Parceria

27 de fevereiro de 2014

ROBOCOP (2014)

Fazer uma refilmagem que supere a obra original, que é considerada um grande clássico, é o mesmo que querer reverter o curso de um rio. Por muito tempo Robocop ficou sendo alvo dos estúdios para retornar aos cinemas, mesmo sobre uma avalanche de protestos perante o projeto. Para a surpresa de todos, a árdua tarefa coube ao nosso cineasta brasileiro José Padilha (Tropa de Elite 1 e 2) que, se por um lado faz um trabalho que não supera o original, por outro, ele injeta a sua forma pessoal de se criar um filme e evita do projeto ter ido numa direção muito mais delicada.
Felizmente, a produção não caiu na armadilha de fazer a mesma história que, embora tenham alguns pontos semelhantes, o filme de Padilha se envereda para outras questões não exploradas no original, como o fato de ser essencial um policial robô ter ainda o seu lado humano para que possa ganhar a confiança do público. Mas, talvez, uma das melhores coisas dessa mais nova versão é ver o protagonista ter que aceitar a sua condição meio homem e meio maquina.

Alex Murphy (Joel Kinnaman) é quase morto num atentado arquitetado por bandidos. Felizmente (ou não) consegue a oportunidade de continuar ainda vivo, graças ao projeto da empresa OmniCorp comandada por Raymond Sellars (Michael Keaton), que tem a ambição de colocar um ser humano num robô policial. É ai que entra em cena o cientista Norton (Gary Oldman), que é incumbido de transformar Alex numa máquina de combate contra o crime.
  
Diferente do original, Alex não descobre aos poucos que um dia foi um ser humano, sendo que, imediatamente, ele acorda após a operação (numa seqüência de sonhos com direito a música de Frank Sinatra) e começa a encarar a dura realidade do que aconteceu com ele. Sem sombra de dúvida essa é uma das partes mais corajosas do filme, onde a armadura é tirada gradualmente e revela o que somente sobrou de Alex embaixo da carcaça de metal. É nesse ponto que Joel Kinnaman surpreende ao interpretar Alex Murphy, pois ele passa para nós toda a dor que está sentindo e desejando não estar naquela situação.
Com isso, o filme se envereda mais no drama do personagem em ter que aceitar a sua condição de ciborgue, sendo que ter uma vida normal com sua esposa (Abbie Cornish) e filho será praticamente impossível.

Em meio a isso, o protagonista passa por inúmeros testes para ver se é correto um homem meio robô patrulhar as ruas. Ao mesmo tempo, começa gradualmente o filme a revelar as suas reais intenções, tanto Raymond Sellars como também da própria policia em que um dia Alex trabalhou. É ai que se encontra o motivo pelo qual Padilha quis trabalhar nesse projeto, pois o filme faz com que o cineasta volte a trabalhar num assunto bem espinhoso visto em Tropa de Elite 2: a policia corrupta que, por vezes, trabalha até mesmo para aqueles que ela mesmo caça. Isso faz com que a trama não caia numa vala comum e faz com que a gente questione aqueles que deixemos nossas vidas por um desejo de segurança.
Não há como negar que vemos a forma de Padilha filmar em boa parte do filme, sendo que a sequência inicial onde vemos inúmeros drones tentando fazer uma pacificação em Teerã, faz com que, por um momento, sentirmos a sensação que voltamos ao lado de Capitão Nascimento subindo o morro. Isso, claro, se deve ao fenomenal trabalho de Lula Carvalho, cuja sua câmera sempre está em movimento, criando então a sensação de um documentário, filmado ao vivo, mas que não é muito de se admirar, já que o estrelado de Padilha e seus técnicos vieram do seu primeiro grande sucesso de critica que foi o documentário Ônibus 174.
Infelizmente nem tudo são flores nessa produção, já que se ouviu que Padilha se incomodou muito com os produtores que não queriam que ele tivesse 100% de liberdade para criar o filme. Se tiver um olhar mais atento, irá reparar que do inicio até o final do segundo ato do filme é Padilha puro. Contudo, do terceiro ato em diante, tem-se a sensação de que os produtores meteram as mãos nas rédeas e queriam que a trama tomasse um novo rumo.

Obviamente que isso aconteceu, já que até mesmo a trama dá um espaço para uma possível sequência, caso o filme seja o sucesso que o estúdio tanto deseja. Vendo esse terceiro ato como ficou, imagino então como seria se não tivesse um diretor autoral como Padilha, que deu um pouco de alma para o projeto. Com certeza o resultado final seria muito pior. 

No final das contas o filme é bem divertido, com boas doses de reflexão, mas que, com certeza, irá se tornar um bom exemplo de filme que seria melhor, se não fosse ambição de produtores falando mais alto.


25 de fevereiro de 2014

PHILOMENA (2013)

Longas metragens, baseados em casos verídicos, na maioria das vezes, vem sempre carregados por uma grande bagagem, onde a história por vezes se torna tão fascinante quanto à própria ficção de qualquer outro filme. Esse é o caso de Philomena, mais novo trabalho do diretor Stephen Frears (de A Rainha), que, embora seja um caso real, acaba não caindo no lado do puro drama, mas sim, numa interessante história sobre buscas e descobertas. 

