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1 de maio de 2012

SHAME (2011)

Um homem, depois de uma emocionante e violenta briga com sua irmã, sai em plena madrugada para satisfazer a única necessidade carnal que lhe causaria morte por abstinência: sede por sexo. Em um bar, entre duas ou sete doses de whisky, seduz uma mulher ao ponto de introduzir dois dedos no que, até então, estava escondido por uma saia tão pornográfica quanto a situação. Bêbado, cansado, machucado pelos socos que levou do namorado da mulher que agora a pouco citei, e ainda sedento por luxúria, entra numa casa noturna para gays, e lá se entrega a condições sujas e repugnantes em troca de um orgasmo. Não satisfeito, termina o resto da sua madrugada num quarto com duas prostitutas, numa mistura de gemidos, pernas e pelos, que seria impossível de entender.

Esta é apenas uma das chocantes cenas do maravilhoso filme “Shame” (2011, Drama, Reino Unido), dirigido por Steve McQueen, mesmo diretor do impactante "Hunger", e estrelado pelos sensacionais Michael Fassbender e Carey Mulligan. A película conta a história de um homem de sucesso, bonito, jovem e rico, mas que parece viver para patrocinar o seu vício por sexo. Masturbando-se, transando com conhecidas, desconhecidas, prostitutas e garotos de programa, ou até mesmo admirando a sua coleção infinita de revistas pornográficas ou vídeos de sexo em seu computador, este homem vai levando a sua vida da maneira que aprendeu: dando ração ao animal que vive em si. Mas a sua falsa paz muda quando a sua irmã mais nova e depressiva chega para passar “um tempo” com ele.
Filmes como o que aqui vos descrevo não deveriam ser vistos por aqueles que, de alguma forma, possuem uma sensibilidade elevada. Aqui não há eufemismos. Aqui não há peneira. O que “Shame” apresenta é a realidade podre e nefasta da instabilidade da condição humana. O que se percebe neste filme, e que a direção conseguiu de forma clara e sem rodeios, é que, entre uma masturbação e outra, entre uma prostituta e um michê, este homem viciado em sexo, no final das contas, representa todos nós. Para a sociedade somos trabalhadores sucedidos e recatados, mas em nossas madrugadas nos reduzimos à face animalesca humana e nos tornamos os hipócritas que somos, com nossos vícios, segredos e intimidades. Todos temos peculiaridades pessoais com as quais lidar e, assim como ele, sofremos. No seu caso, o que deveria ser desejo, tornou-se dor. Ele não faz sexo essencialmente para satisfazer desejos, faz muito mais para extirpar uma dor que não sabe de onde vem, como vem, porém que sabe existir.

Michael Fassbender, neste filme, faz jus ao reconhecimento que tem recebido. Com toda a beleza que lhe é notória, neste filme só conseguimos percebê-lo como alguém tão normal quanto nós. E é aí que está o seu mérito. Não há erotismo aqui. Não há excitação. Há um corpo nu, como o meu e o seu, e uma mente doente, que ganha brilho com o seu talento. Mas não haveria a perfeição cênica sem a presença marcante de Carey Mulligan como sua irmã publicamente alegre, porém secretamente depressiva. Um show de atuação, que ganha o ápice na interpretação linda e lacrimejante que faz da música “New York, New York”.
Enfim, este é o resultado do trabalho extraordinário feito pela equipe neste filme. Um drama que choca, dá nojo e enjoa, mas que também é elétrico, avassalador e emocionante, além de mostrar uma elegância tórrida que chega na altura grandes filmes que mostram como que a arte é, na verdade, a reprodução artificial, porém visceral, da vida.


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