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25 de maio de 2017

CORRA!

Quando se é bem feito, o gênero de horror é um território fértil de boas histórias, onde se tem a possibilidade de se criar uma trama da qual se torne um reflexo sobre a nossa realidade contemporânea. Em tempos incertos, onde um conversador como Trump está no posto mais poderoso do mundo, o cinema se encarrega de lançar obras das quais nos fazem debater sobre os poderosos que nos governam e sobre o papel daqueles que são perseguidos pelo preconceito sem sentido. Mais do que uma obra de terror sobre o racismo em pleno século 21, Corra! é uma metáfora crítica sobre a nosso mundo alienado e cada vez mais absorvido por uma realidade plástica do qual os meios de comunicação tentam nos vender no dia a dia.
Dirigido pelo estreante Jordan Peele, o filme acompanha a ida do casal Cris (Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams) à casa dos pais dessa última e para que eles então possam conhecer Cris. Aos estarem na residência, os pais de Rose se comportam de uma forma meio peculiar com o Cris pelo fato dele ser negro. A situação fica cada vez mais mórbida no momento que Cris se dá conta que os empregados do casal agem de uma forma peculiar e sarcástica, como se não vivessem exatamente na realidade dos quais eles se encontram.
Falar mais seria igual a estragar as inúmeras surpresas que o filme nos reserva, principalmente pelo fato de ser uma obra da qual ela é mais bem compreendida após uma segunda sessão e o que torna a experiência cinematográfica cada vez mais interessante. Bebendo da fonte dos mestres do suspense como Alfred Hitchcock, por exemplo, o cineasta Jordan Peele fez bem a sua lição de casa, ao criar uma trama da qual nos identificamos, mesmo quando sua obra foge de uma verossimilhança da qual havia injetado em sua primeira meia hora de projeção. Curiosamente, o filme parece um grande episódio da já cultuada série Black Mirror e essas sensações aumentam ainda mais principalmente pela presença do ator Daniel Kaluuya (visto no segundo episódio da série) que aqui se apresenta como a verdadeira força matriz do filme.
Na trama, o seu personagem Cris é alguém desconfiado perante o mundo em sua volta, como se a perfeição fosse apenas uma cortina da qual esconde uma realidade crua e que vive tentando escapar dela. Essa sensação somente piora no momento em que ele se encontra naquele local misterioso, onde a normalidade e a perfeição se tornam estranhas e até mesmo amedrontadoras. Quando então conhecemos um pouco sobre o seu passado, percebemos que Cris é vitima desde o princípio, não pela possibilidade de ter sofrido o preconceito racial, mas por ter sido absorvido por um determinado meio de comunicação que o deixou adormecido em um momento crucial de sua vida e que o marcou para sempre.
Ponto para o cineasta Jordan Peele, ao conseguir criar um momento simbólico, onde uma simples figura familiar de nosso dia a dia se torna então uma figura maléfica e opressora. Os simbolismos apresentados então no filme se casam com perfeição com a ambigüidade vinda dos personagens daquele local, onde não deixam de escancarar um desejo de curiosidade por Cris, como se ele estivesse numa jaula sendo estudado e para logo depois ser colocado numa prova de choque. Esse cenário é todo moldado pelos pais de Rose (Catherine Keener e Bradley Whitford, ótimos em cena), cujo comportamento de ambos só não é mais estranho graças à presença de outros personagens negros do local, dos quais se comportam como se estivessem deslocados dessa realidade, absorvidos em um tempo retrógrado e já muito esquecidos.
Uma vez que aquela realidade já não faz nenhum sentido, é então que Cris toma uma providência e o que acaba descobrindo o que realmente se passa no local. É então que o filme, surpreendentemente, se encaminha por um território familiar para os fanáticos pelos filmes de terror de antigamente, mas que poderia soar ridículo e sem nenhum sentido nos dias d hoje. Felizmente, a proposta principal do filme fica intacta, mesmo quando o roteiro ameaça se enveredar para o absurdo ou para soluções fáceis e fechando a obra de uma forma que a gente saia da sessão com o desejo de debatermos sobre o que assistimos.
Com a proeza de ter até mesmo algumas boas pitadas de humor, CORRA! nos surpreende pela sua originalidade, mas ao mesmo tempo, sabendo usar velhas fórmulas de sucesso para se criar um belo filme de terror contemporâneo.  
 