Em 1950, na Irlanda, uma jovem engravida de uma forma imprudente e acaba sendo enviada, pelo pai, para um convento. Normalmente, as freiras é que cuidavam das crianças, em troca do trabalho forçado das mães, no que elas acreditavam ser o castigo apropriado vindo de Deus, mas não foi bem o que aconteceu. Décadas se passam e a trama se desenrola num período onde a criança teria já 50 anos e Philomena (Judi Dench) embarca em sua cruzada particular para encontrá-lo. 

Em sua busca, ela conta com ajuda de um jornalista conhecido (Steve Coogan), que vê nessa jornada uma chance para escrever uma boa matéria para sua editora. Como sempre, nestes típicos filmes de viagem, a revelação sobre onde o rapaz está é o que menos importa, sendo que a transformação e as descobertas que ambos os protagonistas fazem durante o filme é o que torna fascinante a história. Assim como em produções recentes como A Religiosa, o filme não se intimida ao criticar a igreja católica, embora com cautela, torna-se eficaz. 

Coogan também emprestou os seus dotes de roteirista para Jef Pope, sendo um profissional nato de produções diretamente para a TV; o resultado final é um filme correto com começo, meio e fim. Inspirado no livro do jornalista Martin Sixsmith (The Lost Child of Philomena Lee), o filme não esconde o fato que a própria Igreja de uma forma cruel, participou de um esquema de exportação de milhares de crianças para os Estados Unidos. Isso faz com que ficamos com mais raiva da situação, principalmente ao vermos a protagonista ainda seguir as doutrinas da Igreja e não guardar nenhuma raiva com relação às freiras. 
Isso gera um contraste com relação ao seu parceiro de viagem, um ateu convicto que deseja a todo custo limar a imagem da Igreja a partir dessa história. Tem-se, então, uma pessoa com todos os motivos para odiar a Igreja, mas que não a carrega para não envenenar a alma e se cria uma lição de moral para o seu parceiro, mesmo quando ele mantendo-se firme em relação às suas opiniões sobre Deus e religiões. Com isso, cria-se um humor certeiro em alguns momentos, mas sem esquecer os pontos dramáticos e fazendo nos lembrar de onde surgiu essa trama. 

Visualmente, a produção possui belas imagens e seqüência inesquecíveis, como uma em que a mãe vê o seu filho na TV e se tem, então, um contato emocional entre ambos, mesmo com o fato de que isso possa parecer impossível. No final das contas, é graça à dupla de protagonistas, que o filme possui alma, embalada com uma bela trilha sonora e que acabou fazendo o filme ganhar de uma forma merecida uma vaga entre os melhores no Oscar 2014.


24 de fevereiro de 2014

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (12 Years of Slave, 2013)

Steve McQueen, até o momento, dirigiu pouco, mas já falou muito. Desde o filme Fome, de 2008, ele vem ganhando destaque por aqueles que procuram no cinema americano algo, no mínimo, diferente do convencional. Tanto Fome como Shame (2011) são dois dos belos exemplos de cinema, cuja a emoção nasce facilmente no espectador. Uma das características mais lembradas de McQueen é de sua parceria com o ator Michael Fassbender que, desde Fome, vem provando que ambos geram frutos genuínos no mundo da sétima arte, como 12 Anos de Escravidão que, para mim, é o melhor trabalho da dupla até então. 

12 Anos de Escravidão é um filme que, embora tenha chegado tardiamente, nos lembra do horror que foi os tempos da escravatura. Por ser baseado em uma história real, isso somente aumenta o aperto na garganta quando nos damos de cara com a insanidade do lado mais obscuro do ser humano, daqueles tempos em que se tratavam os negros como propriedade ou simplesmente animais para serem domesticados. O longa é baseado no livro - que dá título ao filme - escrito pelo próprio Solomon Northup, personagem principal da obra, vivido pela atuação espetacular de Chiwetel Ejiofor. Do inicio ao fim, ficamos perguntando por quê o ser humano age de formas tão animalescas, ao ponto de não ter como achar uma resposta razoável que satisfaça esses pensamentos. 

12 Anos de Escravidão é uma historia simples, mas que, infelizmente, disseca um período sombrio antes de tempos até mesmo difíceis como da iminente Guerra Civil americana. Assistimos à história de Solomon Northup, homem negro livre, casado e pai de um casal de crianças que, certo dia, é enganado por dois brancos com a promessa de tocar violino em um circo na Capital e acaba sendo vendido como escravo. Enviado para trabalhar nas fazendas do sul, Solomon enfrenta a realidade crua de milhares de escravos negros, sofrendo todos os abusos físicos e psíquicos oriundos da sociedade escravocrata dominada pelos brancos que se diziam serem seus mestres.
A obra é recheada por momentos marcantes e que nos fazem ter uma boa dose de reflexão tanto sobre a história dos EUA como também do Brasil, que teve seu regime escravocrata. É impossível não se encolher e ficar petrificado perante a primeira surra que Solomon recebe em cativeiro, logo após ter sido enganado. Embora cruéis e duras de se ver, percebo que as cenas de violência estão ali para tornar o filme melhor do que ele já é, sendo que elas não são jogadas na tela gratuitamente, mas sim para que a história flua de uma forma que não tem como imaginar sem elas.

