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15 de novembro de 2017

LIGA DA JUSTIÇA (Crítica)

Filme reúne heróis clássicos dos quadrinhos da DC como embrião da Liga da Justiça.
É difícil para mim, com 32 anos de idade, assistir ao longa-metragem da Liga da Justiça, sem fazer associações com todas as influências que eu já tive sobre os heróis da Detective Comics (DC). Desde minha infância, foram histórias em quadrinhos, desenhos animados e filmes do Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman, Lanterna-Verde e da própria Liga da Justiça dos Super-Amigos.

A história está contextualizada no novo universo cinematográfico da DC, que iniciou com Homem de Aço (de 2013), cujos eventos culminaram em Batman VS Superman: A Origem da Justiça (de 2016). Vale lembrar também que está contido neste universo o (péssimo) Esquadrão Suicida (2016). Com tantos problemas de produção, a direção ficou a cargo de Zack Snyder (300, Watchmen) que traz suas características fortes de estética também neste filme. No elenco principal estão Gal Gadot (Mulher-Maravilha), Jason Momoa (Aquaman), Ben Affleck (Batman), Ezra Miller (Flash), Ray Fisher (Cborgue) e Henry Cavill (Superman). O filme conta ainda com participações importantes de estrelas como Amy Adams (Lois Lane), Diane Lane (Martha Kent), Joe Morton (Dr. Silas), J.K. Simmons (Comissário Gordon), Jeremy Irons (Alfred), Ciarán Hinds (Steppen Wolf), entre outros.
Na trama, após a morte de Superman contra o Apocalipse, uma outra força alienígena desperta e percebe que, com a humanidade sem esperança, é a hora de tomar a Terra. O vilão desta vez é o Lobo da Estepe, que busca juntar 3 "caixas-mãe, que lhe darão o poder necessário para destruir a Terra. Para isso, ele junta um exército de "insetos-voadores-humanoides" (os mesmos do "hype" do Batman no filme anterior) que se alimentam de medo (nerds irão reparar que há sempre elementos amarelos junto deles, a energia do Medo, mas ainda sem referência direta à energia da esperança dos Lanterna-Verdes). Para salvar a Terra, Batman busca ajuda da Mulher-Maravilha e tenta encontrar outros "meta-humanos): Arthur Cury, o Aquaman, cujo poder emana do continente perdido de Atlantis e tem poder sobre as águas (ou ele fala com os peixes?); Barry Allen, o Flash, que tem a velocidade de um relâmpago e Victor Stone, Ciborgue, um jovem ressuscitado pela intervenção do próprio pai cientista, que utiliza dos poderes de uma das caixas-mãe ranformando-o numa máquina que pode se conectar a toda as redes, aparelhos eletrônicos e tem conhecimento de linguagem alienígena.

Mas o Superman não tinha morrido? Como é que ele aparece nos créditos? Bem, quem é novo nisso deve entender que Super-Heróis da DC (quase) nunca ficam mortos para sempre. Impossível fugir do spoiler aqui, mas resumidamente, Batman encontra um jeito de ressuscitar seu super-amigo para juntos lutarem pela Terra novamente.

Aqui faço minha primeira crítica ao filme. O método para trazer o Superman de volta à vida foi, tecnicamente muito simples... Não há falhas no roteiro, tudo fica bem explicado, mas é pobre na dramaticidade. Particularmente, ao ver fotos de Henry Cavill de barba nos sets de filmagem, eu esperava que tivesse algum tipo de exílio dele, para que voltasse mais forte, mas não... ele passa por certa perturbação, mas ao ver Lois Lane, o amor de sua vida, rapidamente volta a ser o bom e velho Clark Kent.