23 de maio de 2017

Alien: Covenant

Quando o cineasta Ridley Scott criou o projeto Prometheus, ele não somente queria lançar uma luz sobre os eventos que acontecem antes do clássico Alien: 8º Passageiro, como também explorar a possibilidade dos seres humanos terem sido criados por extraterrestres. Porém, o filme dividiu a opinião do público e da crítica, pois lançou mais perguntas do que respostas e dando a entender que elas somente iriam ser respondidas numa eventual sequência. Chega então Alien: Covenant, que, aparentemente, era para dar continuidade e enlaçar as pontas soltas dos eventos vistos no filme anterior, mas não é bem isso que acontece.
Novamente dirigido pelo cineasta, acompanhamos a missão dos tripulantes da Covenant, cuja missão é transportar duas mil pessoas para um novo mundo e assim habitá-lo. Porém, após um desastre que quase vitimou toda a tripulação, eles são colocados em nova rota pela galáxia e dando de encontro com um novo planeta do qual mais parece um paraíso. Porém, ao chegarem ao local, irão se dar conta que o paraíso pode ser até mesmo pior do que o próprio inferno.
Antes desses eventos citados acima, o filme começa com um prólogo engenhoso, onde ele enlaça esse filme com o anterior, mas ao mesmo tempo, explorando embate do criador com a criatura. É nessa cena que assistimos os primeiros passos do androide David (Michael Fassbender, espetacular), do qual começa a dialogar e a discordar de pensamentos vindos do seu criador Peter Weyland (Guy Pearce), e fazendo desse embate uma salada de referências, que vai desde a uma simples comparação ao conto de Frankenstein, como também sobre o papel de Deus na vida do homem. Por meio desses pensamentos, podemos enxergar David como uma espécie de referência ao anjo Lúcifer, sendo o primeiro e mais belo anjo do céu, mas que desafiou o seu próprio criador, desejando destruir o paraíso e sendo condenado então ao inferno.
Com todas essas referências, tanto vindas da literatura como também da própria bíblia, é uma pena então que Scott prefira logo se concentrar em tentar ligar esse longa metragem ao clássico de 1979, sendo que até mesmo a trilha sonora daquele filme ecoa em muitos momentos aqui. Com essa preocupação em querer nos lembrar que, tanto o primeiro Alien, como também do recente Prometheus são ligados a esse novo capítulo, o filme acaba perdendo um pouco de sua identidade própria, mesmo quando o cineasta tenta fazer algo de original no decorrer de mais de duas horas de projeção. Contudo, uma vez que os personagens colocam os pés no planeta, já temos uma idéia sobre o que vira em seguida, o que acaba soando previsível.
Mas se há previsibilidade sobre o que irá acontecer, Ridley Scott consegue ao menos injetar boas doses de tensão nesses momentos que nos soam familiares, mas bem dirigidos e de uma forma da qual nos passe algo novo. A primeira aparição da criatura (numa forma inédita), por exemplo, é desde já o momento mais sinistro e angustiante do filme. É uma pena portanto que ao decorrer do filme não haja cena que supere esse momento e ponto chave da trama.
E se muitos ainda tinham esperanças de que o filme pudesse responder as inúmeras perguntas das quais ficaram no ar no longa metragem anterior, Ridley Scott faz questão de destruir elas numa única tacada só, numa cena emblemática e cheia de prepotência. No meu entendimento, Scott não gostou de nenhuma das críticas que sofreu ao lançar Prometheus, decidindo então pulverizar qualquer possibilidade de nascimento de uma nova teoria e construindo a partir disso tudo do zero. Com isso, o cineasta novamente se concentra na velha história do criador e criatura, dando continuidade ao prólogo do filme e armando o palco para a primeira aparição do Alien do qual nós conhecemos.
É nesse ponto que o cineasta concentra todas as suas fichas no desempenho de Michael Fassbender, sendo que aqui ele interpreta tanto o já conhecido androide David, como também o androide Walter e que veio junto com a nave Covenant. Fassbender dá um verdadeiro show de interpretação, pois tanto David como Walter, embora idênticos, possuem personalidades distintas e Alien: Covenant  o que desencadeia um debate acalorado sobre o papel de ambos em meios aos homens que os criaram. Se antes as motivações de David poderiam ser comparadas ao do próprio Lúcifer, aqui essa comparação se torna ainda mais explicita, pois é neste ponto que a trama lembra até mesmo o poema de Paraíso Perdido, de John Milton, onde o texto explora a história cristã sobre a expulsão de Lúcifer do Jardim do Éden.
Mas se o desempenho de Fassbender é o que dá gás ao filme, por outro lado, isso faz com que a maioria do elenco se torne opaco mesmo com todo o esforço de cada um deles em cena. Nem mesmo o esforço de Katherine Waterston (Animais Fantásticos) dá bom resultado, pois a sua transição de mulher guerreira contra o Alien soa meio que inverossímil. Isso faz então com que a ausência da personagem Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) de Prometheus seja ainda mais sentida, sendo que o seu desaparecimento é explicado, mas sendo algo que poderia ter sido facilmente evitado.
Com um final do qual dá entender que teremos mais um capítulo adiante, Alien: Covenant é aquele tipo de filme que irá fazer surgir alguns adoradores, como também muitos detratores, mas que somente o tempo é o que irá julgá-lo da forma como ele merece.  
 