McQueen, entretanto, optou por mostrar o terror nos rostos daqueles que eram castigados, ao invés de jorrar sangue na tela, sendo que foi uma decisão mais do que acertada. Cria-se então uma ligação entre espectador e os escravos, desejando que eles não estivessem em nenhum momento naquela situação terrível. O chicoteamento que ocorre no ato final da trama realizado pelo Mestre Edwin Epps (Fassbender) contra a escrava (Lupita Nyongo, espetacular) é uma das cenas mais marcantes e dolorosas do filme e que se torna cada vez pior, no momento que Solomon é obrigado, por seu senhor, a chicotear sua companheira.
Um fato curioso são as diferenças entre a sociedade negra estadunidense: os homens e mulheres negros nascidos livres chamam os escravos de "negros", em tom pejorativo, e não parecem se importar em, eles mesmos, terem escravos. Acho que Steve McQueen foi feliz na escolha de apontar esses preconceitos durante o filme: a obra mostra, com imparcialidade, os dois lados da sociedade escravocrata, mas que, obviamente, condena o tratamento dos homens brancos dados aos homens negros. Além de toda a tristeza que permeia o filme, o espectador se torna em revolta ao final da projeção, quando os letreiros finais contam o que ocorreu a Solomon e o julgamento de seus sequestradores.

O que mais me espanta é que fica a pergunta em nossas mentes após o filme: "Será que isso realmente mudou?" Sabemos que os EUA são uma sociedade extremamente racista e sabemos que o Brasil também é, sendo que são duas nações que têm sangue de escravos em suas mãos e que parecem não querer lavá-las tão cedo. Por isso, 12 Anos de Escravidão é um filme obrigatório e que merece ser visto.

Confira o trailer do filme:


20 de fevereiro de 2014

SEM ESCALAS (Non-stop,2014) - TRAILER LEGENDADO

Durante um voo de Nova York a Londres, o agente Bill Marks (Liam Neeson) recebe mensagens SMS dizendo que um passageiro será morto a cada 20 minutos caso a companhia aérea não tranfira US$ 150 milhões para uma conta bancária. Inicialmente Bill não dá atenção à ameaça, mas quando o primeiro passageiro aparece morto ele inicia uma investigação em pleno avião sobre quem possa ser o assassino.

Este thriller com muita ação é o novo sucesso que a Paris Filmes traz ao Brasil. O filme, que conta ainda com Julianne Moore no elenco, estreia dia 28 de fevereiro. Confira abaixo o trailer do filme!



17 de fevereiro de 2014

ELA (Her, 2013)

Quando caminho pela rua, percebo as pessoas conversando com seus celulares sem ao menos tocar neles e, com isso, tenho a estranha sensação de estarem falando sozinhos. Quando vejo duas amigas se encontrarem, elas ficam colocando a conversa em dia, mas não deixam de clicarem em seus smartfones para falar com seus amigos, sendo que, alguns deles, nem os conhece pessoalmente. Por vezes, eu vejo um relacionamento nascer através das redes sociais, onde o casal se relaciona muito bem dessa maneira por anos, mas quando se encontram pessoalmente se perde o brilho.

Tudo isso eu enxergo atualmente, onde os meios de comunicação estão cada vez mais fáceis graças ao avanço da tecnologia, mas ao mesmo tempo, me parece que as pessoas estão cada vez mais preguiçosas em querer se relacionar da forma como era antigamente. Ou então, me parece que está cada vez mais difícil compreender a pessoa que ama e a tecnologia, para se conversar à distância, se torna ainda mais sedutora e sem dar dores de cabeça. Mas daí eu paro e penso assim: o que aconteceria se a própria tecnologia criasse uma forma de a pessoa voltar a se sentir como um ser humano (de antigamente) com relação aos sentimentos vindos do coração? 

É mais ou menos isso que acontece com Theodore (Joaquin Phoenix, ótimo), cuja sua profissão é passar sentimento nas cartas que as pessoas escrevem para outras pelo computador. Contudo, ele não consegue, com ele próprio, se relacionar direito com o próximo, principalmente após ter se separado de sua esposa (Rooney Mara). Certo dia, ele compra um programa para seu PC e móvel, capaz de, não somente administrar o seu serviço, como também se relacionar com ele.

Isso somente acontece graças ao fato do programa ter um sentimento praticamente idêntico de um ser humano. O programa se chama Samantha (voz de Scarlett Johansson), que no momento que é ativada, imediatamente surge uma química entre ela e o protagonista, se tornando amigos e até mesmo namorados. A partir daí, se inicia um relacionamento como outro qualquer, de altos e baixos e, por incrível que pareça, nos convencendo que esse amor imprevisível é real. 

Essa relação nos convence, porque a gente se enxerga nele, pois uma vez ou outra na vida, nós já nos relacionamos com alguém assim, pelo menos em redes sociais. A diferença está no fato de eles jamais poderem se tocar algum dia. Mas se pensarmos bem, acontece também com muitos casais que se relacionam à disância, tornando-se quase impossível o contato algum dia. 
Embora nos identifiquemos com a situação, a química e autenticidade do casal funcionam perfeitamente. Joaquin Phoenix nos brinda novamente com um grande desempenho, onde ele passa as suas sensações de conflito, amor, tristeza e até mesmo ciúmes quando Samantha, por exemplo, começa a conversar com outro programa. Scarlett Johansson, por sua vez, ouso dizer que aqui ela nos apresenta o seu melhor desempenho, mesmo com o fato de somente ouvirmos a sua voz. Sempre considerei o fato de sua beleza ofuscar por demais os seus desempenhos nas telas e, aqui, dá a entender que ela se sente completamente à vontade para expor tudo o que Samanha vai aprendendo a sentir no decorrer da relação com Theodore. 