Além disso, outra situação que me incomodou um bocado sobre Henry Cavill foi o efeito visual para tirar o seu bigode digitalmente. Durante as gravações de Liga da Justiça, Cavill mantinha um contrato que o impedia de raspar o bigode para Missão: Impossível 6. Assim, o jeito foi "raspar" digitalmente, o que não ficou bom... estava claro que algo estava "errado" na cara dele.
Fora isso, o filme funciona bem, com humor na dose certa, sem forçar a barra. A exemplo da Marvel, optaram por deixar os ganchos das sequências nas cenas finais (deve vir aí algo do tipo Liga da Injustiça).

Sobre os demais personagens, são tão significativos na cultura pop, que é quase impossível alguém mesmo fazer algo novo sem associar as clássicas produções de desenho e série dos anos 60, 70 e filmes nos anos 80. Os próprios roteiristas bebem nessa fonte certamente ao criar referências para as piadas no filme, como quando Batman faz referências a 'pinguins amarrados com bombas' como uma "era mais simples". O destaque do humor fica no Flash, usado como um jovem adulto, ainda meio adolescente, como a Marvel sabiamente sou fazer com Spiderman. Batman é o Líder deste grupo, mas sabe que somente Superman pode trazer esperança novamente à humanidade. Mulher-Maravilha é a força incansável, ainda com medo de assumir seus poderes e liderar junto por traumas do passado. Aquaman interpretado por Momoa dá um ar diferenciado daquele patético herói que ninguém queria ser na infância; agora ele é forte, destemido, e um anti-herói, que prefere viver sozinho (é quem tem menor participação na trama). Quem ganhou bastante importância foi Ciborgue, pela suas capacidades técnicas, muito mais do que por sua personalidade de jovem adulto, tentando descobrir seu papel neste novo mundo.

A trilha sonora leva a assinatura de Danny Elfman, mas traz elementos da trilhas que Hans Zimmer criou para os filmes anteriores. Ela funciona muito bem e, para mim, ficou muito clara a utilização sutil de elementos dos icônicos temas do Superman clássico de 1978, de John Williams e do Batman de 1989, do próprio Elfman. Ambas foram usadas como leitmotiv, nas entradas de Superman e Bataman, respctivamente, na principal cena de ação. É mais um elemento na tentativa quase certeira de Zack Snyder dar um tom de "épico" ao filme, como vem sendo trabalhado nos filmes anteriores.

Em suma, o filme é bom, tem ritmo, não é cansativo e tem boa dose de humor. Além disso, abre um leque para novas possibilidades dentro do universo DC. Podemos aguardar certamente novos filmes solos de cada herói e vilão que aparece no filme, bem como uma retomada de outros heróis clássicos como Lanterna-Verde e, quem sabe, Gavião-Negro, Mulher-Gavião, Arqueiro-Verde, Capitão Marvel, Caçador de Marte, entre outros.

Vejam o trailer abaixo.

