trio acaba não sendo o suficiente para salvar esse barco que afunda antes mesmo de entrar na água. E, como se a situação não poderia piorar mais, o filme enlaça todas as sub-tramas e as resolvem de uma forma tão ruim no seu ato final, que você se arrepende de ter embarcado na uma hora e meia mais longa de sua vida. 

Com uma ponta medíocre e rápida de Alexandre Frota (dando a entender que precisava participar para pagar as suas contas atrasadas) A Noite da Virada pode não ser a ultima pá de terra para o gênero da comédia por aqui, mas bem que se esforçou para se criar tal feito.


9 de dezembro de 2014

ABUTRE (Nightcrawler, 2014)

Ao longo da vida eu conheci pessoas que, no princípio, se apresentavam como verdadeiros maus-caráteres, mas que mesmo assim se davam bem na vida. Num primeiro momento, podemos dizer que talvez essas pessoas tenham se vendido para conseguir uns degraus a mais da vida, mas e se eles mesmo se colocaram lá, sujando as mãos e manipulando outras pessoas? Esse pensamento me veio ao assistir o filme Abutre que, para o bem ou para o mal, é uma representação do homem comum contemporâneo que, não importa o que acharem de sua imagem, desde que ele consiga chegar aos seus objetivos!

Estreando como diretor (antes roteirista de filmes como Gigantes de Aço), Dan Gilroy conduz a história de Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), que busca a oportunidade de crescer na vida. Para isso, busca meios nada politicamente corretos, para registrar as melhores cenas de crimes e acidentes que ocorrem na cidade de Los Angeles. Não demora muito para ele ganhar prestígio e atingir os seus objetivos.

Independente de qual a profissão que a pessoa exerça, quem for assistir irá se identificar com a trama. O que vemos é um protagonista sem escrúpulos, que não mede esforços para conseguir os seus objetivos, nem que isso custe até a vida das pessoas em volta. Por mais cru que possa ser, é um retrato de inúmeras pessoas que usam meios nada corretos para se ganhar a vida hoje em dia que, na maioria das vezes, pisa em outras pessoas antes que seja pisado por elas.

Num ano que tem provado cada vez mais versatilidade em seu trabalhos (os últimos foram Os Suspeitos e O Homem Duplicado) Jake Gyllenhaal surpreende novamente ao criar para o seu personagem uma personalidade forte, persistente, cuja ambição e genialidade andam de mãos dadas no decorrer do filme. Por mais que desprezemos suas atitudes para alcançar suas ambições, seu Lou Bloom é aquele personagem que você odeia, mas ao mesmo tempo o ama, pois as suas palavras sobre como movem as engrenagens do mundo dos negócios, independentemente de quais elas forem, faz com que nós, querendo ou não, concordemos com ele.

Em parte, não o culpamos por ele ser o que é, pois o mundo no qual ele trabalha (ou seja a imprensa) chega a ser tão culpada quanto ele. Nesse caso, a personagem Nina Romina (Rene Russo, ótima) que comanda um jornal do qual transmite as imagens que Bloom filma, só não é pior do que ele porque ela tenta, mesmo que de uma forma hipócrita, passar uma conduta de pessoa insubornável e justa. Mas verdade seja dita: uma vez demonstrando interesse pelo material de Bloom, ela acredita num primeiro momento que está com a galinha dos ovos de ouro em mãos, mas ela mesmo se torna uma peça para o jogo de xadrez e ambição do protagonista.

Para não dizer que todos desse universo são comprados de acordo com os seus desejos, o assistente de Bloom, Rick (Riz Ahmed), que o ajuda na busca dos crimes e acidentes pela cidade, se torna uma espécie de "bom senso" perante ao seu chefe. Ele quer apenas trabalhar e ganhar o necessário para sobreviver, mesmo quando começa a se dar conta de que tipo de pessoa é Bloom. Porém, até as ovelhas podem ser compradas, mesmo tendo a consciência de estar se encaminhando para o caldeirão.