Além do casal nos conquistar, Spike Jonze acerta em cheio ao criar um futuro não muito distante, mas facilmente identificável, pois a tecnologia vista na trama não é muito diferente do que nós temos atualmente. Não há carros voadores, tampouco um visual apocalíptico, mas sim um mundo reconfortante, mesmo com o fato de retratar uma sociedade que tem cada vez mais dificuldade de se relacionar. Não me surpreenderia, então, se daqui algum tempo ELA venha a ser reconhecido como um dos filmes que melhor sintetizou o que será de nossa sociedade contemporânea.

Com todos esses louros, o filme ainda nos faz sentir um verdadeiro soco no estômago no ato final da trama, pois se compramos a ideia de que aquele relacionamento é genuíno, acabamos sentindo os altos e baixos que um casório acaba enfrentando. Os minutos finais provocam conflitos internos, o desejo de que eles fiquem para sempre juntos e nem mesmo o cinéfilo com o mais duro coração deixará de escorrer uma lágrima em seu rosto. Com essa montanha russa de sentimentos e identificação pela trama, não me admira que o roteiro tenha se tornado franco favorito para o Oscar.

Com a participação ainda da sempre competente Amy Adams (O Vencedor, 2010) ELA é um filme delicado, que expressa o que somos atualmente e que nos mostra quais os meios de voltarmos a nos relacionar como antigamente, sem medo e com desejo de vivermos uma boa relação amorosa e em sua plenitude.


11 de fevereiro de 2014

É O FIM (This Is the End, 2013)

O cinema sempre está sendo invadido por filmes apocalípticos, uns cheios de aventura e efeitos visuais (2012), outros levados mais para o drama (Melancolia). No caso de É o Fim, além de ser uma comédia em meio ao juízo final, é uma inusitada história, que mostra como certas celebridades reagiriam no dia do julgamento. O que vemos não são atores interpretando personagens, mas sim eles mesmos, uma situação pouco convencional no cinema.

Não quer dizer que a personalidades deles mostrada no filme seja exatamente o que é na vida real. Eu acredito que seja uma representação caricata do que as pessoas acham  que eles sejam longe das telas. Sendo assim, vemos os nossos conhecidos atores e comediantes James Franco, Jonah Hill, Seth Rogen, Jay Baruchel, Danny McBride e Craig Robinson agindo não muito diferente dos personagens que eles interpretaram nos filmes (como Ligeiramente Grávidos e Segurando as Pontas). Ou seja, podem esperar muito palavrão, piadas com conotação sexual e várias referências divertidas com relação a outros filmes conhecidos como Harry Potter, 127 horas, Forrest Gump, O Exorcista e O Homem que mudou o Jogo

O lance mais divertido do filme é que, quando começa o apocalipse, muitas pessoas são levadas para o céu, mas as inúmeras pessoas que estão na festa de James Franco acabam não indo. Muitas celebridades morrem (Michael Cera é uma delas) e o restante fica isolado na mansão tentando sobreviver. Durante esse tempo, Jay Baruchel começa acreditar que eles estão ainda na Terra por serem pecadores e precisam aprender de que maneira podem provar que merecem o Céu. Claro que não faltam motivos para provarem para si que cada um deles não merece a passagem para o paraíso de jeito nenhum, sendo que, no ato final, quando um deles consegue a chance, perde unicamente por ser egoísta e mal-educado em poucos segundos.

O filme, em si, não passa de uma brincadeira no bom sentido, passando a mensagem que vale a pena ser tolerante, compreensivo e companheiro com o próximo, pois basta agir assim que ganhará a sua passagem na hora do juízo final. Claro que não se pode levar a sério em nenhum momento ao assistir o filme, principalmente aqueles que forem mais conservadores, pois o filme não poupa nem piadas com relação a Deus e a Jesus Cristo. Sendo assim, seguidores de certo pastor chamado Feliciano, passem longe. 

Com participações divertidas (como de Emma Watson), É O FIM é a típica comédia para se divertir numa boa, mesmo quando seu cérebro grita para você dizendo que está desperdiçando o seu tempo de vida com isso.


9 de fevereiro de 2014

TRAPAÇA (American Hustle, 2013)

Em linhas gerais, Trapaça é um bom filme, com uma trilha sonora refinada com clássicos dos anos 70 e boas atuações, mas não é um filme que empolga.

O longa é dirigido por David O. Russel, um diretor de pouco renome na grande mídia ainda, mas que já assinou como diretor algumas excelentes obras: Três Reis; O Vencedor; O Lado Bom da Vida. É um diretor que sabe dar liberdade a seus atores e deixar o roteiro bem amarrado, vide o sucesso que lhe rendeu seus últimos filmes, premiando Christian Bale e Jennifer Lawrence com o Oscar. Ele mesmo já foi indicado quatro vezes ao Oscar e é uma das promessas esse ano. Particularmente, acredito que Scorsese tenha feito um trabalho mais completo e complexo com O Lobo de Wall Street e, por isso, talvez deva levar a estatueta.