9 de novembro de 2017

Thor - Ragnarok

Se há uma crítica da qual a Marvel Estúdio sempre sofre é pelo fato deles sempre inserirem piadinhas que, por vezes, surgem na hora errada. Não importa o que aconteça, mesmo quando alguém da trama morre, pois a piada sempre estará lá engatilhada para amenizar o clima pesado, mas que acaba soando meio que inverossímil. Talvez o estúdio tenha percebido que a fórmula esteja um tanto que desgastada e decidiu virar a mesa em Thor Ragnarok, do qual o filme não possui somente algumas piadas, pois o filme já é uma grande piada e das boas.
Dirigido por Taika Waititi (O que Fazemos nas Sombras), o filme se passa tempos depois de Vingadores: A Era de Ultron, onde Thor (Chris Hemsworth) decide viajar pelo universo em busca pelas joias do infinito que restam. Durante o trajeto, acaba descobrindo que Asgard sofrerá o Ragnarok, o apocalipse dos deuses nórdicos. Embora tente evitar que esse dia chegue, Thor acaba dando de encontro com a sua diabólica irmã Hela (Kate Blanchett) que o envia para outro planeta e acaba sendo forçado a participar de uma luta de gladiadores.
Depois de um razoável Thor e um bom Thor: O Mundo Sombrio parece que a Marvel finalmente conseguiu achar o tom certo para o seu personagem, mas que vai contra tudo o que muitos fãs das antigas imaginavam. Sai o tom sério disfarçado com algumas piadas e dando lugar a mais pura comédia, embalado com um visual colorido bem ao estilo anos 80 (sempre eles) e com uma música eletrônica que relembra os bons tempos daquela época. É como se estivéssemos vendo o filme cult Flash Gordon daquele tempo, mas com um orçamento mais inflado e que não perde tempo em levar a sério o enredo em nenhum momento.
Tendo ganhado prestigio por onde passou com o seu filme O que Fazemos nas Sombras, Taika Waititi parecia à escolha mais improvável para dirigir um filme como esse. Porém, após terem tido bons resultados como, por exemplo, Guardiões das Galáxias de James Gunn, o estúdio percebeu que era válido arriscar e dando então mais  liberdade criativa para que os seus cineastas fizessem o que bem entenderem.  Com isso, se percebe que Taika Waititi usou e abusou do filme como um todo, como se tivesse aberto uma caixa cheia de brinquedos e tendo brincado com eles nas mais diferentes maneiras.
Embora o filme mantenha a velha interligação com o restante dos filmes na Marvel, é notório que muito que é mostrado no filme não aparecerá em outros projetos futuramente, pois é algo que funciona somente aqui e nas mãos desse cineasta. Ver o Thor fazendo piada em larga escala em meio a lutas, correria e efeitos visuais é algo absurdamente divertido e surreal. Porém, o filme se casa bem nos momentos mais dramáticos, principalmente aqueles protagonizados pela vilã Hela, onde Kate Blanchett consegue criar com o seu grande talento uma das melhores vilãs do estúdio até aqui.
Falando em vilões, se Loki (Tom Hiddleston) finalmente assume a sua posição como anti-herói (algo que os fãs queriam desde sempre), Grandmaster (Jeff Goldblum, ótimo), sendo o líder do mundo estranho do qual Thor acaba preso, acaba se tornando uma nova ameaça além de Hela, mas de uma forma divertida e muito megalomaníaca. Já na ala de aliados, Valkyrie (Tessa Thompson de Creed) acaba sendo uma grata surpresa. Durona, beberrona e revoltada, Valkryire é a típica heroína que as meninas feministas irão adorar, pois ela possui uma personalidade forte e uma presença que sempre rouba a cena quando surge.
Mas nada, repito nada supera as divertidíssimas cenas entre Thor e Hulk (Mark Ruffalo). Após uma divertida desavença entre os dois na arena de gladiadores, ambos os personagens se unem e nos brindando com momentos hilários, divertidos e até mesmo com piadas com um teor mais adulto. Aliás, é a primeira vez que testemunhamos no cinema o Hulk falar pela terceira pessoa e que com certeza irá alegrar os fãs mais antigos.
Com uma hilária participação especial de Benedict Cumberbatch como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok é uma piada pronta do começo ao fim, mas de uma forma deliciosa ao ser degustada e muito bem vinda. 