Tecnicamente o filme é impecável em termos de agilidade, sendo que a sua montagem rápida, faz com que as cenas em busca de um furo jornalístico se tornem um verdadeiro balé de imagens rápidas e eficazes. Na realidade isso é proposital, pois tanto o protagonista como outro rival do seu ramo (aqui interpretado por Bill Paxton) correm sempre contra o relógio para ver quem consegue chegar mais rápido no local dos acontecimentos, para capitar as imagens que lhe darão algum lucro. Porém, o filme se beneficia mais ainda nos momentos de pura tensão, em que Bloom se arrisca ao máximo para conseguir um furo, nem que para isso consiga que determinados crimes se tornem piores para então se beneficiar disso.

Com um final corajoso para os padrões do cinema norte americano atual, Abutre é aquele tipo de filme que nos faz pensar e questionar até aonde iriamos para alcançar os nossos objetivos. Vale mais a pena alcançar degraus acima profissionalmente ou manchar a imagem da sua pessoa? Para o bem ou para o mal a gente sempre colhe o que planta!

8 de dezembro de 2014

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014)

Muito eu reclamei do fato do cineasta Peter Jackson ter adaptado o pequeno livro de O Hobbit para uma trilogia cinematográfica, onde cada filme tem duração de quase três horas. Para piorar, a segunda parte (A Desolação de Smaug) terminou de uma forma tão abrupta que temia pelo resultado final da terceira e última parte. Se, por um lado, A Batalha dos Cinco Exércitos não termina de uma forma tão inesquecível como foi na trilogia original, por outro, felizmente, se encerra de forma satisfatória e fazendo jus a proposta inicial desse grande projeto.

Se no filme anterior havia uma prólogo engenhoso, criado pelo cineasta para situar um marinheiro de primeira viagem, aqui não há tempo para isso (exigindo que se veja os filmes anteriores) e, sendo assim, a trama já começa exatamente aonde havia encerrado A Desolação de Smaug. Portanto, testemunhamos a quase extinção dos humanos na cidade flutuante, cabendo então a Bard (Luke Evans) encarar o dragão sozinho e se tornando um dos grandes heróis dessa nova trilogia. No entanto, se por um lado se encerra esse momento dramático que tanto esperamos durante um ano, por outro, sentimos que foi um tanto rápido a participação final desse incrível dragão que impressionou no filme anterior, graças a voz onipresente de Benedict Cumberbatch (de Álbum de Família).

Após isso, testemunhamos um novo começo para todas as sub-tramas que haviam sido não concluídas no capitulo anterior. Jackson se torna habilidoso em não se enrolar muito nelas e portanto todas as pontas soltas com seus determinados protagonistas se reúnem para a inevitável guerra que irá se abater na frente na montanha de Erebor. Anões, humanos, orcs e elfos, todos desejam a mesma coisa: invadir o local e adquirir suas riquezas, principalmente a Pedra Arken.

Uma coisa que eu sempre admirei na obra de Tolkien e que foi transportada fielmente nas mãos de Jackson, foi o fato de os protagonistas sempre viverem na corda bamba com relação ao poder e ambição que desperta neles. Se na trilogia anterior "o anel" provoca esse mal, aqui o mar de ouro de Erebor desperta a ambição de todos os povos, inclusive daquele que a gente menos espera. Se no filme anterior, a ambição que surge de forma repentina em Thorin (Richard Armitage) ao readquirir seu reinado era um tanto que forçada, aqui o ator finalmente nos convence do contrário, nos brindando com uma interpretação digna de nota.
Embora Bilbo Bolseiro (Martin Freema) e Gandaf (Ian McKellen) sejam a força moral que tentam colocar um pouco de luz nesses inúmeros personagens, cujo o desejo é somente guerrear pelo poder, é interessante observar que no decorrer da trama, cada um irá aprender do seu modo, de que haverá sempre um bem maior para se lutar do que adquirir riqueza e glória. Thorin e o rei elfo Thranduil (Lee Pace) irão perceber da melhor e da pior maneira possível o quanto estavam errados com relação ao que eles realmente queriam. Sendo assim, esse último filme pode ser interpretado como uma engenhosa metáfora com relação às guerras entre os povos de ontem e principalmente os de hoje que, por vezes, lutam por desejos mesquinhos e que poderiam encerrar as suas diferenças com um diálogo racional.