O filme conta a história de Irving Rosenfeld (Christian Bale), um grande trapaceiro, que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Os dois são forçados a colaborar com o agente Richie DiMaso, do FBI (Bradley Cooper), para pegar alguns trapaceiros e lhes ensinar sobre como funciona o mundo da trapaça. À medida que vão realizando pequenas investigações, o FBI descobre que pode prender mais pessoas, acabando com alguns mafiosos e boa parte da corrupção na política através do prefeito de New Jersey, Carmine Polito (Jeremy Renner). Enquanto toda a trama se desenrola, o casal de trapaceiros procura criar um plano para se livrar de todos: a máfia, os políticos, o FBI e, inclusive, a esposa atrapalhada e instável de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), que se torna o pivô de uma reviravolta em seus planos.
O interessante de tudo sobre como a história se desenrola é que o roteiro é baseado em fatos reais. O problema do filme é que O. Russel não conseguiu criar uma atmosfera de suspense e excitação como se espera num filme desses.  Acredito, no entanto, que deva agradar a diversos públicos, porque é leve... apesar de apresentar a tradicional brincadeira de polícia e ladrão, não há violência abusiva, nem cenas de sexo. O que o diretor consegue efetivamente transmitir é uma atmosfera muito sensual através dos figurinos e maquiagem de Amy Adams e Jennifer Lawrence. Curioso é ele estabelecer o contraponto com os galãs; temos um Christian Bale barrigudo e calvo, e um Bradley Cooper que mora com a mamãe e faz permanente nos cabelos... porém ambos não perdem seu charme. 
Os quatro principais atores estão concorrendo ao Oscar, mas, sinceramente, não senti que nenhum tenha se destacado em seus papéis de forma significativa. Christian Bale concorre como melhor ator, mas sua atuação está longe de ser a sua melhor. Além disso, até pouco mais da metade do filme, Bradley Cooper - que concorre como ator coadjuvante - aparece muito mais que ele. Cooper está muito bem e se entrega ao personagem, mas não acredito que será desta vez que a Academia irá lhe conceder essa honra - Achei sua atuação um pouco caricata. O mesmo acontece com Amy Adams (Melhor Atriz) e Jennifer Lawrence (Melhor Atriz Coadjuvante): ambas estão bem, mas não fazem mais do que o esperado por duas grandes estrelas da nova geração.

Apesar das críticas, o filme tem seus méritos. A obra, como um todo, deve conquistar mais fãs ao longo dos anos. Acredito que será reconhecido como um clássico pela atmosfera cult imposta no filme através da direção de arte, figurinos e trilha sonora que retratam minimamente os final dos anos 70. Mas, sobretudo, deverá cativar pelo bom humor dos personagens.


7 de fevereiro de 2014

GANHE UM PAR DE INGRESSOS PARA O FILME O PHILOMENA!

O Cinema Sem Frescura, em parceria com a Paris Filmes, irá sortear 3 pares de ingressos para o filme Philomena, que estreia no dia 14 de fevereiro. Serão 3 sorteios, portanto 3 ganhadores.

PARTICIPE ACESSANDO O LINK DA CAMPANHA NO FACEBOOK
sorteiefb.com.br/tab/promocao/306744

“Philomena” é um grande filme, e está concorrendo a 4 Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz.

Sinopse: Irlanda, 1952. Philomena Lee (Judi Dench) é uma jovem que tem um filho recém-nascido quando é mandada para um convento. Sem poder levar a criança, ela o dá para adoção. A criança é adotada por um casal americano e some no mundo. Após sair do convento, Philomena começa uma busca pelo seu filho, junto com a ajuda de Martin Sixsmith (Steve Coogan), um jornalista de temperamento forte. Ao viajar para os Estados Unidos, eles descobrem informações incríveis sobre a vida do filho de Philomena e criam um intenso laço de afetividade entre os dois.

Serão 3 sorteios. Cada sorteio contemplará um ganhador de um par de ingressos. Para concorrer e merecer o prêmio, os participantes deverão seguir os seguintes critérios:

1) CURTIR a página do Cinema Sem Frescura no Facebook.
2) Compartilhar PUBLICAMENTE o link do sorteio no seu mural do Facebook.
3) Se inscreva na promoção.
4) Perfil fake, criados exclusivamente para sorteios não serão contemplados;
5) Cada vencedor receberá 2 ingressos para o filme Philomena.
6) Quem não cumprir os requisitos listados, não será contemplado.
7) Não será aceita nenhuma reinvindicação ou questionamento quanto ao sorteio.
8) Os sorteios serão realizados de forma aleatória e automática pelo aplicativo Sorteie.me
9) Os sorteios serão realizados no dia 14 de fevereiro de 2014, sem horário previsto.

Ninfomaníaca - Volume 1 (Nymphomaniac, 2013)

A propaganda criada em torno do mais novo filme de Lars Von Trier é digno de nota. Meses atrás, o cineasta era um diretor cultuado pelos cinéfilos, mesmo quando ele lançava polêmicas que arranharam a sua imagem de gênio.

Considerado persona non grata em Cannes depois de declarações bombásticas durante o lançamento do filme Melancolia (2011), Von Trier retorna com esse projeto digno novamente de nota, que vinha sendo divulgado de uma forma maciça de propagandas, tanto pela internet, como TV e revistas de cinema. Mas, para a surpresa de todo mundo, o resultado final foi uma produção de mais de cinco horas de projeção, o que forçou a tomar decisão de lançar o filme em duas partes, sendo que a segunda será lançada no próximo mês de março de 2014. 

