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3 de abril de 2012

Um Conto Chinês (Un Cuento Chino, 2011)

Um Conto Chinês é um filme sobre o estranhamento com o não-familiar e as diversas barreiras que construímos para nos protegermos em uma zona confortável. Baseado em fatos verídicos, porém absurdos, é mais um bom filme argentino estrelado por Ricardo Darín. É a história do imigrante chinês Jun (Ignacio Huang) que, sem saber falar uma única palavra em espanhol, é assaltado por um taxista em Buenos Aires e acaba caindo aos pés do ranzinza Roberto (Ricardo Darín), um solitário dono de uma ferragem de bairro.

Jun possui apenas um endereço de um tio rabiscado em um bilhete e é essa a única pista de onde ele deveria chegar. A primeira reação de Roberto é a que costumamos ter muitas vezes quando lidamos com uma situação diferente e, porque não, incômoda: resolver o problema o mais rápido possível ou passar o caso adiante, seja colocando o imigrante num táxi ou levando-o à delegacia. Acontece, porém, que Roberto não consegue resolver o problema do chinês e muito menos se livrar do mesmo. No entanto, o argentino tem um bom coração (ou uma consciência rigorosa) e resolve abrigar o estrangeiro em sua casa até que se encontre o paradeiro do seu parente. 

Então passamos a ver a difícil, mas curiosa e construtiva, convivência entre os dois: Roberto é um homem sisudo, fechado e solteirão (apesar das investidas de Mari, uma amiga de Mendoza que ele não se permite corresponder) e nada disposto a compreender e interagir com alguém de idioma, hábitos e cultura completamente distintos do seu.
Vai aqui um pequeno relato particular, mas que, por motivos óbvios, me veio de imediato quando assisti o filme: meu pai também é um imigrante chinês, chegou no Brasil de navio, nos anos de 1960, onde mais tarde conheceu minha mãe e blablabla. O fato é que, por muito tempo, acreditei que era perfeitamente comum meu pai ser um estrangeiro vindo de tão longe, fato tão banal quanto o pai de algum colega ter nascido em Canoas, RS, por exemplo. Lidar com o estranho é algo que não se explica sem vivenciar. A família de meu pai sim (onde ninguém, exceto ele, falava português) era diferente para mim. Mesmo sendo também minha família, me soava diferente demais para compreender e conviver com naturalidade. Do mesmo modo como eu até hoje devo ser um brasileiro esquisitão para eles.

Assim como Jun é diferente e incômodo para Roberto. A barreira do idioma acaba sendo também um pretexto para a não-interação com o estranho. Fora o lado cômico que possui, é uma história que demonstra que forçar um pouco mais o limite entre nossa zona de conforto (as coisas e pessoas as quais estamos acostumados) pode alargar também a zona de conhecimento sobre nós mesmos - esse sim, um lugar em que sempre haverá muito o que ser desbravado.


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