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8 de janeiro de 2014

DOCE AMIANTO (2013)

O cinema convencional norte americano possui uma mesma velha formula de sucesso: começo, meio, fim, tudo mastigado para que o cinéfilo não pense muito e saia do cinema satisfeito. Contudo, houve aqueles que lançaram um cinema um pouco diferente, no qual a pessoa que assistiu se ficava se perguntando sobre o que viu. David Lynch (de Cidade Dos Sonhos) é alguém que foi contra a maré das regras do cinema norte americano e não me admira que tenha servido de inspiração para os cineastas como Guto Parente e Uirá dos Reis ao criarem Doce Amianto.

Na verdade, a sensação que eu tive quando assisti a esse filme é que o universo de Lynch deu de encontro com o de Pedro Almodóvar (de Fale Com Ela). Temos uma trama não linear, enlaçada com um universo no qual nos faz lembrar também o lado autoral do cineasta Espanhol, mas o protagonista não é alguém inspirado no que já vimos do mundo de Almodóvar. Embora seja interpretado por um homem (Deynne Augusto) Amianto não é travesti e tão pouco transexual, ao menos não oficialmente.

Por mais que a personagem possua traços que lembrem um homem, o filme sempre se refere a ela como uma mulher como outra qualquer. O mesmo vale para Blanche, uma espécie de fantasma conselheiro para Amianto e a única que lhe dá o consolo nos momentos difíceis. Quando as duas surgem em cena, a realidade convencional se quebra na frente do espectador, fazendo com que ele aceite ou não o que acontece na tela.

Essa quebra da realidade convencional da trama faz com que tudo possa acontecer, no qual podemos interpretar nas diversas formas, desde um sonho, delírio ou até mesmo uma simples metáfora. Esse último exemplo pode ser o mais aceito, principalmente no início do filme, quando a protagonista tenta se reconciliar com seu amado, mas bastou ele ignorá-la para que a protagonista caísse no chão e em meio segundo esteja toda coberta de sujeira, representando então a sua sensação de estar no fundo do poço. 

Esse convite para um lado mais experimental que o filme nos dá, não se importando com o que vamos achar, faz com que a gente pronuncie aquele velho refrão de “ame ou odeie”. Foi graças a essa forma de ir contra a maré de um lugar comum que o filme nos brinda com uma das melhores partes da trama, em que ele abandona a historia principal e nos joga numa nova e sem nenhuma ligação com a outra. Essa pequena trama apresentada, por mais absurda que seja, não deixa de ser a mais divertida, ao injetar um humor negro, contagiante e com personagens caricatos, mas que não foge muito do perfil de pessoas reais em determinadas situações apresentadas. 

No resultado geral é um filme que inquieta o espectador, mesmo na sua curta duração (70 minutos) e com uma linguagem original, na qual, com certeza, atrairá um cinéfilo mais exigente, mas que com certeza fará com que o público em geral fique se perguntando após a sessão o que realmente viu. Um filme experimental, fora do convencional, mas não menos genial.


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