Parceria

31 de janeiro de 2014

Escolhidos atores que interpretarão Alfred Pennyworth e Lex Luthor na sequência de Homem de Aço

Durante meses os fãs de todo o mundo têm especulado quem poderia ser escalado como o vilão Lex Luthor no filme Superman / Batman de Zack Snyder. Hoje, eles descobriram quem irá interpretar o papel igualmente importante de Alfred Pennyworth , o mordomo fiel de Bruce Wayne.
Jesse Eisenberg, a estrela de Truque de Mestre, Zombieland e A Rede Social vai encarnar Luthor. Sobre o caráter e a escolha de elenco, o diretor Zack Snyder disse: "Lex Luthor é, muitas vezes, considerado o mais notório dos rivais de Superman. Sua péssima reputação precede-o desde 1940. O que é interessante sobre Lex é que ele existe para além dos limites do malvado vilão estereotipado. Ele é um personagem complexo e sofisticado, cuja inteligência, riqueza e posição social o colocam como um dos poucos mortais capazes de desafiar o incrível poder do Super-Homem. Ter Jesse no papel nos permite explorar essa dinâmica interessante, e também levar o personagem em algumas direções novas e inesperadas . "
Enquanto isso, Jeremy Irons foi escalado como Alfred Pennyworth, dando continuidade ao legado recente de lançar vencedores do Oscar no papel. Sobre Alfred, Snyder disse: "Como todos sabem, Alfred é o amigo de Bruce Wayne mais confiável, seu aliado e mentor, um tutor e uma nobre figura paterna. Ele é um elemento absolutamente crítico na infraestrutura complexa que permite que Bruce Wayne se transformar em Batman. É uma honra ter um ator tão incrivelmente experiente e talentoso como Jeremy assumindo o importante papel do homem que orienta e guia a fachada guardada e quase impermeável que encapsula Bruce Wayne."

Fonte: DC Comics

Hannah Arendt - Ideias Que Chocaram o Mundo (2012)

Aliando-se mais uma vez a Barbara Sukowa, que havia atuado em filmes como "Rosa Luxemburgo" (86) e "Os Anos de Chumbo" (81), a cineasta Margarethe Von Trotta entrega-se ao desafio de retratar uma das pensadoras políticas mais importantes e influentes do século passado, autora do livro  "As Origens do Totalitarismo". Ignorando boa parte da história de sua vida, o filme foca somente num momento crucial da vida de Hannah. Em 1961, a filósofa alemã, já radicada nos EUA, viaja à Israel para acompanhar um dos julgamentos mais bombásticos de todos os tempos, do carrasco nazista Adolf Eichmann, capturado pelo serviço secreto israelense na Argentina.

Mais do que um filme baseado em fatos reais, os criadores buscaram também inspiração numa peça norte-americana, sendo que, em alguns momentos, a trama poderia facilmente se passar num único cenário. O roteiro se concentra no lado mais humano de sua protagonista, sem banalizar seu pensamento e tão pouco inventando algo novo com relação ao que aconteceu. Hannah é vista discutindo com os seus amigos intelectuais, em seu apartamento, em que, ao lado de temas polêmicos, nunca faltavam piadas, nem bebida ou cigarros.

O filme se concentra em dois pontos: primeiro, na atuação de Hannah, ao cobrir o julgamento de Eichmann para a revista "The New Yorker", que lhe permitiu criar uma das teses mais polêmicas de sua carreira, sobre a "banalidade do mal". O segundo, menos abordado no filme, lembra seu relacionamento com o mestre e ex-amante Martin Heidegger (Klaus Pohl), filósofo que, na realidade, havia filiado ela ao Partido Nazista em 1933 e nunca se retratou, ou tão pouco se defendeu de sua atitude após o fim da Segunda Guerra Mundial, para o desgosto de Hannah, que era judia alemã e fugiu do país natal após a ascensão de Hitler ao poder. Enxergando Eichmann apenas como um cumpridor cego de ordens, Hannah atraiu a fúria dos próprios amigos e dos círculos judaicos. Muitos nunca a perdoaram pela ousadia.

Para eles, ela estaria "defendendo" os carrascos, o que sempre negou. Nada disso abalou a filósofa, que publicou seus artigos em "The New Yorker", onde também sofreu pressões e, dois anos depois, um livro que teve grande repercussão, "Eichmann em Jerusalém". Segundo os registros, vendeu na época mais de 100 mil exemplares e, ao longo dos anos, serviu como ferramenta para que jovens alemães contestassem seus pais, por terem conhecimento dos desmandos nazistas e se omitirem, e também em revoltas contra a guerra do Vietnã e o uso da energia atômica.
O filme intensifica a coragem de Hannah que se defendeu de frente até o fim. Apoiada por amigos como a escritora Mary McCarthy (magnífica Janet McTeer, de Albert Nobbs), resistiu, mantendo sua independência de pensamento, ainda que a um alto custo. Os ataques sofridos, para ela, equivaleram a um "novo exílio", como salientou a diretora Margarethe Von Trotta em entrevista ao jornal "The New York Times".

Procurando não tomar partido da tese defendida por Hannah nos artigos e livro sobre Eichmann, o filme sem dúvida abraça a integridade pessoal e intelectual de sua fascinante protagonista. Com uma bela reconstituição de época e uma belíssima fotografia com tons pastel, o filme nos permite participar de uma envolvente discussão de idéias e que, certamente, pode despertar uma curiosidade sobre as obras da autora.


28 de janeiro de 2014

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County, 2013)

Os filhos são castigados pelos pecados dos pais? Essa era a pergunta que me soava na cabeça após a sessão de Álbum de Família, que é o tipo de filme que provoca inúmeras emoções e o espectador não tem como não se identificar com a situação de cada um dos personagens. Dizem que não se fazem mais famílias como antigamente, mas acredito que os problemas corriqueiros da família contemporânea não são muito diferentes dos problemas de outras de décadas atrás, que, por vezes, eram bem piores. Tudo depende da criação de cada pessoa que, por sua vez, irá criar a sua família, de acordo como ela foi criada.

