Parceria

23 de janeiro de 2012

As Flores da Guerra (The Flowers of War, 2011)

Na segunda metade do século XVIII, Immanuel Kant, um dos maiores filósofos e pensadores da humanidade, proferia uma das suas máximas mais marcantes: “a vida só vale a pena se digna”. Tal citação é pertinente por que é justamente sobre vida, dignidade e humanidade que fala o filme chinês mais caro da história, As Flores da Guerra, que, inclusive, foi indicado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

Com o exército imperial japonês invadindo a pequena cidade chinesa de Nanquim, seus habitantes têm apenas duas opções: morrer ou fugir. Em meio ao caos e à morte, alguns desamparados buscam refúgio numa igreja onde acreditam ter uma chance de sobreviver. Lá se refugiam um grupo de meninas católicas, um coveiro americano (vivido brilhantemente por Christian Bale), um grupo de prostitutas e um coroinha bravo e corajoso chamado George. Para garantir uma chance de vida, o coveiro John se passa por padre para, assim, tentar salvar a vida de todos. 

Com uma direção de arte extremamente competente, que consegue encontrar beleza tanto no escorrer do sangue nos cabelos de uma prostituta estuprada por mais de cinco soldados, como num vitral mal tratado, porém impactante da igreja, o filme choca do início ao fim. Aqui não há comédia, não há leveza e não há simpatia, existe apenas o contraste entre o horror e a compaixão. Este filme é lindo por ser verdadeiro, e inteligente por ser vital. Não há como assisti-lo e não pensar que aquilo que se vê na tela é exatamente o mesmo que se vê em campos de batalha vivos e calculistas por cantos esquecidos pelo mundo. 
Com filmes emblemáticos como “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”, o diretor Zhang Yimou faz um filme que foge do seu controle. Não consegui perceber marcas da direção durante todo o longa e isso não é uma crítica negativa, muito pelo contrário, foi tão competente que conseguiu mostrar que “As Flores da Guerra” tem vida própria e que a direção, nesse caso, tem apenas um papel burocrático, como o chefe de uma repartição. Não há controle sobre aquilo que a vida não entende. Não há como direcionar trabalhos que percebem o norte como o fluir do cotidiano humano. As atuações contidas no filme e os trabalhos dos profissionais que nele se debruçaram, conseguiram enxergar a profundidade de tudo aquilo que se vê no longa: o nascer de uma esperança, vinda da dignidade de se viver com amor. 

Assistam ao filme e se permitam chorar pela história ali narrada. Garanto-lhes que serão pessoas melhores após aprenderem a dignidade daquele coroinha, daquele coveiro, daquelas crianças e, acima de todos, daquelas fúteis e profundas prostitutas.


Postar um comentário

Poderá gostar também:

Receba no seu e-mail - Cadastre-se!

Mais Lidos do blog