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4 de novembro de 2014

TIM MAIA (2014)

É engraçado que a maioria dos meus ídolos tenha morrido fazendo o que eles faziam de melhor, mas, por mais mórbido que seja, é melhor assim do que terem morrido como uma pálida imagem do que já foram um dia. Um dos meus ídolos da música brasileira, Tim Maia, veio a falecer logo após a sua ultima apresentação, aonde nem chegou a terminar a primeira música que iria cantar. Mas isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, pois Tim era um gênio, cujo talento ninguém iria poder derrubá-lo, a não ser ele mesmo.

No mais novo filme de Mauro Lima (Meu Nome Não é Johnny), o acompanhamos da infância difícil aos primeiros passos do ramo da música, o auge e a queda inevitável do cantor. Vale destacar os primeiros minutos da obra, que são emoldurados com uma bela fotografia em preto e branco e narrados pelo personagem Fabio (Cauã Reymond) onde conta os primeiros anos de Maia. Já nestes minutos iniciais, se explode uma síntese sobre quem era Tim Maia (primeiros anos vivido por Robson Nunes), onde a apresentação dos créditos e câmera lenta se forma então uma única forma visual, que por ela, compramos a passagem ida, para adentrarmos no filme e irmos até o fim querendo ou não.

Verdade seja dita: nos anos de chumbo, ou você se vendia para o sistema ou iria contra maré e lutar por um sonho impossível. Mesmo todos dizendo ao contrário, Tim Maia seguiu pela segunda opção, lutando somente com o que tinha no bolso e caindo de cabeça pelo mundo. Embora em alguns momentos aparenta ser uma produção com um orçamento limitado, Mauro Lima soube muito bem contornar esse empecilho e retratar muito bem lugares que Maia passou, mas que não existem mais. Bom exemplo é na passagem onde retrata os EUA, que mostra pouco, mas nos convence como um todo.
Mas se reconstituição fiel ao período lhe falta, Lima não poupou em termos de ousadia e que com certeza irá tocar na ferida de muita gente. No período em que Tim Maia buscava uma oportunidade, acompanhamos a sua “via cruz”, na tentativa de buscar uma ajuda através de seu melhor amigo (?), ninguém menos que Roberto Carlos (George Sauma). É de se tirar o chapéu para o cineasta que, de uma forma bem escancarada, apresenta aqui o rei da música de uma forma caricata, vendida e modelada pelo sistema da ditadura da época.

Após ter se vendido (mas não muito) ao sistema (e ao Roberto Carlos) adentramos na segunda fase do filme, onde o cantor (interpretado agora por Babu Santana) começa a construir os seus primeiros anos de sucesso. Ponto para o cineasta onde soube muito bem retratar o período em que Maia introduziu o seu estilo soul (música negra americana) com a música popular brasileira. Aliás, os anos 70 aqui é o melhor período retratado, onde as cores e a moda do período explodem na tela.

É nesta parte que surge Janaína (Aline Moraes, ótima) que é na realidade uma representação condensada de duas mulheres que passaram na vida do cantor. Curiosamente o mesmo vale para o personagem Fabio (Cauã Reymond), que é uma junção de alguns amigos que ajudaram na carreira de Maia. Embora em parte os personagens sejam fictícios, ambos os atores estão muito bem em seus respectivos papéis e Reymond, ao que parece, está deixando aos poucos a fama de interpretar ele mesmo e provando que tem uma veia de interprete, mesmo ainda um pouco escondida.

Se há um ponto falho no filme é dele se alongar mais do que devia e do fato de algumas passagens não terem sido muito bem exploradas, como no caso da época que o cantor se voltou mais para a igreja, mas logo abandonou. Mas isso é contornado graças às ótimas interpretações do elenco e principalmente de Babu Santana: vê-lo falar, cantar e agir como Tim Maia, dá a sensação que o gênio ressuscitou, graças a um desempenho marcante, onde o ápice se vê, nas sequências onde o ícone sucumbe em meio ao sexo e drogas desenfreadas. Com os derradeiros minutos, que retratam os últimos passos do cantor no seu último show em Niterói, de 1998, o filme encerra e nos dá aquela sensação mórbida sobre o inevitável. Porém, essa autodestruição imposta pelo próprio gênio, não foi o suficiente para que ele terminasse num lugar comum, mas sim no coração daqueles que apreciavam uma boa música brasileira, cada vez mais rara hoje em dia.  


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