5 de maio de 2017

Guardiões da Galáxia Vol. 2



O primeiro Guardiões da Galáxia (2014) foi uma inesperada surpresa para todos que seguem o universo Marvel no cinema. Visto com desconfiança pela maioria na época, o filme estreou com sucesso de público, crítica, ganhando status de até mesmo de culto, pois o filme presta uma bela homenagem para aqueles que cresceram nos coloridos anos 80, através de um visual meio retro, com uma trilha sonora nostálgica e caprichada. Tudo que funcionou no primeiro filme retorna em dobro nessa segunda parte e com direito de até mesmo superar o seu antecessor em alguns quesitos.
Novamente dirigido por James Gunn, o filme começa com a equipe participando de uma importante missão em defesa da Galáxia, mas ao mesmo tempo, ganhando uns trocados em algumas trapaças. Após as desavenças com os últimos contratantes chamados de Soberanos, a equipe se vê presa num planeta cheio de vida, porém misterioso. No local, Peter Quill finalmente conhece o seu pai chamado Ego (Kurt Russel, no seu melhor momento na carreira em anos) e que desvenda a ele a sua real natureza alienígena.
Mais do que uma continuação, o filme dá espaço para um desenvolvimento melhor aos seus personagens. Se no filme original mostrava personagens desajustados, mas forçados a se unirem por um bem maior, aqui o que pesa é como se encaixa a palavra “família” em meio a personagens tão complexos e distintos. Cabe então o roteiro nos brindar com momentos de altas doses de reflexão dos quais os personagens passam, mas sempre dosados com mais singelo humor Marvel, mas sem cair no lado pretensioso do qual o estúdio em algumas ocasiões falha.
Diferente dos seus filmes irmãos, dos quais vivem sempre na preocupação com relação à interligação de um filme para outro, a história de Guardiões da Galáxia vive bem e independente do outro lado da galáxia, mesmo quando surge no decorrer do filme eventos e personagens que ligam esse universo vasto do estúdio. Outro ponto a favor é do filme não se prender a inúmeras tramas, mas sim numa única, onde ocorre no planeta que é o lar do pai de Peter Quill. Aliás, é preciso tirar o chapéu quando o filme apresenta no início do filme um Kurt Russel jovem no início dos anos 80, mas graças aos mirabolantes efeitos especiais de hoje e provando que não há mais limites entre cenas reais e montadas pelo CGI.
Embora o filme extrapole um pouco em alguns momentos cheios de efeitos visuais, é no lado humano que fala mais alto na trama, com o direito de até mesmo alguns personagens secundários do filme anterior terem aqui maior relevância. Bom exemplo é a personagem Nebulosa (Karen Gillan) que, se no filme anterior ela era uma personagem dispensável, aqui ela ganha profundidade melhor trabalhada ao que se refere em sua relação com a sua irmã Gamora (Zoe Saldana) e sobre a difícil infância de ambas criadas pelo vilão Thanos. Mas é o saqueador Yondu (Michael Rooker) que ganha uma participação maior, extraordinária e sua ligação quase paternal com Peter Quill cresce no decorrer da trama e nos brindando com os momentos mais emocionantes do filme.
Mas o que todos lembram com maior carinho com relação ao filme anterior era sua trilha sonora e aqui ela retorna com toda força. Mais do que embalar os momentos de ação e humor, as musicas apresentadas aqui servem para se casar com a proposta principal de algumas passagens do filme. Com isso, as músicas de nomes como Fleetwood Mac, Sam Cooke, George Harrison, Looking Glass, Cat Stevens, dentre outros, embalam cada momento do filme e fazendo a gente cantarolar e se mover a todo o momento na poltrona durante a sessão.
Com a participação ilustre de Sylvester Stallone interpretando o saqueador Stakar Ogord (provavelmente o veremos num futuro filme da Marvel), Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um filme para toda a família, principalmente pelo fato que essa palavra é o que dá gás e alma ao filme como um todo.