Dirigido por John Wells (Não estou lá), o roteiro foi criado por Tracy Letts, responsável também pela criação da peça em que o filme se baseou, o que faz com em alguns momentos a gente consiga sentir o lado teatral da história. Mas, diferente de filmes recentes como o Deus da Carnificina, a trama se desloca fora do cenário principal, mas, a meu ver, a trama funcionaria muito bem num único local. O cenário pouco importa, mas sim os seus personagens estupendos, interpretados, cada um deles, por astros no ápice de suas interpretações.

Após o sumiço do marido Beverly (Sam Shepard), Violet (Maryl Streep) recorre às filhas (Roberts, Nicholson e Juliette Lewis), à irmã (Martindale) e ao cunhado (Chris Cooper). Viciada em remédios e com um câncer na boca, a matriarca passa anos-luz de ser uma pessoa amável com suas filhas, atacando verbalmente sem dó elas, principalmente Barbara, vivida por Roberts. A filha se mudou da cidade há vários anos e passou um bom tempo sem visitar os pais. Agora, ela volta para casa na companhia do ex-marido (McGregor) e da filha (Abigail Breslin).

Não é segredo para ninguém que, em meio a esse grande elenco, quem rouba a cena novamente é Meryl Streep: dona de uma presença magnética, a atriz surge em cena com a sua personagem, nos primeiros minutos de projeção e já da uma dica do que irá acontecer no decorrer do filme. Envelhecida, esfarrapada, enfraquecida, mas com uma língua afiada, capaz de destroçar o coração mais duro à sua frente. Sua atuação  transmite para o cinéfilo, todas as cicatrizes verbais, emocionais e físicas que a personagem passou ao longo da vida e, mesmo ela magoando a todos em sua volta, nós compreendemos ela ser assim e ter chegado aonde chegou. Dificilmente a atriz não receberia a sua décima oitava indicação ao Oscar.
Com um elenco de quilate, formado tanto por nomes conhecidos como, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Juliette Lewis, Benedict Cumberbatch, como também nomes menos conhecidos (mas talentosos) como Julianne Nicholson, Margo Martindale e Misty Upham, todos eles tem o seu tempo de participação em destaque no filme, principalmente Cumbergatch. Embora sua participação seja pequena, não deixa de ser tocante, principalmente numa cena onde ele toca um piano. Como os problemas familiares são o foco principal da trama, todos os protagonistas se reúnem numa cena chave (um jantar), em que cada um, principalmente a personagem de Streep, deixa a máscara cair e revelar a verdadeira face dessa família. Essa cena é disparada o melhor momento, onde cada um fica com os nervos à flor da pele e Julia Roberts apresenta aqui o melhor desempenho de sua carreira, sendo algo que não se via desde Closer: Perto Demais

Com uma trama que envolve alcoolismo, suicídio, câncer, dependência química, adultério, pedofilia, divórcio e incesto, Álbum de Família possui uma alta dose de humor negro, dramático e emocional, capaz de fazer com que cada um que saia da sessão, acabe caindo numa verdadeira dose de reflexão interna e espiritual.


27 de janeiro de 2014

O RIO NOS PERTENCE (2013)

Nos primeiros momentos de projeção, a protagonista interpretada por Leandra Leal está relaxada ao lado do namorado, falando inglês (não espere explicação por isso) e se esquecendo por completo do mundo lá fora. Contudo, um cartão postal que ela recebe, faz com que vá de encontro com o passado para rever assuntos não resolvidos, tanto com sua família, como também de antigos amores. A partir daí, somos levados juntos numa realidade familiar, mas pouco convencional aqui.

Escrito e dirigido por Ricardo Pretti (de Estrada para Ythaca, 2010, e No Lugar Errado, 2011), O Rio nos Pertence por vezes lembra Nina de Heitor Dhalia, onde ambos os filmes possuem uma realidade filtrada, que faz parecer que determinados ambientes que conhecemos, acabam por ser apresentados de uma forma jamais vista. É como se aquela visão sempre estevisse lá, mas nunca nos demos conta, ou faz entender que há duas realidades, mas que nunca dão espaço uma para outra e somente nós, num determinado momento da vida, é que nos damos conta disso.

Entretanto, diferente de Nina, a questão não é o fato de a protagonista estar vendo coisas, mas talvez não se dando conta de onde realmente está. Numa das melhores cenas do filme (que me lembrou O Som ao Redor), a protagonista começa a rasgar uma parede que, por sua vez, se mostra ser uma grande janela que dá de encontro com a paisagem carioca. Mas o visual é sombrio, para não dizer melancólico e faz com que a protagonista grite por alguém, mas sem ser respondida.

Gritos e escuridão é que fazem também o clima da produção se tornar bem estranho, beirando até mesmo um clima de terror clássico, mas muito distante daqueles vistos no cinema americano. Na realidade, o filme de Pretti está mais para A Hora do Lobo de Ingmar Bergman, onde só faltou mesmo a protagonista dialogar com a gente. Em vez disso, ela se encontra com um amor antigo chamado Mauro e com sua irmã vivida com maestria por Mariana Ximenes, onde ambas se digladiam numa conversa reveladora e que dá uma dica (ou não) do que está acontecendo na tela.
É uma obra que poderia ser filmada da forma mais simples, mas o cineasta preferiu ir contra a maré e apresentar uma obra mais experimental, que fizesse com que a gente tirasse inúmeras interpretações do que estamos vendo realmente. Podemos até mesmo ir para um caminho fácil sobre a verdadeira natureza da jornada da protagonista, mas seria óbvio demais, então o diretor nos joga outros inúmeros detalhes para fazermos uma teia de teorias sobre inúmeros significados das sequências apresentadas. Fora o momento da janela já citada, não há como ignorar a enigmática cena da praia, onde a personagem dá a entender que está sendo puxada contra a sua vontade por algo, mas não se importando muito com isso. 

Assim como o já cultuado Doce Amianto, este é mais um de muitos filmes experimentais brasileiros que vieram para ficar. Mesmo indo contra a onda de comédias que assolam nossos cinemas, são obras, como essa de Pretti, que fazem com que a trama continue em nossas mentes e nos convencendo a dar mais uma conferida na sala escura.