Tecnicamente, o filme nos brinda com batalhas campais deslumbrantes, onde a Weta digital mostra o quanto evoluiu e provou que é o melhor estúdio em termos de efeitos visuais atualmente. Quando os exércitos começam a se guerrearem entre si na frente da montanha de Erebor, testemunhamos as melhores cenas de ação desde o encerramento da trilogia original. Destaco principalmente Legolas (Orlando Bloon) que novamente protagoniza as melhores (e absurdas) cenas de ação como sempre.


Mas em meio a tanto efeito visual, Peter Jackson prova que uma história com boas doses de emoção é que conquistam realmente o público. Com isso, testemunhamos o embate final entre Thorin e seu inimigo mortal, o orc pálido Azog, cujo o resultado final é surpreendente e que ficará na memoria dos fãs por um bom tempo. E se a relação amorosa nascida entre a elfa Tauriel (Evangeline Lilly) com o anão Kili (Aidan Turner) soava um tanto que forçado no filme anterior, aqui é concluído de uma forma emocionante e que nos faz perdoar o cineasta em ter inserido essa historia de amor na trama que não havia no livro.

Com um final que enlaça de uma forma perfeita com o início do filme A Sociedade do Anel de 2001, O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos encerra essa trilogia de uma forma digna e provando que o lado ambicioso de Peter Jackson em transformar um simples livro infantil de aventura numa grande trilogia talvez não estivesse tão errado, mesmo com os inúmeros percalços que ele percorreu nessa grande jornada que nós testemunhamos.


3 de dezembro de 2014

Meninos de Kichute (2009)

Ontem (02/12/14) no Cinebancários de Porto Alegre, assisti Meninos Kichute que, embora eu não tenha vivido no período do qual a trama se passa (1975), é um filme que facilmente nos identificamos, já que a trama, protagonizada por crianças, acaba por fazer com que muitas pessoas se lembrem de algo parecido visto na tela. O filme se passa no interior de São Paulo e somos apresentados a Beto, o filho do meio de uma família simples de um bairro operário, que sonha em ser goleiro de futebol e superar os obstáculos – o principal deles, a resistência do pai, autoritário e religioso, para o qual competição é pecado. Porém, o próprio pai pratica um pecado muito maior, o que torna então uma pessoa hipócrita perante as outras pessoas com quem vive.

Enquanto isso acompanhamos os jovens criando o Meninos de Kichute Futebol Clube, (kichute era o tênis conhecido entre os garotos que cresceram entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1980). Embora seja um filme protagonizado por crianças, a trama possui alguns momentos de drama que, mesmo não sendo o foco principal, ele engloba também o papel político brasileiro da época, sob o regime da ditadura militar. Produzido em 2008 e exibido em alguns festivais em 2010, o filme, infelizmente, chegou tardiamente por aqui.

A trilha sonora ajuda também a direcionar a pessoa cada vez mais ao filme e fazê-la se identificar, pois possui inúmeras canções de sucesso, criando-se então uma sensação de pura nostalgia com: "Que Fim Levaram todas as Flores" de Secos e Molhados, "Filho Maravilha" de Jorge Ben e "Eu Quero Botar meu Bloco na Rua" de Sergio Sampaio. Mesmo com poucos recursos na mão, a direção de arte também faz um trabalho primoroso, especialmente mostrando os carros, a moda de se vestir da época e os cortes dos cabelos dos garotos que, aliás, eram os mesmos que eu usava nos meus primeiros anos de vida nos anos 80.

Independente de qual geração a pessoa nasceu, a força principal mesmo do filme é a identificação que ele nos provoca. Vemos disputa nos campinhos de futebol, as curiosidades do mundo adulto através de revistas para maiores de 18 anos, brigas durante uma pelada, o bullying na escola (que na época nem tinha esse nome) e é impossível não reviver com nostalgia registros de uma infância que a cada dia se torna mais distante e dourada para nós.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Márcio Américo, comediante e escritor. No filme, o autor dividiu o roteiro com o diretor Lucas Amberg. Acreditasse que foram mais de 600 crianças que passaram pelo processo de seleção de atores e foram escolhidas 20 para a criação do elenco mirim.