19 de outubro de 2017

Detroit em Rebelião



Primeira diretora da história ao ganhar um Oscar de melhor direção, Kathryn Bigelow provou que tinha mão firme na realização de filmes sobre as guerras, mas dos quais possuía certo grau de crítica sobre os conflitos. Títulos como Guerra ao Terror e A Noite Mais Escura são exemplos de um retrato cru de soldados americanos que, ou eram jogados numa guerra que não era deles, ou sendo encarregados de procurar e exterminar apenas um homem. Em tempos atuais, em que o retrocesso comandando por um conservadorismo assombra o mundo, Kathryn Bigelow decide revisitar o passado em Detroit em Rebelião, cuja trama ecoa de uma maneira forte e desconcertante em nosso presente.
A trama se passa no ano de 1967 na cidade de Detroit, num período que o preconceito racial ainda era muito forte. Após uma batida policial num bar clandestino, a comunidade negra se revolta com as autoridades inconsequentes e se criando então uma verdadeira rebelião por toda a cidade. Não demora muito para que esse conflito gere uma verdadeira guerra civil local e com inúmeras perdas.
Na virada dos anos 60 para os 70, aconteceu uma luta sem precedentes pelos direitos civis, onde a comunidade negra lutou como nunca para conseguir o seu lugar ao sol. Ao mesmo tempo os EUA estavam sendo derrotados na guerra do Vietnã e dando sinais que a corrupção política estava cada vez mais afetando os cidadãos da época. Numa época em que á crise e a baixa auto estima faziam nascer o pior do homem, sobrava para pessoas inocentes sentirem na pele o veneno vindo da intolerância.
Em sua primeira meia hora de projeção, Kathryn Bigelow retrata o americano derrotado, revoltado e imprudente. A cineasta faz então questão de retratar essa panela de pressão naqueles dias, onde vemos soldados paranoicos e afetados pelo que viram no outro lado do mundo, começar a descontar em pessoas inocentes e que não tiveram nada a ver com relação ao nascimento desse conflito em Detroit. Ao mesmo tempo, testemunhamos policiais já convivendo nesse dia a dia da cidade, mas não sabendo administrar suas próprias ações e gerando um terror psicológico sem fim.
Mesclando cenas filmadas com cenas verídicas da época, Kathryn Bigelow busca ao máximo um grau de verossimilhança em sua reconstituição de época. Assim como Guerra ao Terror, sua câmera treme, seguindo os seus personagens principais para não perder o foco e fazendo a gente testemunhar o pesadelo dos quais eles irão encarar. Ao reconstituir inúmeros fatos ocorridos na época, à cineasta cria então subtramas e das quais cada uma delas irão dar de encontro num motel e tornando o cenário num verdadeiro inferno.
Ao chegarmos a esse ponto, Kathryn Bigelow faz questão de criar planos fechados, com o desejo para que possamos sentir a tensão e medo do qual os personagens estão sentindo num espaço tão pequeno. Todo esse cenário de horror é comandado pelo policial Krauss (Will Poulter, de O Regresso), que acredita que o que está fazendo é o certo para conter a violência, mas usando métodos imprudentes e levando a todos para um caminho sem volta. No mesmo local conhecemos o policial Dismukes (John Boyega, de Star Wars: O Despertar da Força), que tenta a todo custo ajudar os seus irmãos da comunidade, mas ao mesmo tempo não querendo entrar em conflito com os demais policiais.
Ambos são dois lados distintos do conflito, sendo que um é inconsequente, movido pelo racismo e outro é movido pelo coração, mas tendo medo da retaliação. Em comum, ambos querem fazer o necessário para cessar o conflito, mas tendo as suas visões nubladas pelo preconceito, medo e a violência que acabam moldando as suas ações. O resultado é a perda da vida de inocentes, em uma situação que poderia ser amenizada através do dialogo, mas que passou muito longe desse cenário.
Com a participação de atores como Anthony Mackie (Capitão América: Guerra Civil) e Tyler James Williams (Todo Mundo odeia o Cris), Detroit em Rebelião é um filme que veio na hora certa para nos servir de alerta, pois vivemos numa realidade em que o fantasma do conservadorismo e da intolerância de um passado vem cada vez mais nos assombrando e ameaçando o nosso futuro.

11 de outubro de 2017

Blade Runner 2049


No último mês de setembro eu havia participado em Porto Alegre do curso de cinema “Filmes e Sonhos”, criado pelo Cine Um e ministrado pelo Psicanalista Leonardo Della Pasqua. Na atividade foi debatido sobre os simbolismos incrementados em diversos filmes, cujo foco principal dessas obras eram os sonhos, sendo que muitos eram inspirados nas teorias do pai da psicanálise Sigmund Freud. Para o psicanalista, os sonhos seriam, por exemplo, a manifestação dos desejos reprimidos e dos quais se manifestam quando as pessoas estão dormindo.