24 de janeiro de 2014

UM FINAL DE SEMANA EM HYDE PARK (Hyde Park on Hudson, 2012)

Houve certo erro na tradução desse filme quando veio para cá: a trama não se passa no parque de Londres, mas sim nos Estados Unidos, na casa de campo do então presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt (Bill Murray, ótimo como sempre). A história se passa em um fim de semana de 1939 (início da II Guerra Mundial) quando o presidente recebe uma visita ilustre do Rei George VI (o mesmo rei gago de “O Discurso do Rei”, aqui interpretado com eficiência por Samuel West) e da Rainha Elizabeth (Olivia Colman, numa interpretação aquém do esperado), buscando aliados para enfrentar o exército alemão. Ao mesmo tempo, Franklin Roosevelt, que, quando não está na capital americana comandando, mora com uma mãe meio desequilibrada, vive um romance (?) com sua prima, Margaret Stuckley (Laura Linney, ótima no papel).

O diretor Roger Michell quis dar a mesma importância para ambas as tramas, mas o resultado ficou abaixo do esperado e muita coisa poderia ser mais explorada, se não fosse a sua curta duração. Na realidade, o filme se envereda mais para uma comédia sobre os costumes norte-americanos, que por vezes choca a realeza inglesa, e rende alguns bons momentos (a passagem sobre o cachorro-quente é hilária). O problema é que o filme se sustenta como drama romântico e fica devendo por não saber explorar direito os momentos certos.

Baseado em cartas escritas por Margaret e encontradas embaixo de seu colchão após sua morte, aos 100 anos, Um Final de Semana em Hyde Park poderia ir muito mais além do que foi apresentado, mas vale mais para assistir ao Bill Murray interpretando um presidente histórico, num desempenho muito melhor, mais leve e solto, do que aquele visto por Daniel Day-Lewis como Lincoln.


22 de janeiro de 2014

EU, ANNA (I, Anna, 2012)

Baseado no best seller internacional de Elsa Lewin, Eu, Anna é o primeiro longa-metragem do diretor britânico Barnaby Southcombe. Em menos de uma hora e meia, nos joga em um filme de suspense elegante em que nem tudo que nos é apresentado é 100% explicado de imediato. Na verdade, a grande alma do filme fica na própria protagonista, interpretada de uma maneira assombrosa pela atriz britânica Charlotte Rampling (de Melancolia). Durante todo o filme, ficamos ao lado de Anna, que sofre com o divórcio recente, mas ao mesmo tempo busca um novo parceiro numas festas de solteiros.

Em uma dessas festas, acaba conhecendo o inspetor chefe Bernie Reid (Gabriel Byrne) que, ao mesmo tempo que sofre com um possível divórcio, também está investigando um assassinato que aconteceu na cidade. De alguma forma, Anna está envolvida nesse crime, mas até aonde ela é culpada? O diretor destrincha as respostas em flashback, que mostra tanto a noite do crime, aos poucos, como também mostra a queda psicológica de Anna e os motivos que a levaram até ali.

Aos poucos, percebemos que a protagonista não está bem, sendo que ela se mostra realmente sã no momento em que dialoga com a sua filha Emmy (Hayley Atwell) que (aparentemente) mora com ela e com a sua neta recém nascida. Através dessa relação é que se tiremos certas pistas sobre o que se passa realmente com Anna e o que aconteceu com ela. As respostas que vem não são fáceis, principalmente porque se cria um sentimento confuso no espectador que assiste com relação à Anna; não sabemos se sentimos pena ou ficamos bravos com ela devido as suas ações. 
Embora estreando na direção, Barnaby Southcombe surpreende ao criar uma trama que prende a atenção do cinéfilo do começo ao fim e faz um belo casamento com a sua forma de filmar ao lado de uma trilha sonora de suspense bastante bela. Todos esses ingredientes culminam num final surpreendente, triste e, ao mesmo tempo, corajoso e poucas vezes visto no cinema. O desempenho de Charlotte Rampling fortalece isso e mesmo sendo mãe do diretor, ela não foi poupada em cenas fortes e que se exigia o melhor dela. 

Embora curto, Eu, Anna é uma pequena aula de como se faz um belo suspense. Apedar de que a trama soe familiar, quando se é bem dirigida nos emociona pelos destinos dos personagens que ficam em aberto, que são vitimas de suas próprias ações e que não desejavam estar naquela posição melancólica.


20 de janeiro de 2014

Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida (2012)

Adolescentes sempre se sentem perdidos com inúmeras perguntas que, por vezes, são sem respostas e que os deixam confusos com relação ao que virá no futuro, especialmente sobre o que irá ser na vida. Esse é o assunto principal de Eu Não Tenho A Menor Ideia Do que Eu Tô Fazendo Com A Minha Vida, onde a protagonista Clara (Clarisse Falcão) não foge desses questionamentos. Estudante de medicina que pertence a uma família composta por médicos, ela começa a matar aulas ao perceber que não quer ser médica como o resto da família.

Em um dos dias em que ela não vai à faculdade, acaba conhecendo Guilherme (Rodrigo Pandolfo) rapaz que trabalha no boliche do pai e que, de alguma forma, lhe ajuda a criar inúmeras opções consigo mesma para, então, voltar aos trilhos na vida. Ele sugere que ela faça experiências para ver qual o caminho a trilhar, qual carreira ela poderia seguir, em momentos como no café da manhã, em que ela toma com os seus tios, onde cada um é profissional em uma área, mas que foram distanciados pelo pai de Clara.

Os tios dão um verdadeiro show no filme. Formado por incríveis talentos, como Daniel Filho, Kiko Mascarenhas, Leandro Hassum e Alexandre Nero. O tio interpretado por Leandro Hassum é que rouba a cena de todos, como um pediatra que tem uma relação para lá de problemática com a mãe. 
O filme é muito simplório, filmado com pouquíssimos recursos, mas com roteiro 'redondinho' e com uma fotografia onde as cores quentes sobressaem, além de uma trilha sonora escolhida a dedo. A trama é voltada mais para o público jovem, especialmente essa geração viciada nas redes sociais e fará que inúmeras pessoas se identifiquem rapidamente. Identificação é palavra chave do filme, pois não tem como não se identificar com a protagonista interpretada por Falcão que é tão cheia de dúvidas que, quando manda um vídeo para entrar no Big Brother Brasil, ela sugere que seja uma competidora sem personalidade nenhuma. 

