24 de março de 2011

TOP 10 Filmes Baseados em Histórias Reais

Eu sempre acreditei que havia uma certa dose de condescendência com filmes baseados em histórias reais. Afinal, já que estamos assistindo uma história que se desenrolou realmente, não esperamos situações espetaculares ou fantásticas. Nos satisfazemos em assistir as reviravoltas menores e situações menos extremas, porque no fundo de nossas mentes há um lembrete informando que isso realmente aconteceu em algum lugar e que devemos ter a nossa expectativa diminuida por esse fato. Bom, há alguns filmes que contradizem essa suposição e nos deixam atônitos com uma história espetacular. Seja por se tratar de um evento histórico, improvável ou impressionante, seja por ser uma história cotidiana contada maestria por um diretor experiente ou um evento singular registrado, quase que documentalmente, por um novo cineasta, esses filmes merecem um TOP 10:

10. A Rede Social (The Social Network, 2010)
Dessa lista, A Rede Social, é o filme mais novo. Quando eu ouvi a primeira vez que fariam um filme sobre o Facebook eu vi a notícia como piada. Depois, quando fiquei sabendo que David Fincher estava associado ao projeto, pensei que, mesmo confiando no diretor, ele havia comprado uma briga que não poderia ganhar. Todo esse meu preconceito não se dissipou ao ouvir boas critícas e mesmo com ele sendo indicado ao Oscar de Melhor Filme. Essa impressão negativa só se dissipou quando eu finalmente assisti ao filme. A história de como Mark Zukerberg e Eduardo Saverin se envolveram na criação do Facebook é um retrato cru de uma geração que anseia por conectividade social sem saber exatamente o que isso significa e as responsabilidades inerentes a isso. Um número muito grande de temas permeiam o filme: amizade, traição, direitos autorais, interação social, internet, poder, inveja, e todos eles deixam sua marca no filme. Não deveria ser novidade que David Fincher se sai bem em trazer ao cinema uma história aparentemente sem grandes atrativos, mas eu honestamente não achei que ele se sairia tão bem.


9. Frost/Nixon (2008)
Em 1977, três anos após ter se tornado o primeiro presidente americano a renunciar, Richard Nixon decidiu dar uma série de entrevistas ao apresentador David Frost. A equipe de Nixon acreditava que o ex-presidente poderia limpar seu nome facilmente ao responder aos possivelmente fracos questionamentos de Frost, conhecido por ser mais um show man do que um inquisidor político apropriado para alguém com uma história tão nublada quanto à de Nixon. O que se viu foi uma série de um duro interrogatório no que acabou se tornando a entrevista política mais vista da história.

Devo admitir que sempre achei o Nixon de Anthony Hopkins, na versão de Oliver Stone em "Nixon", melhor que o de Langella, mas ainda sim é uma interpretação sólida, ainda que um pouco caricata (Nixon era caricato de qualquer maneira). Ainda assim, Langella foi indicado ao Oscar.


8. Zodíaco (Zodiac, 2007)
Há alguns anos, em uma das minhas longas noites na internet eu comecei a procurar artigos sobre serial-killers e acabei caindo em uma página que tinha a transcrição de um depoimento de uma vítima de um serial-killer. A vítima era Bryan Calvin Hartnell, que havia sido esfaqueado 8 vezes por um homem encapuzado à beira de um lago no norte da California. Ao seu lado estava sua namorada, ela morreu depois de ser esfaqueada pelo mesmo homem. Eu fiquei bastante impressionado com a transcrição e me fascinei com a história do Zodíaco, nome pelo qual o assassino se identificava em suas frequentes cartas e ligações à polícia.

O Zodíaco alegou ter assassinado pelo menos 37 pessoas e enviava cartas aos jornais e investigadores contendo enigmas que deveriam ser solucionados para que se soubessem mais detalhes dele. Ele esteve ativo entre os anos de 68 a 74. Chegou-se ao ponto de a lista de suspeitos ter mais de duzentos nomes, entre eles o de Arthur Leigh Allen (o homem da foto abaixo), cujo especialista nos crimes do Zodíaco, Robert Graysmith (interpretado por Jake Gyllenhaal) sempre acreditou ser o maior suspeito dos crimes. De qualquer maneira, a real identidade do Zodíaco nunca foi descoberta. Uma história real definitivamente perturbadora.