Pegamos de exemplo o filme “Sonho” de Akira Kurosawa e do qual foi analisado durante atividade. No começo do filme, vemos uma criança, da qual está presenciando um ritual com pessoas andando com máscaras de raposa, mas tendo todo o cuidado para não ser visto por elas. Para o psicanalista, a cena seria uma representação de uma criança que observou os seus pais fazendo sexo, mas temendo que fosse pego durante o ato.

Pensando dessa forma, chego a uma hipótese sobre uma enigmática cena do clássico Blade Runner de 1982. Numa passagem do filme o caçador de androide Rick Deckard (Harrison Ford) está sonhando acordado e presenciando a chegada de um unicórnio em sua direção. O unicórnio em si poderia ser uma representação do impossível, já que, até onde nós sabemos, não há provas de que tal animal realmente tenha existido.

A imagem do unicórnio seria então uma representação do desejo do qual Deckard teria pela personagem Rachel (Sean Young), mas que, no fundo, acredita que a união deles seria algo impossível, já que ele (aparentemente) é humano, mas ela é uma replicante. Já nas mãos do cineasta Dennis Villeneuve esses simbolismos continuam intactos no filme Blade Runner 2049, mas havendo uma mudança nessa transição e transformando, então, a imagem do mito em algo possível. A imagem do unicórnio dá lugar a um pequeno cavalo de madeira e simboliza o sonho se tornando realidade.

O cineasta canadense Dennis Villeneuve construiu uma carreira ao explorar os significados de símbolos, lembranças e sonhos dentro dos seus filmes. Em Incêndios (Incendies, 2010), por exemplo, vemos uma mãe em busca do seu filho através de lembranças, do qual havia perdido durante a guerra, mas caindo em coma a partir do momento em que testemunhou uma imagem estarrecedora e simbólica. Em A Chegada (Arrival, 2016), vemos a personagem de Amy Adams usando todos os seus recursos para se comunicar com extraterrestres através de símbolos, mas sendo testemunha de sonhos e lembranças dos quais se tornam peças fundamentais para trama.

Olhando para trás se percebe então que Villeneuve insere tudo que ele havia criado em seus filmes anteriores em Blade Runner 2049. O resultado não é apenas uma mera sequência de franquia, mas sim uma continuidade a tudo que Ridley Scott havia construído no filme original. Porém, Villeneuve vai muito além, ao criar para o filme uma identidade própria, uma alma, que caminha de forma independente e poética.

O filme original, contudo, se faz presente a cada momento da trama, se tornando uma velha lembrança que ecoa no presente de tal forma que não pode ser esquecida. Aliás, sonhos e lembranças são elementos que moldam o filme como um todo, como se fossem peças fundamentais de um tabuleiro para que o novo caçador de androides K (Ryan Gosling) busque a sua verdadeira origem. A lembrança de uma simples figura já citada do cavalo de madeira, por exemplo, se torna um bem precioso, pois é nela que K mantém a sua "humanidade" ainda intacta.

Aliás, a busca pela humanidade é o que move os personagens centrais, sejam eles humanos ou não. Portanto é fácil nos emocionarmos com a trágica personagem Joi (Ana Armas), que é uma inteligência artificial holográfica, mas que ama como um todo K. Uma passagem do filme, aliás, ecoa o filme ELA de SpIke Jones, já que esse momento é uma extensão até mesmo melhorada da proposta principal da qual havia sido apresentada naquele filme.


Falando em melhoramento, novamente o compositor Hans Zimmer (elogiado pelo seu último trabalho em Dunkirk de Christopher Nolan) dá um verdadeiro show na criação da trilha sonora para esse filme. Não que seja superior a obra prima criada pelo compositor Vangelis para o filme original, mas Zimmer a molda para representar, não somente os sentimentos dos personagens em determinada cena, como também sintetiza os momentos de pura tensão da trama. Quando esses momentos acontecem, a sua trilha sonora explode, como se o compositor quisesse que prestássemos atenção a cada cena crucial apresentada na tela.