Nessas primeiras duas horas de trama, conhecemos Joe (Charlotte Gainsbourg), uma enigmática mulher que é encontrada desmaiada em um beco sujo. É levada para a casa do Seligman (Stellan Skarsgård) para que possa se recuperar. Ela, então, começa a contar a sua história e o que a levou a se tornar uma ninfomaníaca, desde que era criança até os seus vinte e poucos anos (interpretada pela jovem e ótima atriz Stacy Martin).

Através de cinco capítulos, acompanhamos a perda da virgindade, a primeira paixão (?), a descoberta da libido, a relação estranha com o pai (Christian Slater) e o número estrondoso de parceiros sexuais crescendo cada vez mais. Quanto às tão polemicas cenas de sexo, é importante salientar que foi lançado uma versão por aqui com cortes (a estendida será exibida no Festival de Veneza), mas creio que a alteração esteja apenas no tempo de duração desses momentos, que já são suficientemente meio chocantes, muito embora não seja nada fora do comum que já nos acostumamos há ver em muitos outros exemplos e sinceramente passa longe do que é visto num filme pornô. 
Ninfomaníaca, pelo menos nessa primeira parte, conquistou a minha simpatia por saber prender a atenção do começo ao fim (?) e tentar saber do porquê de ela ter se tornado assim. Além disso, a fusão das cenas com conhecimentos culturais que vai da musica clássica para a melhor forma de pescar peixe (ou homem) tornam a sessão ainda mais imperdível. Das cenas do filme, destaco a participação de Uma Thurman como uma desequilibrada esposa de um dos amantes da protagonista. Embora em pouco tempo de cena, Thurman da um verdadeiro show de interpretação, que é algo que não se via dela desde Kill Bill.

Infelizmente, quando a gente está totalmente envolvido com o filme, ele acaba. No entatanto, deixa claro através de cenas nos créditos que o melhor está por vir. Que março chegue logo.


5 de fevereiro de 2014

Divulgação: INSÔNIA (2013). Comédia romântica com Luana Piovani e Lara Rodrigues entra em cartaz no dia 14 de fevereiro

Dirigido por Beto Souza, o filme é uma coprodução entre Brasil e Argentina, com locações em Porto Alegre, em um resort no Vale do Paranhana e Buenos Aires 
INSÔNIA, longa baseado no livro homônimo de Marcelo Carneiro da Cunha e publicado pela Editora Projeto, gira em torno das angústias e conflitos adolescentes de Cláudia (Lara Rodrigues), uma menina de 15 anos, órfã de mãe e que mora com o pai. Ela fica intimidada quando Andreia (Luana Piovani), uma nova amiga de 28 anos, começa a namorar seu pai, que é cerca de 15 anos mais velho. 

Com uma estética moderna, recheada de animações, INSÔNIA é um filme com um registro dramático incomum no Brasil. Intercalado com doses de um humor, às vezes de tom farsesco, apresenta o cotidiano familiar com as peculiaridades de uma família não-tradicional: um pai solteiro e uma filha amadurecida por ter perdido a mãe aos cinco anos de idade. "É um filme sobre a nova família, não-biológica, que começa se tornar predominante. Famílias que não nascem prontas, mas se constroem, e onde cada um precisa buscar o seu papel", nas palavras do escritor Marcelo Carneiro da Cunha.

Produzido pela Panda Filmes, com supervisão de roteiro de Marcelo Carneiro da Cunha, INSÔNIA é narrado pelo olhar da adolescente Cláudia, mas isso não faz dele o filme necessariamente adolescente. A garota por vezes torna-se perplexa com tantas novidades: uma nova amiga, uma mulher para o pai viúvo e um menino para, finalmente, namorar? E agora?

Sobre o diretor Beto Souza
Nascido em Porto Alegre, Beto Souza é Bacharel em Jornalismo Gráfico e Audiovisual pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também cursou dois anos de Arquitetura. Paralelamente ao trabalho realizado para TV, como a direção de Rota 051 (MTV) e de alguns episódios das séries Legalidade 40 Anos, Histórias Extraordinárias e Continentes de São Pedro, para a RBS de POA, Beto Souza dirigiu, em conjunto com Tajara Ruas, o filme Netto Perde Sua Alma, lançado em 2001 e vencedor de 13 prêmios em Festivais nacionais e internacionais. Em seguida, produziu e dirigiu os longas Cerro do Jarau (2006); Dias e Noites (2007); Enquanto a Noite Não Chega (2010) e Insônia (2012), além dos documentários Inacreditável – A Batalha dos Aflitos (2006) e Grêmio 10 x 0 (2010).
Sobre a atriz Lara Rodrigues 
Começou a carreira em 1992, em comerciais para a televisão. Seu trabalho mais conhecido foi a personagem Narizinho, no Sítio do Pica-pau Amarelo, onde permaneceu por quatro anos. Após, Lara participou de Malhação e da série Clara e o Chuveiro do Tempo, voltando ao Sitio do Pica-pau Amarelo, para interpretar outra personagem.

