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19 de novembro de 2013

A Princesa e Kassandra: Um paralelo incrível!

No dia 16 de novembro tive o imenso prazer de assistir aos curtas "A Princesa" e "Kassandra", no Santander Cultural, no Centro de Porto Alegre. O evento fazia parte da programação da Feira do Livro de Porto Alegre (a maior feira cultural a céu aberto da América Latina... quiçá do mundo, como tudo em Porto Alegre) e contava ainda com um debate ao final da exibição com os diretores e roteiristas dos dois filmes.
Da esq para a direita: Rafael Duarte,Taísa Ennes Marques, Kate Schneider, 
a mediadora do debate, Ulisses da Motta Costa e Roger Monteiro. Fonte: kassandrafilme.blogspot,com.br
Antes de falar de cada filme há de se destacar algumas coincidências entre eles que os tornaram concorrentes diretos, mas também complemento um do outro. Ambos se posicionam fortemente sobre um debate feminista, cada um à sua forma: A Princesa mostra uma mulher que deseja se encaixar num mundo "machista", que exige a perfeição feminina, enquanto Kassandra quer se libertar. Ambos utilizam um pássaro numa gaiola como metáfora do desejo de liberdade; os dois utilizam-se de uma violência explícita para encerrar o drama; e ambos foram exibidos no Festival de Gramado de 2013, sem conhecimento um do outro, além de outros aspectos mais técnicos.
O primeiro curta exibido foi A Princesa, de Rafael Duarte e Taísa Ennes Marques, da Machina Filmes. O curta trata da ansiedade de uma jovem em estar esteticamente perfeita num mundo real, urbanizado. Ela esconde seus defeitos, não importando quanta dor possa custar, enquanto suas ações dialogam com seu desejo de liberdade em um um mundo de beleza fantástica e natural, mas irreal. A estética do filme remete diretamente aos contos de fada clássicos: Rapunzel, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, etc. e isso é facilmente identificado nas cenas. No entanto, o curta tem uma ar de obra-prima por toda a composição da fotografia, que é esplendorosa; dos efeitos visuais - sem comparação com outras produções nacionais; uma pós-produção extremamente eficiente, além de uma magnífica trilha sonora, composta pelo próprio Rafael, que bebeu diretamente na fonte de Vangelis em Blade Runner (que ele veio a me confirmar no fim do evento). O curta, sem falas, apresenta a belíssima atriz Aline Jones como a Princesa, papel que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Gramado. Sua beleza e talento, me levam a compará-la diretamente com Jennifer Lawrence. Como se não bastasse a emoção da qualidade visual, o filme arrebata com um final dilacerante. Apesar de ser perfeito tecnicamente, a obra é pura emoção.
Kassandra, de Ulisses da Mota Costa e Roger Monteiro foi exibido em seguida. O suspense retrata o drama de uma jovem com distúrbios psicológicos, aparentemente sofrendo de alucinações e que passou por alguma espécie de trauma que a impossibilita de falar. Vivendo em meio há homens que demonstram querer controlar suas ações, ela anseia por um momento de reação que a faça se libertar de todo o sofrimento. Durante o debate, Ulisses comentou que, curiosamente, se inspirou muito nas pinturas de William Blake para compor a estética do filme. Todo em preto e branco, é realmente difícil perceber alguma referência ao pintor inglês do século XVIII. Apesar de Ulisses considerar que a fotografia ficou atemporal, pessoalmente senti uma forte influência de Hitchcock. Posso estar enganado, mas a distribuição de tons, quase um cinza monocromático na cena em que Kassandra está próxima à gaiola, me direcionou à composição de Psicose. Além disso, os cortes impossibilitavam ao espectador supor o que aconteceria na próxima cena, especialidade de Hitchcock: quando uma porta está entreaberta neste curta, você fica tenso tentando supor se vai aparecer uma alucinação ou se a porta vai simplesmente bater e te dar um tremendo susto. Além disso, a estética geral, no contra-ponto entre luz e sombra, se refere obviamente ao expressionismo alemão, minha escola favorita. A atriz Renata Stein, por sua vez, demonstra que também sofreu psicologicamente - e até fisicamente - para vestir a personagem em sua essência; os outros atores, no entanto, deixam um pouco a desejar, em uma atuação com diálogos precisos demais, tirando a naturalidade de um diálogo. O filme ganhou o prêmio de Melhor Fotografia no festival de Gramado, mas deveria ter ganhado alguma menção pela qualidade do som, cuja mixagem ficou totalmente excelente.

Ambos tratam de forma similar e completamente distinta um mesmo tema: o sofrimento da mulher em um mundo controlado pela vantagem masculina da força física. O que considero mais louvável em ambos, ao mesmo tempo, é que eles não se referem especificamente a lugar nenhum, podendo ser assistido e compreendido em qualquer cultura que trate desse drama.

Não poderia, entretanto, deixar de me posicionar. Apesar de Kassandra ter ganhado prêmio sobre fotografia, a exibição de A Princesa me emocionou de uma forma como não sentia desde que vi A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Quando possível, assista a estes ícones do cinema gaúcho, exemplos do potencial que temos para o país, independente de incentivos governamentais.

Confira abaixo os trailer de cada um.

Até a próxima!



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