Elas se destacam nas cenas da escola, no ferro velho e no campinho. Por ser um filme agradável e nostálgico em assisti-lo, o filme ganhou o Prêmio do Público na categoria Melhor Filme Brasileiro da Mostra Internacional de Cinema der São Paulo.

2 de dezembro de 2014

De Volta ao Jogo (John Wick, 2014)


Keanu Reeves não atuava num filme bom desde o cultuado Constantine, de 2005, mas também não se pode esperar muito desse, que é um regresso do astro aos filmes de ação. O filme, entretanto, não é dele, mas sim dos dublês e agora diretores Chad Stahelski e David Leitch. São as coreografias e cenas de ação, cheio de clichês batidos, mas com certo estilo, que roubam cena no filme.


Ex-assassino de aluguel, extremamente eficiente, temido por todos, tentando se recuperar da perda da esposa, que morre por causas naturais, John Wick (Reeves) é obrigado a voltar à ativa depois que um playboy sem noção rouba seu carro e mata seu pequeno cachorro de estimação. Acontece que o incauto Iosef (Alfie Allen) é filho do chefão da máfia russa Viggo (Michael Nyqvist), antigo patrão de Wick. E, conhecendo-o mais do que ninguém, o patriarca sabe que vem uma grande tempestade.

O nome do personagem dá uma pista do registro que se pretende: John Wick, "João Pavio (curto)" ou ainda, por uma pronúncia aproximada, João Fraco. Só a partir da chave da ironia é que se pode entender que De Volta ao Jogo é uma paródia de filmes de ação com vingança, em que seu perpetrador tem direito de eliminar quem não respeita o código de ética da classe. Wick é uma máquina adormecida, despertada pelo roubo de um automóvel antigo e pela morte do pequeno cão. 

Por isso também o velho hotel no centro da cidade, que funciona como uma espécie de clube, em que o staff sabe que está lidando com uma classe especial de profissionais, sem deixar de mencionar a eficientíssima equipe de limpeza, faz seu complicado trabalho sem nada perguntar. Esse humor sutil e as muitas referências, além do elenco, que inclui Willem Dafoe, John Leguizamo e Adrianne Palicki, é que faz o filme um despretensioso passatempo, desde que desligue o seu cérebro.
 

Boyhood - Da infância à juventude (2014)

Eu ouvi muito falar a respeito sobre o mais novo filme do diretor Richard Linklater (Antes do Amanhecer) e, portanto, fazia questão de assisti-lo. Não me resta dúvida nenhuma que Boyhood: Da Infância à Juventude, não é somente um ótimo filme, como também um feito notável e raro do cinema recente. Acompanhando doze anos da vida do pequeno Mason (Ellar Coltrane) e a trama é basicamente isso, mas que nos enlaça de tal forma que não vemos o tempo passar durante a projeção.

Embora o projeto seja corajoso (rodado durante quatro dias por ano, num total de doze) é uma trama simples, onde assistimos o seu protagonista envelhecendo (dos seis aos dezoito anos), acompanhando os seus dramas do dia a dia com os seus familiares, seus conflitos internos da adolescência e seus relacionamentos amorosos, que vão da curtição à frustração. Nesse sentido, Boyhood é um retrato do nosso mundo real, em vez de uma mera trama mirabolante juvenil. As conversas soam familiares, a maneira de se vestir e a forma como ele age com os seus familiares. Tudo pelo que nós mesmos já passamos, talvez até com as mesmas reações de Mason.

Embora comece de uma forma devagar, o filme nos prende e nos cativa rapidamente. Talvez por transmitir um olhar real do jovem interprete, sendo que o próprio já havia afirmado em uma entrevista que ele mesmo não conseguia às vezes separar o seu mundo real com a trama fictícia que participava. Isso se deve muito pelo fato do filme não apresentar nenhum personagem fora do comum, mas isso torna mais um ponto a favor para produção, já que o cinema contemporâneo de hoje vive escasso com personagens que deveriam ser algumas vezes 'gente como a gente'.