O personagem de Rodrigo Pandolfo se torna não apenas um guia para a protagonista, como também uma espécie de ancora para ela não cair na mais pura depressão. Ela está sem rumo, seus pais não possuem noção com relação ao que acontece na sua vida e tampouco sabem que ela esta passando por uma crise.
O diretor Matheus Souza tem apenas 24 anos, mas já havia chamado a atenção do cinéfilo mais antenado e da critica especializada a partir do filme Apenas O Fim. Ambas as obras possuem uma linguagem jovem, mas que nada lembra as comédias americanas com adolescentes que, por vezes, são vazias e descartáveis. 

Embora tenha sido lançado em poucas salas de cinema, não me admira que o filme venha a ser cultuado, assim como ocorreu na primeira obra do diretor.


16 de janeiro de 2014

OSCAR 2014 - INDICADOS


Confira abaixo a lista dos indicados ao Oscar 2014

Melhor filme:
12 Anos de Escravidão
Capitão Phillips
Clube de Compras Dallas
Ela

Melhor diretor
Alexander Payne - Nebraska
Alfonso Cuarón - Gravidade
David O. Russell - Trapaça
Martin Scorsese - O Lobo de Wall Street
Steve McQueen - 12 Anos de Escravidão

Melhor atriz
Amy Adams - Trapaça
Cate Blanchett - Blue Jasmine
Judi Dench - Philomena
Meryl Streep - Álbum de Família
Sandra Bullock - Gravidade

Melhor ator
Bruce Dern - Nebraska
Chiwetel Ejiofor - 12 Anos de Escravidão
Christian Bale - Trapaça
Leonardo DiCaprio - O Lobo de Wall Street
Matthew McConaughey - Clube de Compras Dallas

Melhor ator coadjuvante
Barkhad Abdi - Capitão Phillips
Bradley Cooper - Trapaça
Jared Leto - Clube de Compras Dallas
Jonah Hill - O Lobo de Wall Street
Michael Fassbender - 12 Anos de Escravidão

Melhor atriz coadjuvante
Jennifer Lawrence - Trapaça
Julia Roberts - Álbum de Família
June Squibb - Nebraska
Lupita Nyong'o - 12 Anos de Escravidão
Sally Hawkins - Blue Jasmine

Melhor canção original
"Alone Yet Not Alone" - Alone Yet Not Alone
"Happy" - Meu Malvado Favorito 2
"Let it Go" - Frozen - Uma Aventura Congelante
"Ordinary Love" - Mandela
"The Moon Song" - Ela

Melhor roteiro adaptado
12 Anos de Escravidão
Philomena

Melhor roteiro original
Blue Jasmine
Clube de Compras Dallas
Ela
Nebraska
Trapaça

Melhor longa de animação
Os Croods
Meu Malvado Favorito 2
Ernest & Celestine
Frozen - Uma Aventura Congelante
The Wind Rises

Melhor documentário em longa-metragem
20 Feet From Stardom
The Act of Killing
Cutie and the Boxer
Dirty Wars
The Square

Melhor longa estrangeiro
The Broken Circle Breakdown
A Grande Beleza
A Caça
The Missing Picture
Omar

Melhor fotografia
O Grande Mestre
Gravidade
Inside Llewin Davis: Balada de um Homem Comum
Nebraska
Os Suspeitos

Melhor figurino
12 Anos de Escravidão
O Grande Mestre
O Grande Gatsby
The Invisible Woman
Trapaça

Melhor documentário em curta-metragem
CaveDigger
Facing Fear
Karama Has No Walls
The Lady in Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall

Melhor montagem
12 Anos de Escravidão
Capitão Phillips
Clube de Compras Dallas
Gravidade
Trapaça

Melhor maquiagem e cabelo
Clube de Compras Dallas
Vovô Sem-Vergonha
O Cavaleiro Solitário

Melhor trilha sonora
A Menina que Roubava Livros
Gravidade
Ela
Philomena
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor design de produção
12 Anos de Escravidão
Gravidade
O Grande Gatsby
Ela
Trapaça

Melhor animação em curta-metragem
Feral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room on the Broom

Melhor curta-metragem
Aquel No Era Yo (That Wasn't Me)
Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
The Voorman Problem

Melhor edição de som
Até o Fim
Capitão Phillips
Gravidade
O Grande Herói
O Hobbit - A Desolação de Smaug

Melhor mixagem de som
Capitão Phillips
Gravidade
O Hobbit - A Desolação de Smaug
Inside Llewin Davis: Balada de um Homem Comum
O Grande Herói

Melhores efeitos visuais
O Cavaleiro Solitário
Homem de Ferro 3
Star Trek - Além da Escuridão

Já fez as suas apostas???


O LOBO DE WALL STREET (The Wolf of Wall Street, 2013)

Entre o início de 2003 e junho do mesmo ano, eu trabalhava como promotor de vendas em Porto Alegre, onde vendia consórcios e prometia para o cliente que ele conseguiria, em pouco tempo, um carro. No entanto o que eu dizia para ele era um discurso copiado à exaustão, cujas mesmas frases eu dizia para todos os clientes que, infelizmente não liam a letra miúda do contrato quando assinavam e, devido a isso, nada de carro tão cedo na garagem. Quando as vacas começaram a ficar magras e senti a falcatrua no ar cada vez mais empestando aquele lugar, decidi então cair fora e procurar outra coisa mais honesta para mim, antes que fosse tarde demais.

Tempos depois eu soube que alguns foram presos devido a esse esquema e atualmente, até aonde eu sei, essa empresa trabalha apenas em seguros. Somente eu e outro amigo da época é que temos uma ideia de como aquilo era uma loucura, que precisava ser louco para conseguir dinheiro a todo custo, mesmo que, para isso, pudesse custar sua própria alma. Todas essas lembranças de um período de desespero para conseguir um emprego e dinheiro vieram à minha mente ao assistir O Lobo de Wall Street, nova parceria do diretor Martin Scorsese com o ator Leonardo DiCaprio.