Visualmente o filme é arrebatador, fazendo com que reconheçamos aquele universo familiar aos nossos olhos, mas moldado de uma forma que nos passasse uma sensação de passagem do tempo. Roger Deakins cria uma fotografia soberba, da qual luz e sombras andam de mãos dadas, como se a morte estivesse sempre à espreita, mas a luz sempre dando um sinal de esperança. Não me admira, portanto se ele venha a subir ao palco no Oscar 2018 e ganhar o seu merecido Oscar pelo seu magnífico trabalho.

Mas todo esse cuidado técnico não seria nada se o filme não nos emocionasse, mas nisso Dennis Villeneuve nos dá, principalmente para aqueles que amam cada passagem do filme original. Como eu já disse anteriormente, o filme funciona independente de sua fonte original, mas quando essa última cena surge, nossas mãos se apertam forte na cadeira, pois entramos em um terreno do qual se exige uma lágrima. Ao vermos um velho Deckard (Harrison Ford, ótimo) testemunhar uma sombra vinda de um passado mais dourado, a frase “ela tinha olhos verdes”, irá encravar em nossas memórias por um bom tempo.

Ao adentrarmos em seu ato final, testemunhamos os protagonistas se encaminhando para os seus destinos, mas cada um tendo a consciência que conseguiram preservar o seu bem mais precioso que é a sua própria humanidade. Uma vez realizando esse sonho, a figura do unicórnio representando o impossível se esvaí por completo, dando lugar a figura de um pequeno cavalo de madeira que simboliza o verdadeiro milagre do qual todos nós conseguimos obter em vida. Mesmo não estando presente, as palavras do replicante Roy (Rutger Hauer) do filme original fazem ainda mais sentido, ecoando em nossas mentes e selando então a trama de uma forma esperançosa e encantadora.

Com a participação de grandes talentos como Jared Leto e Robin Wright, Blade Runner 2049 é um filme sobre nós, sobre a preservação do que nos faz realmente humanos e na busca pelos sonhos que podem ser realizados.

21 de setembro de 2017

IT: A COISA (2017) - Crítica

Quem nos prestigia com sua visão sobre a nova adptação de It: A Coisa, de Stephen King é a amiga  e Conselheira Literária, Gabriela Cerqueira. Conheça mais sobre o trabalho da Gabi, no seu blog - http://www.conselheiraliteraria.com/.

IT: uma obra-prima do medo da nova geração

O ano era 1992. Eu tinha 6 anos e 6 anos de diferença da minha irmã mais velha, fanática por filmes de terror. Tal como George com Bill, ela era minha heroína. Mas diferente do Bill ela não me deu um barco de papel naquelas férias; ela deixou eu participar do seu principal hobby: assistir filmes de terror. Foi assim que vi “IT – uma obra-prima do medo (1990)” e tive a maior experiência de pavor da minha vida. Porque o que eu mais temia eram palhaços e balões. Mal sabia que os nascidos de 1986 teriam motivos para isso: o livro de Stephen King foi lançado nesse ano. E eis que tal como a obra do mestre da literatura de terror e suspense, IT retornou para atormentar a minha geração e fazer uma nova de vítima. Então, vamos falar sobre a nova versão, IT – A coisa (2017).
A estreia no país foi no feriado de 7 de setembro e causou grande expectativa no público. Muitos foram os atrativos. A editora Suma das Letras promoveu leitura coletiva da sua edição do livro. E com o ator Finn Wolfhard no elenco, não houve dúvidas de que assim como Stranger Things bebe da fonte de King, o filme traria, e trouxe, muito do ar da série, apesar dos diretores dela terem sido rejeitados para produzir o longa. Porém, algo quase abalou o filme, que foi a caracterização do palhaço. Afinal, porque tão diferente do palhaço do thriller de 1990, que até hoje causa desvios de olhar e falência de circos (exageeero, mas se dependesse de mim)? Isso a equipe da página Adoro Cinema esclareceu divulgando entrevista do diretor, Dan Lin, que preferiu trazer referências dos palhaços do século XIX, já que “a coisa” é referenciada na obra como existente desde a fundação da cidade de Derri, no Estado do Maine (EUA, e faço questão de citar a cidade e Estado porque permeiam as obras de King).