Sobre a atriz Luana Piovani
Luana Piovani iniciou sua carreira de atriz na minissérie Sex Appeal, da Rede Globo, em 1993. Na emissora, atuou em várias novelas como Guerra dos Sexos, Suave Veneno e minisséries A Mulher Invisível, Na Forma da Lei, além de ter participado de programas como Fantástico, Sai de Baixo, Os Normais, A comédia da Vida Privada.

No teatro, produziu e atuou nos sucessos infantis Alice no País das Maravilhas, O Pequeno Príncipe e Pássaro da Noite, entre outras peças.

O Homem Que Copiava (2003), O Casamento de Romeu e Julieta (2005), Zuzu Angel (2006), A Mulher Invisível (2009), Família Vende Tudo (2011) e As Aventuras de Agamenon, O Repórter são alguns dos longas que contam com atuação de Luana Piovani. 

Sobre o escritor Marcelo Carneiro da Cunha
O escritor Marcelo Carneiro da Cunha é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e já publicou 18 livros, tendo recebido prêmios da Associação Paulista de Críticos de Artes e da União dos Escritores do Brasil. Antes Que o Mundo Acabe (2000); Duda 2, a missão (1994) e Insônia (1996), receberam o selo “altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. No cinema, escreveu o roteiro do curta-metragem Batalha Naval e o argumento de O Branco, curta premiado em Berlim, Rio, Montevideo, Buenos Aires e Biarritz. Já o longa Antes Que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, adaptado do livro homônimo, venceu o Festival de Paulínia e a Mostra Internacional de Cinema em S.Paulo, em 2009.

Entre outros livros de sua autoria, destacam-se: Primeira vez e muitas vacas (2012); Nem pensar (2010); Depois do Sexo (2008); Na Praia da Ferrugem (1989); Noites do Bonfim (1987).

Sobre o músico Leo Henkin
O compositor, produtor musical, arranjador, instrumentista e diretor musical Leo Henkin fundou a banda Papas da Língua em 1995. O grupo ganhou o disco de ouro com o CD/DVD Papas da Língua Acústico/ Ao vivo. Leo Henkin fez a trilha sonora e a direção musical de mais de trinta filmes entre curtas, médias e longas-metragens como Houve Uma Vez Dois Verões (2002), O Homem Que Copiava (2003), Os três Zuretas (2000). Fez ainda a trilha sonora e a direção musical de episódios para das séries Brava Gente e Doris Para Maiores.

Sobre a produtora e distribuidora Panda Filmes
Fundada em 2002, em Porto Alegre, a Panda Filmes tem deixado a sua marca no cenário audiovisual brasileiro e latino-americano. Com um repertório de inúmeros projetos em cinema e televisão, sua marca são as parcerias e coproduções nacionais e estrangeiras. Atua na produção e distribuição de obras cinematográficas em todo território brasileiro. Além de seus próprios filmes, a Panda também distribui filmes de outras produtoras brasileiras e estrangeiras em diferentes formatos e gêneros, sobretudo produções de baixo e médio orçamento. Desenvolve estratégias de divulgação e vendas sempre de forma exclusiva e dedicada para as diversas plataformas de exibição (cinema, TV, home video e Internet).

Brasil/Argentina, 2012, 91 min, comédia romântica, CENSURA 12 anos
Direção: Beto Souza
Elenco: Luana Piovani, Lara Rodrigues e Daniel Kusnieka 
Roteiro: Criação coletiva, com supervisão de Marcelo Carneiro da Cunha
Trilha Sonora: Leo Henkin
Produção: Panda Filmes
Coprodução: Arte Lux Produções Cinematográficas / Okna Produções / Americine

Sinopse: Cláudia tem 15 anos e vive com seu pai, Rafael. Virou órfã de mãe quando tinha cinco anos de idade. Foi aí que pai e filha vieram embora da sua Argentina natal. No Brasil, Cláudia tenta viver uma vida normal enquanto aprende como fazer para cuidar de um pai e de uma casa, e também como lidar com o mundo. Do jeito que ela e o pai se organizaram para lidar com as perdas do passado, ele não casa, ela não namora.

A vida deles é abalada quando Cláudia fica amiga de Andreia, uma jovem autossuficiente que se apaixona por Rafael, sem saber que ele é o pai de Claudia.

Distribuição: Espaço Filmes

Assessoria de Imprensa Panda Filmes
Calvin Furtado e Paola Rodrigues


CURTAM ABAIXO O TRAILER DO FILME


4 de fevereiro de 2014

Trabalhar Cansa (2011)

"Há algo de podre no reino da Dinamarca!"

Essa frase me veio à cabeça quando assisti pela primeira vez Trabalhar Cansa, obra dos cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra. Vindo dos curtas experimentais, a dupla se arrisca ao criar um suspense, que oscila entre o drama e o sobrenatural, sendo que, nesse último caso, a situação é muito mais sugerida do que explicita, o que torna a obra ainda mais interessante. 

Na verdade, o filme vai mais para um terror psicológico, já que o casal central,  Helena e Otávio (Helena Albergaria e Marat Descartes), se colocam em teste de força física e mental: ela decide abrir um mercadinho e administrá-lo, mas ele perde o emprego de gerente e começa a sua via crucis para conseguir um novo emprego. Não tem como não se identificar com eles, principalmente com Otávio, que passa por entrevistas de emprego que, para nós que já atravessamos isso numa parte da vida, é duramente real, para não dizer patético e depressivo.