Foi com muito entusiasmo que eu descobri que David Fincher, um dos meus diretores favoritos, iria trazer às telas do cinema a história do Zodíaco. Com um roteiro sólido e um elenco brilhante, Zodíaco trouxe trata com o talento e perplexidade necessários para uma narrativa tão complexa.


7. Na Natureza Selvagem (Into The Wild, 2007)
A história de Christopher McCandless me impressionou, a interpretação de Emile Hirsch me surpreendeu, a atuação de Hal Halbroock me emocionou e, acima de tudo, a direção de Sean Penn finalmente me lembrou de o porquê eu gostei tanto de "A Promessa", o único outro filme dirigido por Penn que eu assisti. Penn consegue mostrar a história de McCandless sem parcialidades e demonstra que ela foi um misto de estupidez, ousadia e carência. O filme tem um bom ritmo, é intenso e tem aquela qualidade indispensável às histórias reais: faz você pensar onde você estava quando isso aconteceu e se você poderia fazer o mesmo?


6. Jogos do Poder (Charlie Wilson's War, 2007)
No ínicio, Jogos do Poder não me atraiu sob nenhum aspecto. A tão falada reunião de Tom Hanks e Julia Roberts me parecia estar ocorrendo com um tremendo atraso, ambos longe de seu melhor momento nas carreiras e eu sempre achei que Mike Nichols fosse um cineasta inconstante. O título me sugeriu alguma trama secreta na Casa Branca e o título original (traduzido como "A Guerra de Charlie Wilson") também não ajudou muito. Eu passei a oportunidade de olhar o filme no cinema e quando chegou em DVD, resolvi assistir primeiro ao documentário que falava do Sr. Charlie Wilson, figura real e inacreditável da política americana. Parece irreal, mas nos anos 80 esse congressista do Texas, mais conhecido por suas festas (regadas a cocaína e prostitutas) do que por legislar, foi o responsável, ao lado de uma socialite decadente (Julia Roberts) e um agente secreto preguiçoso (Philip Seymour Hoffman), pela derrota dos soviéticos.

A melhor parte de se tratar de uma história real é a sacada do pôster : "Uma bebida forte. Um pouco de rímel. Um monte de nervos. Quem disse que eles não poderiam derrubar o império soviético. Baseado em uma inacreditável história real. Ou você pensou que poderíamos inventar isso tudo?"


5. A Rainha (The Queen, 2006)
A história de A Rainha nunca me interessou de fato. Não ligo muito para a opinião pública britânica sobre o distânciamento da realeza após a morte da Princesa Diana. Obviamente eu não esperava que Stephen Frears tornasse a história tão interessante. A história da morte de Lady Di sempre teve um grande interesse, mas as tentativas de transformá-la em filme falharam miseravelmente. Frears foi brilhante ao focar o seu interesse no outro lado. O filme se escora em excepcionais atuações: Michael Sheen e James Cromwell tem boas interpretações, mas ninguém rouba o filme de Helen Mirren. A atriz consegue incorporar Elizabeth II com a intensidade necessária, sem deixar que a interpretação se torne uma caricatura. O filme tem um enredo tão voltado à essa magnifica interpretação, que em determinado momento nos sentimos voyeurs ao sabermos as íntimas reações da fámilia real britânica.