Vamos às impressões sobre o filme. Assisti a versão anterior e fui para o cinema sozinha porque pessoas medrosas têm amigos medrosos. Pedi a poltrona N11 e a balconista me transmitiu um olhar de palhaço, eu senti, mas pode ter sido só a reação de ter ido com cenas de IT 90’s na cabeça. Cheguei com minha pipoca na fila e minha poltrona foi marcada como E11, a do meio na primeira fileira. Não fosse a pipoca eu teria ido embora, realmente teria, AH! SE TERIA! Mas posso afirmar para vocês que se ainda não foram assistir ao filme, sentem no meio na primeira fileira. Fez toda a diferença para a recepção da trama. Porque o filme trabalha bem o periférico, o 'procurar antes do personagem' de onde virá o perigo. 

O clube dos otários é o centro, composto por 7 crianças da cidade de Derri, e aqui senti um jogo de agradar fãs antigos sem deixar novos expectadores sem novidade. It é um medo difuso, assume a forma que irá apavorar mais suas vítimas para as prender pelo seu pavor, e cada personagem do clube dos otários tem seu momento de a coisa, só que nem todas as cenas são iguais. Para não fazer uma enxurrada de spoiler, vou me prender ao personagem de Ricthie Tozier (Finn Wolfhard, e sim sou fã nº 1 de Stranger Things), que no 90’s tem seu medo concretizado em um lobo, e no 2017’s tem o medo mais icônico: palhaços (bate aqui!). O foco também muda, enquanto no primeiro longa Mike é responsável pela parte nerd de entender o que acontece com Derri, na nova versão essa missão cabe a Ben. Independente das mudanças, as cenas de terror causam grande impacto, intercaladas com a trama envolvendo lealdade e empatia entre amigos. Isso é marcante nas obras do King, pois há sempre uma história bem desenvolvida que poderia facilmente ter o elemento de terror retirado. IT já seria uma ótima história se retratasse apenas o clube dos otários.

Agora vamos ao principal: Pennywise, o palhaço. Apesar de ter lógica a opção do diretor de mudar a caracterização do palhaço, o que possibilitava a aproximação dele com as crianças era ele ser um palhaço comum, com trajes atuais. Alguém em sã consciência conversaria com o novo Pennywise? É achar que o pobre George com sua capinha de chuva amarela é o presidente do clube dos otários! Os efeitos especiais sempre presentes no olhar do novo IT trouxe a impressão de algo surreal demais, que já traria desconfiança de qualquer pessoa, o suficiente para sair correndo, flutuando, o que quer que fosse possível!
Por fim, cabe lembrar que o primeiro filme retrata todo o livro, e começa com os personagens já adultos. No novo, temos uma franquia com a sua primeira parte destinada a desenvolver a infância dos personagens. Porém, a intenção foi essa mas não acho que tenha alcançado o objetivo, já que principalmente em relação a Ben é tudo muito confuso, enquanto no filme anterior é possível entender bem cada personagem.

De qualquer modo, o filme é uma nova obra-prima do medo. Saí igualmente apavorada, embora não ter mais 6 anos de idade e ter um gato como companhia (principalmente) tenha me ajudado a dormir. Recomendo que assistam e caso não tenham visto o primeiro filme terão gratas novas impressões. Sim, meu amigo, YOUR GENERATION WILL FLOAT TOO!

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