No final, as situações de ambos afetam um ao outro, pois Helena começa a ficar obcecada em se tornar bem sucedida no seu mercadinho, nem que para isso tenha que ser dura perante seus empregados, que temem pelo desemprego e venham a passar por um novo martírio em busca de algo novo. Mas algo afeta Helena. Há algo de estranho no ar; desde um cachorro que ameaça sempre mordê-la, como também um cheiro de esgoto que, por sua vez, começa a transbordar no piso. A situação piora quando uma parede começa a mostrar sinais de vazamento interno (ou de algo escondido atrás dela).

Todas essas situações são filmadas de uma forma que pareça que há algo de sobrenatural, tanto no mercadinho, como também na própria residência do casal. Entretanto, tudo é apresentado de uma forma ambígua, nos fazendo levantar inúmeras interpretações sobre o que realmente está acontecendo. Se fossemos simplificar, o filme seria uma espécie de crítica ao capitalismo, que torna o mundo lá fora uma verdadeira terra selvagem, onde somente o mais forte e persistente sobrevive.
Sendo assim, os pontos de suspense, que sugerem algo de sobrenatural, seriam apenas algo para acrescentar, para tornar muito mais opressora a atmosfera da vida daquelas pessoas, a partir do momento que surgem os problemas. Ou, então, há realmente algo por de trás da cortina, mas, devido aos problemas do dia a dia que eles passam, esse mistério acaba sendo deixado de lado por eles, mesmo quando eles o encaram no ato final da trama, que por sinal é genial. 

Com minutos finais que sintetizam a verdadeira selva da disputa para uma vida bem sucedida profissionalmente, Trabalhar Cansa surpreende por nos colocar a par dos nossos medos internos. Não dá possibilidade de haver um bicho-papão embaixo da nossa cama, mas por estarmos sujeitos a um dia nos submetermos a passar por uma realidade dura que, por vezes, mastiga e nos cospe fora.


3 de fevereiro de 2014

eXistenZ (1999)


Confirmado para participar do curso sobre David Cronenberg pelo 'Cena Um', percebi que eu conhecia muito pouco sobre a obra deste importante diretor canadense. Buscando por algumas produções com seu nome, descobri três clássicos no Netflix (#FicaDica): A Hora da Zona Morta (Dead Zone, 1983), eXistenZ (1999) e Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007).

Os principais filmes do diretor se assentam, comummente, sobre uma temática que mistura ficção científica, beirando o surrealismo, com horror. Seu gênero favorito é trabalhar o medo das pessoas sobre coisas infecciosas e nojentas da natureza e do próprio corpo humano, como é facilmente percebido em um de seus maiores clássicos, A Mosca (The Fly, 1986). É nesse escopo que é montado também o longa eXistenZ.

O filme conta, em linhas gerais, a história de uma designer de jogos, Allegra Geller (Jennifer Jason Leigh), que sofre tentativas de assassinato por pessoas que, supostamente, são contra o forte crescimento de jogos de realidade virtual, o que estaria deteriorando a forma como as pessoas veem a realidade. Para saber se seu último e melhor jogo está intacto após um ataque, ela precisa da ajuda de seu salvador, o estagiário de marketing da sua empresa, Ted Pikul (Jude Law), para jogar.

O mais interessante do filme, para mim, é justamente a estética bizarra (nojenta) do filme. O console do jogo é algo orgânico, como se fosse um pedaço do corpo humano. O objeto se liga por uma fibra, que lembra um cordão umbilical, nas costas da pessoa, em um implante com uma cavidade que se assemelha muito a um ânus... o jogo, então, se passa dentro da mente do jogador, não necessitando uma tela. Complementa-se ainda que no início do filme, seu primeiro assassino usa uma pistola feita de ossos com pedaços de carne que é carregada com dentes humanos ao invés de balas. Além disso, o diretor cria um um clima de tensão sexual entre os protagonistas através do jogo e até mesmo com o console, como um objeto de prazer.
David Cronenberg leva o espectador a uma viagem, junto com os personagens, a entender o que é o mundo real, num jogo onde as possibilidades são infinitas; Um jogo que traz todas as percepções possíveis aos sentidos humanos, além da possibilidade de se jogar jogos. Cronenberg traz ainda uma discussão relevante sobre a realidade atual dos jogos, cada vez mais verossímeis, possibilitando cada vez mais liberdade ao usuário de não se ficar preso a uma história central, explorar um mundo construído com um mínimo de livre-arbítrio e até mesmo de jogar jogos dentro de jogos (vide a saga do game GTA).

Apesar de um bom elenco, que conta ainda com Ian Holm e Willem Dafoe, o filme não fez muito sucesso na época, tornando-se um cult, como acontece frequentemente com as obras de Cronenberg (A Mosca, Videodrome, Scanners, por exemplo). No mesmo ano ele teve um forte concorrente que abordava um tema semelhante, mas com uma estética mais deslumbrante e menos grotesca: The Matrix, com Keanu Reeves.
É um filme que tira o espectador da zona de conforto pela estética, semelhante a muitos filmes "B", mas também pela reflexão sobre o que é a realidade, a forma como lidamos com isso, sobretudo sobre nosso direito de escolha. Para os fãs de David Cronenberg, este é um de seus melhores filmes, consagrandando diversos elementos presentes em outros filmes.


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