Parceria

23 de janeiro de 2011

BIUTIFUL (2010)

"Biutiful" era uma estreia bastante aguardada: muitos estavam ansiosos para ver o resultado da parceria entre o ator espanhol Javier Bardem e o diretor mexicano Alejandro Iñárritu (responsável por obras primas como "Babel", "21 Gramas" e um dos meus filmes preferidos, "Amores Brutos").

Cinema lotado, a plateia permaneceu em silêncio durante as duas horas e meia de exibição. A única exceção foi ouvir alguns comentários exaltando o talento do Javier Bardem quando o nome do ator apareceu nos créditos iniciais. Ninguém tinha certeza do que estava por vir, mas nesse ponto eles estavam cobertos de razão.

"Biutiful" não é um filme que você assiste para fugir da realidade... é a realidade nua e crua te encarando a todo instante. Você se sentirá na pele das milhões de pessoas que vivem à margem da sociedade, em todos os lugares do mundo.

Javier Bardem interpreta Uxbal, pai atencioso de duas crianças e morador de um subúrbio em Barcelona. Como se não bastassem as dificuldades do dia-a-dia, Uxbal ainda tem que lidar com o comportamento instável e bipolar de sua mulher Marambra. Ele garante o sustento da família através da economia informal, operando como intermediário para os empresários que exploram o trabalho dos imigrantes ilegais. Além dos seus talentos duvidosos, Uxbal também tem a habilidade psíquica para trocar mensagens entre pessoas recém-falecidas e seus familiares em luto. O estilo de vida caótico de Uxbal reflete sua principal condição - ele se sente preso entre o mundo espiritual e o mundo físico - e ao descobrir que tem câncer em estado terminal, temos a impressão de que o seu corpo está se rebelando contra sua forma de vida conflituosa.

Ao receber a notícia de que tem apenas dois meses de vida, Uxbal começa a procurar por uma pessoa de confiança para cuidar dos seus filhos após sua morte - e "Biutiful" nos mostra o sofrimento que o protagonista passa para colocar sua vida em ordem e cumprir essa missão aparentemente impossível, enquanto novos obstáculos aparecem na sua frente a todo instante. Quem já assistiu ao filme anterior do diretor Iñárritu - "Amores Brutos" - vai se sentir em território familiar ao ver o personagem Uxbal caminhando por um labirinto de ruas perigosas ocupadas por pessoas batalhando pela sobrevivência.

O filme é uma fusão de tristeza, risos, medo, susto, intensidade, e, por mais óbvio que pareça, beleza. A fotografia é um ponto alto: a câmera retrata com precisão o submundo de Barcelona e sua sociedade caótica e marginalizada. Javier Bardem atua de forma brilhante (merecidamente ganhou a o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes); ele consegue fazer o espectador se sentir na pele de Uxbal: à primeira vista um homem aproveitador, mas que, com o passar do tempo, mostra seus valores reais. O roteiro também é notável: assim como nos outros filmes do diretor Iñárritu, acompanhamos a história de diversas pessoas com pontos de vista diferentes e, no decorrer do filme, os caminhos desses personagens se cruzam de forma inacreditável.

A idéia por trás de "Biutiful" é que a vida, mesmo quando estiver arruinada e desiludida, ainda assim pode ser bela. O filme consegue criar um mito moderno - é quase um épico, e possivelmente um dos melhores filmes de 2010.



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