20 de abril de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017) - Crítica


O longa de animação japonês Ghost in the Shell (traduzido por aqui como Fantasma do Futuro) de 1995, dirigido Mamoru Oshii e escrito por Kazunori Itô e Masamune Shirow foi um filme à frente do seu tempo, pois a obra era um retrato de um mundo cada vez mais conectado às redes da informática, sendo que, naquele tempo, a internet ainda estava só engatinhando. Além disso, o filme tratava da questão sobre os significados da alma, lembranças, individualidade e qual o nosso papel no mundo. Não é a toa que o filme serviu de inspiração para o nascimento de inúmeros filmes posteriormente como foi no caso de Matrix de 1999.

Passaram-se os anos e sempre havia inúmeros boatos sobre uma versão americana em carne e osso da obra. Depois de muita espera, finalmente chegou essa versão, intitulada agora de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell e estrelado pela atriz Scarlett Johansson (ótima, aliás), sendo que foi uma escolha criticada por parte dos fãs, já que eles queriam uma atriz japonesa. Polêmicas à parte, o filme em si possui um dos mais belos visuais do ano, mantendo a premissa principal da obra original, mas não se aprofundando em sua essência como um todo.

A maioria dos personagens conhecidos do clássico estão lá, mas inseridos de uma forma um tanto que diferente. Batou (Pilou Asbaek), por exemplo, é mais humano, obtendo toques de humor e a origem dos seus olhos biônicos. Já a Mira Killian (Johansson) é que mais passou por uma readaptação, não com relação ao seu visual, mas sim às suas motivações. Se na obra original a personagem vivia em conflito com relação ao seu “eu”, aqui ela passa a tentar descobrir sobre a sua verdadeira origem, já que ela não se lembra de quase nada antes de ter o seu corpo praticamente todo substituído por uma tecnologia avançada.

Está mais do que claro que os roteiristas e o diretor Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador) optaram por seguir uma linha narrativa da qual as pessoas do ocidente pudessem captar melhor a trama e conseguissem se identificar com os personagens. Se por um lado eles amenizam os temas complexos da obra original das quais eu citei acima, por outro lado, eles conseguiram manter fieis ao visual e criando um universo em que os prédios estão impregnados com propagandas holográficas, as ruas invadidas pelo comércio dos mais variados tipos e com pessoas convivendo com outras das quais possuem as suas partes cibernéticas.

Aliás, é interessante observar como são bem inseridas as mais diversas culturas dentro da trama, tanto as orientais como ocidentais e fazendo a gente não se perguntar onde se passa a trama, já que ela poderia se passar em qualquer outra parte do globo. Isso rende até mesmo um espaço para fazer uma dura crítica contra a propaganda da “não à imigração” do qual o Presidente Donald Trump prega atualmente, já que numa determinada parte da trama, isso é muito bem explorado e reacendendo ainda mais o assunto dentro da ficção. Embora com essas readaptações, os roteiristas conseguiram inserir passagens clássicas da obra original, como quando ocorre o clássico duelo na água, ou quando a protagonista enfrenta um robô tanque gigante e tendo consequências imprevisíveis.

Porém, não esperem por um filme de muita ação e efeitos visuais do começo ao fim, pois embora eles estejam inseridos na trama, eles somente ocorrem quando roteiro necessite que isso realmente aconteça. Ao mesmo tempo, o filme falha por não ter um vilão carismático, sendo que o Chefe dos Fantoches da obra original, mesmo a gente não enxergando ele como um todo (só assistindo ao clássico para entender o que eu estou dizendo) era muito mais interessante. Ao invés disso, é inventado um personagem que possui forte ligação com o passado da protagonista e um empresário ambicioso que, se não fosse pelas suas ações, a gente até esqueceria que ele existe na trama.

Finalizando, o filme cumpre o que promete, mas ao mesmo tempo, me dá a impressão de que eles não entregaram a obra como um todo. A meu ver, está mais do que lógico que o estúdio tenha um desejo de criar uma franquia da obra e deixando o melhor para mais tarde. Porém, isso empalidece um pouco o resultado final se for comparado com a obra original, já que aquela versão não precisou de continuações ou algo do gênero para se tornar um verdadeiro clássico japonês. 

Com participação mais do que especial da atriz francesa Juliette Binoche (Copia Fiel), A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell pode até ter as suas qualidades, mas a meu ver, servirá mais como janela para o público em geral conhecer a obra prima oriental de 1995.