Em outra entrevista, Ellar disse que ao assistir as imagens do filme pela primeira vez se maravilhou. As lembranças em sua mente se misturavam e, após se dedicar doze anos participando das filmagens, ele não se lembrava mais que tinha participado de determinadas cenas. O jovem protagonista Mason realmente se confunde com seu intérprete.

Existe muito do ator no personagem fictício, sendo que ambos não comem carne e amam de paixão o mundo da fotografia. O ator falou que quando tomava uma decisão de fazer algo com relação ao corpo, logo em seguida ligava para o cineasta, para ver se dava para colocar um brinco ou pintar o cabelo. Linklater por sua vez dava liberdade total para que Coltrane fosse natural, para que o jovem de ontem e hoje se identificasse facilmente com ele.

Alguns dos diálogos filosóficos que Mason dispara na tela foram na realidade algumas sugestões do próprio ator. Antes de começar as filmagens de cada ano, Linklater fazia uma rodada de conversas descontraídas com o elenco principal, de onde se tirava inúmeras ideias para serem aproveitadas durante as filmagens. Embora cineasta afirmasse que realmente havia um roteiro escrito, as conversas dessas rodadas serviam unicamente para que equipe e elenco se atualizassem e que pudessem passar durante as filmagens uma forma de naturalismo ao máximo possível. Quem acompanha a obra do diretor sabe que ele já usava esse artifício, principalmente na sua trilogia que se iniciou em Antes do Amanhecer.

Embora a trama seja toda concentrada em Mason, o filme não seria nada sem a presença de sua mãe. Interpretada por Patricia Arquette (Amor a Queima Roupa) ela passa uma imagem real de uma mãe de ontem e hoje: tentando batalhar para realizar os sonhos dos seus filhos e os seus, mas que infelizmente acaba se perdendo algumas vezes no trajeto, alternando em escolhas erradas (com relação a escolhas de maridos ) como também em certas, ao se dedicar a carreira que queria. A irmã mais velha de Mason e o pai, interpretado por Ethan Hawke (parceiro habitual do cineasta), são também personagens essências na vida do jovem protagonista, mesmo eles não influenciando muito as suas escolhas.

Mason nunca tenta ser uma imagem espelhada dos seus pais, mas isso não significa que ele não aceite da maneira como eles são. Unicamente ele vive como um adolescente como os outros, sem ser revoltado, mas também não muito conformado com a realidade em que vive e com isso vive se perguntando para si mesmo inúmeras coisas, que por vezes não obtém uma resposta. Embora nunca aja um letreiro nos dizendo quando acontece um pulo no tempo, nós sabemos quando isso acontece: as mudanças do rosto e o físico dos personagens, assim como a cultura, desde musicas, objetos, cortes de cabelo e de um momento divertido com relação ao Harry Potter.

E é assim durante as quase 3 horas de projeção, acompanhamos o crescimento do protagonista, que desde sua primeira cena, como um sonhador deitado na grama, para uma jornada de doze anos aonde acompanhamos de tudo um pouco de sua vida. Vemos sua mudança física e mental, suas desavenças na escola, sua chegada em uma faculdade, seu primeiro serviço e as diversas mudanças com a mãe que vive também em busca de um lugar nesse mundo. Infelizmente o filme termina de uma forma abrupta e fazendo com que nós quiséssemos continuar ao lado do personagem e vê-lo até aonde ele vai durante o seu percurso na vida. O protagonista se vai, para continuar a sua jornada, nos deixando sem a sua presença, mas fazendo a gente pensar em suas atitudes e escolhas.


Boyhood: Da Infância a Juventude pode não ser uma grande obra prima como muitos dizem, mas está muito longe de ser um mero filme como os outros que existe aos montes por ai. Acima de tudo, é uma realização incomum sobre a vida comum e um feito de realização dos mais fascinantes e que ficará sendo lembrado por todo cinéfilo que se preze.

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