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3 de fevereiro de 2014

eXistenZ (1999)


Confirmado para participar do curso sobre David Cronenberg pelo 'Cena Um', percebi que eu conhecia muito pouco sobre a obra deste importante diretor canadense. Buscando por algumas produções com seu nome, descobri três clássicos no Netflix (#FicaDica): A Hora da Zona Morta (Dead Zone, 1983), eXistenZ (1999) e Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007).

Os principais filmes do diretor se assentam, comummente, sobre uma temática que mistura ficção científica, beirando o surrealismo, com horror. Seu gênero favorito é trabalhar o medo das pessoas sobre coisas infecciosas e nojentas da natureza e do próprio corpo humano, como é facilmente percebido em um de seus maiores clássicos, A Mosca (The Fly, 1986). É nesse escopo que é montado também o longa eXistenZ.

O filme conta, em linhas gerais, a história de uma designer de jogos, Allegra Geller (Jennifer Jason Leigh), que sofre tentativas de assassinato por pessoas que, supostamente, são contra o forte crescimento de jogos de realidade virtual, o que estaria deteriorando a forma como as pessoas veem a realidade. Para saber se seu último e melhor jogo está intacto após um ataque, ela precisa da ajuda de seu salvador, o estagiário de marketing da sua empresa, Ted Pikul (Jude Law), para jogar.

O mais interessante do filme, para mim, é justamente a estética bizarra (nojenta) do filme. O console do jogo é algo orgânico, como se fosse um pedaço do corpo humano. O objeto se liga por uma fibra, que lembra um cordão umbilical, nas costas da pessoa, em um implante com uma cavidade que se assemelha muito a um ânus... o jogo, então, se passa dentro da mente do jogador, não necessitando uma tela. Complementa-se ainda que no início do filme, seu primeiro assassino usa uma pistola feita de ossos com pedaços de carne que é carregada com dentes humanos ao invés de balas. Além disso, o diretor cria um um clima de tensão sexual entre os protagonistas através do jogo e até mesmo com o console, como um objeto de prazer.
David Cronenberg leva o espectador a uma viagem, junto com os personagens, a entender o que é o mundo real, num jogo onde as possibilidades são infinitas; Um jogo que traz todas as percepções possíveis aos sentidos humanos, além da possibilidade de se jogar jogos. Cronenberg traz ainda uma discussão relevante sobre a realidade atual dos jogos, cada vez mais verossímeis, possibilitando cada vez mais liberdade ao usuário de não se ficar preso a uma história central, explorar um mundo construído com um mínimo de livre-arbítrio e até mesmo de jogar jogos dentro de jogos (vide a saga do game GTA).

Apesar de um bom elenco, que conta ainda com Ian Holm e Willem Dafoe, o filme não fez muito sucesso na época, tornando-se um cult, como acontece frequentemente com as obras de Cronenberg (A Mosca, Videodrome, Scanners, por exemplo). No mesmo ano ele teve um forte concorrente que abordava um tema semelhante, mas com uma estética mais deslumbrante e menos grotesca: The Matrix, com Keanu Reeves.
É um filme que tira o espectador da zona de conforto pela estética, semelhante a muitos filmes "B", mas também pela reflexão sobre o que é a realidade, a forma como lidamos com isso, sobretudo sobre nosso direito de escolha. Para os fãs de David Cronenberg, este é um de seus melhores filmes, consagrandando diversos elementos presentes em outros filmes.


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