5 de abril de 2017

FRAGMENTADO (2017)


Após as desastrosas super produções como O Último Mestre do Ar e Depois da Terra, parecia que M. Night Shyamalan havia se vendido aos grandes estúdios e apenas criava filmes sob encomenda. Contudo, aquele cineasta autoral que conhecemos em obras geniais como Sexto Sentido e Corpo Fechado, havia se reencontrado com produção barata e estimulante que foi A Visita.

Agora, Shyamalan finalmente se estabilizou novamente e lançou Fragmentado, um filme que, não só prova que o lado autoral do cineasta está mais vivo do que nunca, como também comprova que sua criatividade ainda não se esgotou.

Acompanhamos a história de Kevin (James McAvoy, espetacular), um rapaz atormentado, que decide sequestrar a jovem Casey Cooke (Anya Taylor-Joy, do filme A Bruxa) e suas duas amigas num estacionamento. Quando acordam, elas se encontram numa espécie de porão, onde há somente uma porta onde é aberta e fechada pelo Kevin. Para piorar, Kevin possui 23 personalidades diferentes, das quais comandam o seu corpo e correndo o sério risco de haver uma 24ª quarta ainda desconhecida e muito perigosa [veja o trailer abaixo].

Após a apresentação dos personagens, Shyamalan não tem pressa em nos dizer o que realmente está acontecendo na tela, mas se usa de charadas através da sua câmera, criando assim inúmeras possibilidades sobre o que realmente está acontecendo na história. Só começamos a ter uma base da situação quando conhecemos, não só as outras personalidades de Kevin, como também a outra peça chave desse tabuleiro que é a psiquiatra Karen Fletche (Betty Buckley, do clássico Carrie: A Estranha), da qual cuida de Kevin. Ela o analisa não só para ajudá-lo, mas também para estudar os significados da mente humana e seus mistérios. Ao mesmo tempo, a jovem sequestrada Casey já vive enfrentando os seus demônios interiores, já que ela sofre com lembranças que vão se revelando de forma trágica.

Mais do que um filme de suspense, Shyamalan cria um verdadeiro mosaico de significados e teorias sobre a mente humana e faz com que nos perguntemos onde ela começa e termina. Tanto sequestrador como sequestrada são vitimas de abusos desde cedo, mas cada um enfrenta conseqüências distintas. Casey, por exemplo, não esconde o fato de ser uma possível psicopata em potencial, mas demonstra que no fundo há algo que a separa do universo insano de Kevin.

James McAvoy nos brinda aqui com o melhor desempenho de toda a sua carreira, pois sua interpretação é tão intensa e assombrosa que, por um momento, acreditamos que ele está trocando realmente de personalidade em cena. Sabendo do potencial que tem em mãos, Shyamalan não desgruda a câmera do rosto do ator e capta todas as mudanças faciais no momento da transição de uma personalidade para a outra do personagem: o plano sequência em que Kevin se encontra em uma sessão com a psiquiatra e ocorre a mudança de personalidade é desde já um dos melhores momentos do filme.
Embora não seja um falso documentário, assim como foi apresentado no filme A Visita, Shyamalan pegou gosto em focar os rostos dos protagonistas durante vários minutos e registrando cada momento de mudança de comportamento deles. Embora o personagem de McAvoy seja o foco principal neste quesito, a veterana atriz Betty Buckley não fica muito atrás, já que o cineasta registra toda a ambiguidade da qual a sua personagem transmite para nós e faz a gente se perguntar quais os motivos dela querer ajudar Kevin a fundo, mesmo correndo sério risco de vida. As seqüências de ambos em cena é sempre um deleite, não só pelo fato do extraordinário desempenho McAvoy, mas também pelo fato de Betty Buckley não ficar muito atrás no domínio de cena.

É claro que por ser um filme de M. Night Shyamalan, muitos fãs esperam que ocorra uma reviravolta no final da trama, assim como aconteceu em seus melhores filmes. Adianto que não é exatamente isso que acontece aqui, mas sim uma espécie de pergunta da qual ele deixa no ar sobre os eventos que aconteceram no decorrer do filme, já que a trama pode ser interpretada como algo que faça parte tanto do gênero fantástico, como também algo que transita pelo mundo real, gerando então uma verossimilhança e da qual ela sempre esteve presente nas entrelinhas dos seus filmes anteriores. De quebra, o cineasta nos brinda com uma cena final inesperada e fazendo os fãs de um dos seus filmes mais conhecidos pularem das cadeiras de tanta alegria.

Fragmentado, não só é um dos melhores filmes de M. Night Shyamalan, como também é uma aula de como se deve ser feito os filmes atualmente, já que muitos são lançados com grandes expectativas, mas a maioria ficando sempre só na promessa.

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