Baseado nas memórias de Jordan Belfort, acompanhamos o protagonista interpretado por DiCaprio, que é um corretor de títulos da bolsa norte-americana. Durante o dia ele ganhava milhões de dólares por minuto e nas noites gastava com sexo e drogas, além de viagens internacionais. Dinheiro, poder, mulheres e drogas nunca eram suficientes, porém suas artimanhas e a vida corrupta levaram-no para a prisão. 
É aquela velha historia de que poder corrompe as pessoas. Se a pessoa não sai já no princípio, acaba subindo e subindo até o ponto em que o poder que investiu acaba se tornando sua maldição, mas ao mesmo tempo ela tem o dom de criar ouro, para o bem ou para o mal. Nisso, Scorsese retrata de uma forma enlouquecedora, com uma montagem rápida, câmera sempre em movimento, música ao fundo, diálogos rápidos e afiados, que fazem do filme, mesmo com 3 horas de duração, o longa mais ágil do diretor desde Cassino (de 1995) que possuía o mesmo tempo de projeção. A intenção dele talvez nunca fosse endeusar esse universo mentiroso que foi de Belfort, mas mostrar o seu dia a dia e como precisava ser louco, ambicioso e ter uma energia fora do comum para sobreviver e vencer num mundo como esse.

Loucura e ambição são os ingredientes que moldaram a vida do personagem, sendo que essas virtudes suspeitas, para seguirem em frente sempre lado a lado, era preciso um escape para ele, sendo drogas e mulheres aos montes. Sexo e drogas é outra coisa que chove no filme do Scorsese, onde o protagonista e seus companheiros se esbaldam sem pestanejar em situações loucas e com uma grande dosagem de humor negro que não se via na carreira do diretor há um bom tempo. 

Claro que, além do lado autoral do cineasta, o filme funciona também graças ao ótimo desempenho dos seus atores, principalmente DiCaprio. De uma parceria com Scorsese que iniciou a partir Gangues de Nova York (de 2002), DiCaprio cada vez mais se consolida como um dos melhores intérpretes da nossa geração . Aqui ele simplesmente incorpora o seu personagem de uma forma tão assombrosa e explosiva que fico me perguntando se ele não saiu afetado durante o percurso. Curiosamente, essa energia não se sente em seu personagem no principio do filme, mas sim no personagem Mark Hanna, que deu o empurrão para que Belfort seguisse nesse universo de negócios ilícitos e aqui é interpretado por Matthew McConaughey que, mesmo com poucos minutos em cena, nos brinda com uma cena que se tornou clássica instantaneamente.
Embora sejam baseados em fatos reais, alguns irão suspeitar que algumas situações absurdas (acredite, tem muitas!) na realidade não aconteceram, mas os que vivenciaram aquilo e segundo o próprio Belfort, realmente tudo aconteceu. Então, se presenciarmos um dos protagonistas tomando uma incrível dose de drogas e, mesmo assim, conseguindo dirigir o carro com o corpo todo mole até a sua casa, acredite, realmente aconteceu. Aliás, essa parte é disparada o momento mais ensandecido do filme e tudo causado pelo personagem Donnie Azoff, companheiro de Belfort, interpretado pelo comediante Jonah Hill, no que talvez seja o seu melhor desempenho na carreira.

É claro que os atos finais do filme mostram que o crime não compensa e isso é muito bem representado numa bela seqüência onde vemos o tira bom, interpretado por Kyle Chandler, indo de trem para casa e seguindo sua pacata vida honesta. Um contraste, se compararmos ao destino de Belfort que, embora tenha pagado pelos seus erros, estamos falando da América que se diz a terra das oportunidades, ou seja, para todos. Os minutos finais sintetizam bem isso, onde eu simplesmente não pude deixar de me enxergar no ano de 2003, em meio a dúzias de pessoas em busca dos seus sonhos, mas mal sabendo (ou sabendo muito bem), que sempre há um porém em se tratando de vendas ou a forma mais fácil de conseguir dinheiro na vida.

O Lobo de Wall Street passa o recado para nós, que na realidade somos ovelhas em meio a inúmeros lobos, mas, em vez de sermos devorados, corremos o risco de perder a lã que nos cobre e revelar o lobo que não queremos despertar em nós mesmos.


13 de janeiro de 2014

Um Toque de Pecado (Tian zhu ding, 2013)

Um olhar cru de um diretor chinês que, através de quatro histórias inspiradas em fatos sobre como a China atual, assusta pelo fato daqueles acontecimentos não acontecerem somente lá, como também muito perto de nós. O sangue já jorra de uma forma inesperada, numa situação que poderia acabar de uma forma melhor, mas aqui é mostrada para retratar a reação do homem (ou mulher) perante a violência que não aceita mais tão facilmente, desencadeando então um lado obscuro da pessoa e que o leva ao caminho sem volta. Um retrato não somente da China atual, como também da própria civilização do século XXI, infelizmente.

Em pouco mais de duas horas, Jia Zhang-ke (de Em Busca da Vida) retrata o dia a dia de quatro pessoas comuns que, embora se cruzem umas com as outras no decorrer da projeção, suas tramas trabalham independentemente uma da outra, mesmo com o fato da violência ser um assunto que tenham em comum. Assunto este que vai da pessoa mais velha para o jovem recém começando com a vida, mas que não consegue administrar o descontrole de uma sociedade que, embora tenha a 'faca e o queijo na mão' para tudo ficar bem, não esconde o fato de não saber lidar com o despertar da besta do interior de um ser humano. Despertar esse que começa através das más ações de pessoas que acreditam que acham que podem fazer o que bem entenderem, mas que no fim, querendo ou não, sofrem as conseqüências. 

Acima de tudo, o filme é sobre a perda dos valores de um ser humano, desmoronamento da família contemporânea, o viver do dia a dia difícil, corrupção a torto e a direito, o lado cruel do ser humano contra animais indefesos, o valor abusivo do dinheiro na vida das pessoas que a transformam em seres como pedra e o nascimento do seu lado brutal. O filme se concentra em quatro historias, enlaçadas através de inúmeros detalhes que exigem um pouco de nossa atenção. Bom exemplo disso é o titulo do filme, que é visto num papel de parede que avistamos na terceira história do longa.

