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1 de outubro de 2014

Bem-Vindo a Nova York (2014)

Assisti pouco ou quase nada da filmografia de Abel Ferrara (Vicio Frenético), sendo que o único filme que eu vi, eu acho, foi à refilmagem de Invasores de Corpos, que foi um verdadeiro fracasso, o que fez então ele voltar a fazer filmes menores. O cinema independente foi um lugar próspero durante os anos 90 e fez com o que o cineasta tivesse total liberdade em fazer o que bem entendesse com seus filmes, como o inquietante Vícios. No seu mais novo filme Bem-Vindo à Nova York, a obra é um verdadeiro cartão de visita para pessoas (como eu) que não conheciam a sua filmografia, onde ele não poupa ninguém, nem mesmo os olhos do espectador que assiste o vício do protagonista (Gérard Depardieu), que é descontrolado em fazer sexo compulsivamente, pois acredita que, tendo a faca e o queijo na mão, pode fazer o que bem entender.

Baseado em fatos verídicos, o cineasta nos apresenta todo o glamour dos EUA, mais precisamente de Nova York, onde (aparentemente) todos são muito bem-vindos, com a propaganda sobre a terra das oportunidades escancarada, o que faz que todos acreditem que possam fazer o que bem entender. Talvez isso tenha pensado o protagonista Mr. Devereaux (Gérard Depardieu), poderoso agente da economia mundial que não poupa esforço nenhum em satisfazer o seu apetite sexual, seja ao lado de amigos, colegas de trabalho ou alvos para um futuro bom negócio. A primeira meia hora de filme é basicamente isso: sexo, orgia, ganância, corrupção e tudo batido num imenso liquidificador, onde o universo do protagonista transborda, nos fazendo não desejar limpar aquela sujeira, só para ver até aonde vai dar.

Mas a partir do momento que ele tenta se aproveitar de uma camareira, seu porto seguro começa a desmoronar, ao dar de cara com a justiça do país das oportunidades. Neste momento, Gérard Depardieu nos brinda com o seu melhor momento no filme, onde não se intimida em respirar a todo o momento que nem um porco encurralado, que saiu do seu chiqueiro de prazer para então cair na frigideira para ser assado. Encarando o fato de que seus recursos em mãos não podem mais comprar ninguém, ele recorre então ajuda à sua mulher (Jacqueline Bisset, soberba), que fica furiosa pela situação de seu marido, mas que irá ajudá-lo mesmo no contra gosto.

A partir do momento que entra a esposa em cena, presenciamos um verdadeiro duelo verbal entre o casal onde ambos, no fundo, estão cansados um do outro, mas que continuam juntos unicamente por interesses ou para manter as aparências já bem arranhadas. Não importa qual poderio deles, pois no final das contas é um casal em crise, que já deu o que tinha que dar, mas que ainda não encontraram um caminho para trilhar separadamente. Bisset e Depardieu estão em total sintonia, representando então um verdadeiro retrato do casal contemporâneo em crise e sufocado por meias verdades.
Mesmo com todos os erros cometidos, é interessante observar que o cineasta com o seu roteiro bem escrito, tente nos convencer que há uma justificativa pelos atos cometidos pelo protagonista. Por vezes dá a entender que ele é uma vitima de uma sociedade que se alimenta da hipocrisia, ou pelo fato de unicamente ter nascido em berço de ouro e tendo ganhado tudo na boca. Em pelo menos dois momentos únicos, o protagonista nos olha, nos obrigando a julgá-lo e encontrar nele alguma esperança para um futuro próximo.

Com uma fotografia elegante, porém sombria, no qual sintetiza aquele universo em que o protagonista vive, Bem-Vindo a Nova York é um filme que escancara o vício dos poderosos, em que acham que podem fazer o que bem entender no mar cheio de dinheiro. Mas a pergunta que fica no ar no final do filme é esta: quando a poderosa baleia encalha nesse mar verde e ganancioso devemos ser misericordiosos?


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