4. Munique (Munich, 2005)
Ainda que a maioria das pessoas concorde que a maturidade de Steven Spielberg como cineasta tenha vindo com "A Lista de Schindler", eu acredito que o eterno Peter Pan do seleto grupo de diretores oscarizados só atingiu esse nível em Munique. Mesmo "O Resgate do Soldado Ryan" ainda apresentava uma visão extremamente parcial e rasa dos personagens inimigos, um maniqueísmo que se tornou constante nas obras do diretor. Munique foi critícado por apresentar ações de contra-terrorismo como atos heróicos, mas essa é uma acusação infundada. Spielberg ainda reserva o mesmo tempo limitado para apresentar o 'inimigo", porém as próprias incertezas e erros do grupo de agentes do Mossad deixa claro que em certos aspectos eles estão tão errados quanto aqueles a quem o grupo persegue. Spielberg não chega a justificar a atitude dos integrantes do Setembro Negro, mas deixa que o espectador perceba que os dois grupos, tanto o Mossad quanto os responsáveis pelo ataque terrorista são guiados por percepções estreitas de acontecimentos. Esse nível de maturidade em uma história tão polêmica trouxe uma maior credibilidade a um diretor comumente associado a visões parciais de relatos históricos.

A preciosa e enervante reconstituição do ataque terrorista ao grupo de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972, controla o ínicio eletrizante do filme. Ao contrário do que se esperaria, o filme não perde o ritmo mais tarde. Eric Bana tem o papel da sua vida e Geofrey Rush, Daniel Craig e Ciarán Hinds são os melhores coadjuvantes que um filme de Spielberg já teve.


3. Erin Brockovich - Uma mulher de Talento (Erin Brockovich, 2000)
Quando Erin Brockovich, uma mãe solteira de três filhos, desempregada e sem nenhuma graduação formal em direito, foi a responsável por uma das maiores ações legais da história americana, a sua história começou a chamar a atenção. Aquilo que a princípio poderia ter se tornado um "feel good movie" bem barato, felizmente acabou ganhando as telas em um filme muito inspirado.

Erin Brockovich seria um filme menor se não fosse pela força de Julia Roberts, o tão aguardado Oscar veio à atriz com esse papel, mas a obra fílmica tem seus próprios méritos. Steven Soderbergh viu o amâgo na história da desbocada Erin e transformou isso em uma personagem interessante o suficiente para que a estrela (então experimentando um leve ostracismo) se superasse em uma excelente interpretação. Um elenco de apoio forte contando com Aaron Eckhart e Albert Finney, em uma interpretação inspirada, completam um filme competente e versátil.


2. Vivos! (Alive, 1993)
Ao lado de Naufrágo e As Pontes de Madison esse é um filme que sempre me faz chorar. A história real de um time de rugby uruguaio que caiu na Cordilheira dos Andes e foi obrigado a recorrer ao canibalismo para não morrer é uma história não apenas impressionante, mas altamente emocionante. Eu me pego pensando que se o filme fosse feito hoje em dia teria um tom mais grave e cínico. Acreditem, esse é o único filme que envolve mutilações e canibalismo que pode passar na Sessão da Tarde sem problemas, a história é tratada com um certo ar de otimismo e leveza, mesmo em meio à uma das mais desesperadoras situações imagináveis e isso não é demérito nenhum ao filme. Na verdade, essa característica torna o filme de Frank Marshall muito mais emocionante, como fica evidente na cena final. Tente não chorar ao ver os dois sapatinhos de bebê reunidos.


1. Meu Pé Esquerdo (My Left Foot, 1989)
Meu Pé Esquerdo é um filme muito inteligente, bem conduzido e com um certo ar de "uderdog", mas foi até o Oscar no ano de 90 e fez bonito. Ainda assim, o filme é mais importante do que isso para mim. Foi um filme de "primeiras vezes". Esse foi o primeiro que eu assisti com a minha mãe. É uma lembrança boa. Também foi a primeira vez que eu torci por um herói que não usava capa e espada e, na verdade, tinha uma deficiência e foi a primeira vez que eu prestei atenção na interpretação de um ator. Daniel Day-Lewis mostra sua melhor interpretação e defende seu personagem sem pedir a empatia do público. Um filme único e uma história real.


Ps: É terrivelmente dífícil encontrar um filme baseado em "fatos reais" que não termine em uma série de letreiros do tipo "Fulano de tal se tornou um ...", sempre explicando o que aconteceu mais tarde com os personagens.
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