Sublime é a forma de apresentação dos personagens de cada história que, às vezes, surgem rapidamente dentro da história de outro personagem. O protagonista da segunda trama surge no inicio da trama do primeiro, que já desencadeia uma onda de violência sem precedentes, já fazendo o cinéfilo se preparar para o que está por vir. Existem os encontros em ônibus e trens e um dos personagens da terceira trama vai voltar ao cenário da primeira história e fechando, assim, um circulo.
Talvez um dos mais trágicos personagens do longa seja Dahai, da primeira história, um trabalhador de uma mina que se revolta contra a corrupção local. Tenta debater, argumentar, reclamar pelos direitos do povo aonde ele vive, mas tudo acaba de uma forma inútil. O seu rifle enrolado em um tigre enfurecido que molda um pano, irá encher a tela de sangue sem dó. A segunda leva a roubo e assassinato de um trabalhador deslocado de sua região natal, que perde o contato da mulher, o filho e a família. O terceiro caso traz à bela Zhao Tao, a mulher do diretor, que faz uma moça que trabalha como recepcionista de uma sauna e não consegue que o homem que ela está apaixonada deixe a sua esposa. Sem querer, ele deixa um canivete com ela e o objeto se tornara uma arma para ela, num dos momentos mais angustiantes do filme. 

É triste a quarta história, que envolve um jovem que tenta ajudar a família, mas que não consegue suportar a pressão dela e o leva num caminho trágico e sem volta. Em frente aos restos de um passado longínquo e mais dourado, a cantora de ópera chinesa pergunta para uma platéia que se encontra quieta:

“Você entendeu o seu pecado?”

Um toque universal apresentado neste filme, vindo desse cineasta genial, que fala não somente sobre a China, como também de todos os povos desse planeta.


10 de janeiro de 2014

Frozen - Uma aventura congelante (2013)

Desde que o pai da Pixar, John Lasseter, assumiu a DisneyToon Studios, parece que a casa do Mickey finalmente colocou o trem nos trilhos e tem, pelo menos, lançado um sucesso a cada final de ano sem a ajuda da Pixar ou de um filme da Marvel Studios. Neste meio tempo, foram lançados obras como, Enrolados, que retorna o sucesso das princesas no cinema e Detona Ralph, que fez um grande sucesso entre a garotada. Agora, em meio ao calor que nós, brasileiros, sentimos nesse momento, chega aos cinemas Frozen - Uma aventura congelante, que fortalece o retorno aos bons tempos que o estúdio fazia filmes baseados em contos de fadas. 

A co-diretora e roteirista Jennifer Lee, que comanda a produção ao lado do experiente Chris Buck (de Tarzan e Tá Dando Onda) fez uma adaptação livre do clássico conto “A Rainha da Neve”, do dinamarquês Hans Christian Anderson. Diferente de sua fonte de origem, a monarca aqui é uma vitima das circunstâncias e não uma vilã. A princesa Elsa, após sem querer ferir sua irmã mais nova, Anna, com seus poderes sobre o frio e o gelo, se torna uma criança fechada do mundo. Ao chegar o momento de assumir o trono, ela sem querer faz desabar uma nevasca em pleno verão, fugindo então desesperada.

Ao deixar o reino sob os cuidados do seu noivo (com quem noivou no primeiro dia que o conheceu), o príncipe Hans, Anna vai em busca de sua irmã, com a intenção de salvar sua família e seu reino, tendo como companhia um aventureiro vendedor de gelo Kristoff, a rena Sven e o boneco de neve encantado e engraçado Olaf, encontrando no caminho perigosos seres como lobos e gigantes de gelo.
No final das contas Frozen é uma aventura sobre descobertas de si mesmo e aceitar da maneira como a pessoa é. Elsa sempre se fechou, fugindo de quem ela era e com medo de machucar aqueles que ela amava. Anna, por sua vez, sempre teve o desejo de ser uma grande aventureira, sair pelo mundo, encontrar um amor verdadeiro, mas sempre tentando resgatar sua irmã do mundo em que ela se fechou. Embora os personagens Kristoff e Hans sejam essenciais para a trama, os arcos dramáticos das irmãs são os verdadeiros momentos chaves e dramáticos do filme. 

Claro que, por ser baseado em um conto de fadas, o estúdio traz de volta algumas fórmulas que fizeram sucesso no passado, embora desconhecidas para essa nova geração, acaba ainda funcionando. Mas é aí que, quando eles usam aquela velha história da princesinha se apaixonar por um príncipe no primeiro dia que ela conhece, eis que o próprio estúdio, que tanto venerou isso no passado, tira o maior sarro, rendendo um momento engraçado e outro inesperado, gerando então uma dança nas cadeiras, que embora forçada, também valeu como uma boa tentativa de se inovar. No entanto, isso tudo se torna irrelevante quando a trama foca em Elsa, talvez a personagem mais bem desenvolvida e trágica do longa. 

O coração do filme bate mesmo é na relação complicada entre as duas irmãs que, embora se amem, a maldição do gelo de Elsa faz com que se separem. Se muitos pensam que o mascote mágico Olaf serve apenas como alivio cômico (e certeiro) nos momentos em que surge, saibam que ele é essencial para formar um elo entre o passado e o presente das duas e fazer com que ambas fiquem juntas novamente. 
Visualmente o filme é de um esplendor magnífico, sendo que o castelo de gelo de Elsa é de uma magnificência estupenda e muito bem desenhada. Com relação ao visual dos personagens, são todos assim redondinhos, que remete a outro grande sucesso do estúdio Enrolados e não me admira que as duas princesas se tornem bonecas para serem vendidas nas lojas. Embora o 3D seja dispensável em alguns momentos, ele torna incrível a profundidade nos cenários, principalmente nos momentos que focam o reino das duas princesas.

