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27 de fevereiro de 2014

ROBOCOP (2014)

Fazer uma refilmagem que supere a obra original, que é considerada um grande clássico, é o mesmo que querer reverter o curso de um rio. Por muito tempo Robocop ficou sendo alvo dos estúdios para retornar aos cinemas, mesmo sobre uma avalanche de protestos perante o projeto. Para a surpresa de todos, a árdua tarefa coube ao nosso cineasta brasileiro José Padilha (Tropa de Elite 1 e 2) que, se por um lado faz um trabalho que não supera o original, por outro, ele injeta a sua forma pessoal de se criar um filme e evita do projeto ter ido numa direção muito mais delicada.
Felizmente, a produção não caiu na armadilha de fazer a mesma história que, embora tenham alguns pontos semelhantes, o filme de Padilha se envereda para outras questões não exploradas no original, como o fato de ser essencial um policial robô ter ainda o seu lado humano para que possa ganhar a confiança do público. Mas, talvez, uma das melhores coisas dessa mais nova versão é ver o protagonista ter que aceitar a sua condição meio homem e meio maquina.

Alex Murphy (Joel Kinnaman) é quase morto num atentado arquitetado por bandidos. Felizmente (ou não) consegue a oportunidade de continuar ainda vivo, graças ao projeto da empresa OmniCorp comandada por Raymond Sellars (Michael Keaton), que tem a ambição de colocar um ser humano num robô policial. É ai que entra em cena o cientista Norton (Gary Oldman), que é incumbido de transformar Alex numa máquina de combate contra o crime.
  
Diferente do original, Alex não descobre aos poucos que um dia foi um ser humano, sendo que, imediatamente, ele acorda após a operação (numa seqüência de sonhos com direito a música de Frank Sinatra) e começa a encarar a dura realidade do que aconteceu com ele. Sem sombra de dúvida essa é uma das partes mais corajosas do filme, onde a armadura é tirada gradualmente e revela o que somente sobrou de Alex embaixo da carcaça de metal. É nesse ponto que Joel Kinnaman surpreende ao interpretar Alex Murphy, pois ele passa para nós toda a dor que está sentindo e desejando não estar naquela situação.
Com isso, o filme se envereda mais no drama do personagem em ter que aceitar a sua condição de ciborgue, sendo que ter uma vida normal com sua esposa (Abbie Cornish) e filho será praticamente impossível.

Em meio a isso, o protagonista passa por inúmeros testes para ver se é correto um homem meio robô patrulhar as ruas. Ao mesmo tempo, começa gradualmente o filme a revelar as suas reais intenções, tanto Raymond Sellars como também da própria policia em que um dia Alex trabalhou. É ai que se encontra o motivo pelo qual Padilha quis trabalhar nesse projeto, pois o filme faz com que o cineasta volte a trabalhar num assunto bem espinhoso visto em Tropa de Elite 2: a policia corrupta que, por vezes, trabalha até mesmo para aqueles que ela mesmo caça. Isso faz com que a trama não caia numa vala comum e faz com que a gente questione aqueles que deixemos nossas vidas por um desejo de segurança.
Não há como negar que vemos a forma de Padilha filmar em boa parte do filme, sendo que a sequência inicial onde vemos inúmeros drones tentando fazer uma pacificação em Teerã, faz com que, por um momento, sentirmos a sensação que voltamos ao lado de Capitão Nascimento subindo o morro. Isso, claro, se deve ao fenomenal trabalho de Lula Carvalho, cuja sua câmera sempre está em movimento, criando então a sensação de um documentário, filmado ao vivo, mas que não é muito de se admirar, já que o estrelado de Padilha e seus técnicos vieram do seu primeiro grande sucesso de critica que foi o documentário Ônibus 174.
Infelizmente nem tudo são flores nessa produção, já que se ouviu que Padilha se incomodou muito com os produtores que não queriam que ele tivesse 100% de liberdade para criar o filme. Se tiver um olhar mais atento, irá reparar que do inicio até o final do segundo ato do filme é Padilha puro. Contudo, do terceiro ato em diante, tem-se a sensação de que os produtores meteram as mãos nas rédeas e queriam que a trama tomasse um novo rumo.

Obviamente que isso aconteceu, já que até mesmo a trama dá um espaço para uma possível sequência, caso o filme seja o sucesso que o estúdio tanto deseja. Vendo esse terceiro ato como ficou, imagino então como seria se não tivesse um diretor autoral como Padilha, que deu um pouco de alma para o projeto. Com certeza o resultado final seria muito pior. 

No final das contas o filme é bem divertido, com boas doses de reflexão, mas que, com certeza, irá se tornar um bom exemplo de filme que seria melhor, se não fosse ambição de produtores falando mais alto.


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