Tecnicamente a maior peça chave de sucesso do filme, são os números musicais. Claro que muitos torcem o nariz quando eles surgem na história, mas se eles forem usados para fluir melhor a história, então é mais do que válido, principalmente se são muito bem feitos. A seqüência em que Elsa se sente à vontade para usar os seus poderes como bem entender é, talvez, o melhor momento musical do filme, que dificilmente o público não irá se identificar com ela. 

Embora com um final amarradinho e bem previsível, Frozen – Uma Aventura Congelante é uma ótima pedida para todas as idades. Embora ajam doses de lição de moral bem acavales também há certas nuances adultas e que poderá agradar até mesmo o público mais velho e exigente. Disney aprendendo muito bem a usar as fórmulas de sucesso que a Pixar tão perfeitamente criou.


8 de janeiro de 2014

DOCE AMIANTO (2013)

O cinema convencional norte americano possui uma mesma velha formula de sucesso: começo, meio, fim, tudo mastigado para que o cinéfilo não pense muito e saia do cinema satisfeito. Contudo, houve aqueles que lançaram um cinema um pouco diferente, no qual a pessoa que assistiu se ficava se perguntando sobre o que viu. David Lynch (de Cidade Dos Sonhos) é alguém que foi contra a maré das regras do cinema norte americano e não me admira que tenha servido de inspiração para os cineastas como Guto Parente e Uirá dos Reis ao criarem Doce Amianto.

Na verdade, a sensação que eu tive quando assisti a esse filme é que o universo de Lynch deu de encontro com o de Pedro Almodóvar (de Fale Com Ela). Temos uma trama não linear, enlaçada com um universo no qual nos faz lembrar também o lado autoral do cineasta Espanhol, mas o protagonista não é alguém inspirado no que já vimos do mundo de Almodóvar. Embora seja interpretado por um homem (Deynne Augusto) Amianto não é travesti e tão pouco transexual, ao menos não oficialmente.

Por mais que a personagem possua traços que lembrem um homem, o filme sempre se refere a ela como uma mulher como outra qualquer. O mesmo vale para Blanche, uma espécie de fantasma conselheiro para Amianto e a única que lhe dá o consolo nos momentos difíceis. Quando as duas surgem em cena, a realidade convencional se quebra na frente do espectador, fazendo com que ele aceite ou não o que acontece na tela.

Essa quebra da realidade convencional da trama faz com que tudo possa acontecer, no qual podemos interpretar nas diversas formas, desde um sonho, delírio ou até mesmo uma simples metáfora. Esse último exemplo pode ser o mais aceito, principalmente no início do filme, quando a protagonista tenta se reconciliar com seu amado, mas bastou ele ignorá-la para que a protagonista caísse no chão e em meio segundo esteja toda coberta de sujeira, representando então a sua sensação de estar no fundo do poço. 

Esse convite para um lado mais experimental que o filme nos dá, não se importando com o que vamos achar, faz com que a gente pronuncie aquele velho refrão de “ame ou odeie”. Foi graças a essa forma de ir contra a maré de um lugar comum que o filme nos brinda com uma das melhores partes da trama, em que ele abandona a historia principal e nos joga numa nova e sem nenhuma ligação com a outra. Essa pequena trama apresentada, por mais absurda que seja, não deixa de ser a mais divertida, ao injetar um humor negro, contagiante e com personagens caricatos, mas que não foge muito do perfil de pessoas reais em determinadas situações apresentadas. 

No resultado geral é um filme que inquieta o espectador, mesmo na sua curta duração (70 minutos) e com uma linguagem original, na qual, com certeza, atrairá um cinéfilo mais exigente, mas que com certeza fará com que o público em geral fique se perguntando após a sessão o que realmente viu. Um filme experimental, fora do convencional, mas não menos genial.


7 de janeiro de 2014

Ender's Game - O Jogo do Exterminador (2013)

Embora o livro de Orson Scott tenha sido publicado em 1985, a sua trama funciona muito bem nos dias de hoje, já que os humanos do futuro vs os "alienígenas insetos", nada mais são do que uma metáfora critica das guerras entre americanos contra os outros países de ontem e hoje. Logicamente, a trama somente veio finalmente a ganhar sua adaptação cinematográfica graças às adaptações de sucessos literários que vem invadindo os cinemas, como Jogos Vorazes, por exemplo. Dessas inúmeras adaptações, muitas serão lembradas, outras esquecidas e, no caso de Ender's Game - O Jogo do Exterminador, possa, quem sabe, virar um pequeno cult num futuro próximo. 

Não deixa de ser interessante e cruel a história: crianças são recrutadas para combater alienígenas que, no passado atacaram a Terra por motivos (aparentemente) desconhecidos. A última esperança de um novo ataque cai nos ombros do raquítico Ender Wiggin (Asa Butterfield), que é treinado em grandes simuladores para combater a ameaça. Além disso, terá que combater tanto um possível instinto assassino interior, como também os momentos de bullying que sofre de outros colegas. 

O grande curinga da produção não é muito a trama (embora ótima), tampouco os efeitos especiais, mas sim o seu protagonista que vive de dilemas, insegurança e desconfiança com relação aos seus superiores. Asa Butterfield, que havia sido descoberto em A Invenção de Hugo Cabret, surpreende ao transmitir todos esses sentimentos e, mesmo não aparentando um físico heroico, ele acaba nos convencendo que pode sim dar conta do recado. 
Harrison Ford, Viola Davis e Ben Kingsley cumprem bem os seus papéis, ao interpretarem os superiores de Ender. Aliás, embora saibamos que eles enxergam um potencial genuíno no garoto, suas reais intenções somente serão reveladas no ato final da trama. Falando do final, é de se tirar o chapéu por apresentar uma surpreendente revelação, que coloca em xeque o destino e o caráter de cada um dos personagens. 

Uma pena que o filme não tenha se dado muito bem nas bilheterias americanas, pois, apesar de ter começo, meio e fim definidos, existe ali uma ponta solta para uma possível sequência que, infelizmente, talvez não venha acontecer. Como disse antes, é um filme que pode se tornar um pequeno cult, pois possui substância; não para uma eventual franquia, mas por saber passar uma mensagem de tentativa de paz entre os povos, de tentar saber dialogar com o que não se entende, sendo essa uma dificuldade humana que existe tanto no passado como ainda hoje, infelizmente.


6 de janeiro de 2014

TATUAGEM (2013)

Hilton Lacerda saiu consagrado nos festivais de Gramado e do Rio de Janeiro com o seu filme Tatuagem, obra que se tornou rapidamente uma das mais elogiadas do ano, cujo criadores não se importam nenhum pouco em incomodar um público mais conservador e hipócrita. Essa é a intenção de Tatuagem: cutucar, incomodar e trazer um frescor de maior ousadia que por vezes faz falta no nosso cinema atual. Antigamente (anos 70 e 80) sexo e outros temas pesados eram bem mais vistos, e olha que estamos falando de um período em que o regime militar ditava as regras da cultura.

Esse clima mais sujo e ousado de antigamente começou a renascer a partir de obras como Amarelo Manga, Febre do Rato e Baixio das Bestas que, embora sejam dirigidos pelo genial Claudio Assis, as tramas foram roteirizadas por Hilton Lacerda, que agora estreia com estilo neste filme que deu o que falar no principal festival gaúcho de cinema. Apesar de lembrar alguns elementos vistos nos filmes citados (principalmente Febre de Rato), Lacerda optou por criar um clima mais romântico, mas não menos sensual em meio à ditadura do final dos anos 70. Tatuagem acompanha um grupo de artistas itinerantes que se apresenta de maneira ousada, sendo boa parte deles travestidos e formados por gays, cujo líder do grupo, denominado Chão de Estrelas, é Clécio (vivido por Irandhir Santos). Em meio àquele mundo estranho para os olhos da maioria, surge um jovem soldado que se torna a "menina dos olhos" de Clécio, Fininha (vivido por Jesuíta Barbosa).

Não é preciso ser gênio para saber que ambos irão se apaixonar, mas que acabaram vivendo um conflito, com o fato de que Fininha possa ser ou não um espião infiltrado no grupo de artistas. Curiosamente, Clécio tem um filho com uma mulher e ambos continuam sendo amigos, além do primogênito gostar de assistir os shows que rolam à noite. Sinceramente, não me lembro de cenas tão ousadas de sexo entre homossexuais do nosso cinema, desde Madame Satã e também lembra bastante as primeiras obras de Pedro Almodóvar como A Lei do Desejo
Acima de tudo, o filme bate na tecla sobre questões como liberdade, direito de ir e vir e expressar a opinião dos personagens através da arte da interpretação. Talvez a passagem que melhor represente essas é no momento da cena 'Polka do Cu' que faz parte da peça deles. Chocante, engraçada e corajosa, diga-se de passagem. Fora isso, o filme é recheado de boa música que embala os momentos românticos da trama: em “Volta”, cantada por Johnny Hooker; a versão de Esse Cara, de Caetano Veloso, cantada por Irandhir; A Noite de Meu Bem, de Dolores Duran, tocada na primeira dança do casal de protagonistas, entre outras canções selecionadas e/ou compostas por DJ Dolores.

Como não poderia ser diferente, Irandhir Santos rouba o filme como um todo e coloca muito bem no seu bolso. Intérprete de imenso talento, Santos havia chamado atenção em Tropa de Elite 2, se consagrado em Febre do Rato e, mais recentemente, interpretando um misterioso vigilante no já clássico O Som ao Redor.

Apesar de ser um filme fora do convencional, Tatuagem é uma produção que merece ser visto por todos, pois, embora seja um retrato de um grupo de pessoas perante aos últimos anos da sombra da Ditadura, não há como não comparar com a situação de algumas partes de nossa política conservadora atual, que possui uma mentalidade atrasada e muito falsamente correta.


2 de janeiro de 2014

A RELIGIOSA (La religieuse, 2013)

Alguns filmes que retratam os lados mais podres da Igreja Católica de antigamente (e atual), deve ter passado bem longe do Vaticano, pois arrumariam grandes dores de cabeça para ambos os lados. A batata quente dessa vez é A Religiosa, que possui diversas cenas incomodas, sobre os maus tratos que algumas freiras sofriam no século 17, por tentar desistir à sua vocação, morando em cubículos, tendo de sofrer torturas físicas e psicológicas. Além disso, o filme não se intimida em mostrar certos comportamentos dessas mulheres isoladas, que acaba contradizendo tudo o que uma mente conservadora acredita cegamente. É um filme que incomoda, mas também não exagera, pois a intenção não é somente chocar, mas sim fazer uma reflexão na medida certa.

Produção com uma fotografia das mais belas, com riqueza de detalhes do dia a dia do monastério, este filme nos revela uma impecável reconstituição daquele período, tendo ao fundo uma trilha sonora que se casa muito bem com cenas-chaves. Destaque também pelos belos figurinos, onde eles se destacam nas cenas ritualísticas da igreja.

É obvio que o principal foco da trama é mostrar como as regras, de uma das principais religiões do mundo, podem afetar de maneira diversificada cada uma das personagens, e a atriz Pauline Etienne consegue passar uma interpretação comovente como a bela e sofrida Suzanne. A atriz Isabelle Huppert é um destaque interessante como a Madre Superiora que se apaixona e assedia a jovem Suzanne - no final das contas compreendemos os seus sentimentos, de uma mulher presa internamente e sem poder liberar o que realmente sente. Um verdadeiro contraste de Louise Bourgoin, que faz uma madre que possui um punho de ferro tão terrível, que nos faz pensar como uma mulher pode querer ser freira e conviver o dia a dia ao lado dela.
Na 1ª versão do filme A Religiosa, do diretor Jacques Rivette (1966), foi muito comentado e até censurado em certos países pelo tema forte que envolve o sistema religioso católico, autoritário e severo naquele século. Resumindo, é um filme muito bem arquitetado ao representar os rituais da Igreja Católica, que ao mesmo tempo fascina e nos intriga a discussões inesgotáveis. As religiões devem levar ao caminho da comemoração e não para dor e tão pouco a prisão. Generosidade, compreensão, amor ao próximo devem ser pontuais na crença religiosa. E o que vemos no filme é justamente ao contrario, um lado tenebroso do catolicismo, em séculos anteriores onde a opressão eram permitidos em nome da Fé Cristã.


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